No meio de nós

O caso McCarrick ainda nos surpreende!

Podem-se mudar todos os processos e apontar todos os problemas e falhas dos processos para bispos, mas nunca serão processos isentos de falhas, porque não são processos matemáticos, mas que existem algo que às vezes nos falta a todos: a verdade!

Theodore McCarrick foi um dos cardeais mais influentes dos Estados Unidos da América afastado aos 88 do seu cardinalato, das suas funções de bispo e ainda de padre. Este homem passará o que lhe resta da sua vida em oração e afastado da vida pública.

O que está por detrás desta decisão tão drástica? Décadas de abusos de poder e de abusos sexuais que nunca chegaram a ser detetados durante os processos que fizeram dele bispo auxiliar, bispo titular de Washington e por fim cardeal.

Depois de ter havido denúncias que remontam aos anos setenta, mas também mais atuais, e tomada a decisão de afastar o cardeal de todas as funções eclesiásticas, o Papa Francisco pediu um relatório que trouxesse à luz os problemas que ocorreram para que nunca se tivesse percebido os desvios e abusos levados a cabo por Theodore McCarrick.

O relatório feito ao longo de dois anos e que reúne todo o processo de elevação ao episcopado e ao cardinalato deste homem foi tornado público pela Santa Sé, de forma que a opinião pública perceba que a Igreja Católica não tem nada a esconder, nem mesmo as suas falhas mais terríveis.

O que revelaram estes relatórios? O que todos sabíamos já! Houve falhas!

O relatório explica a história das virtudes e das falhas que são inerentes aos processos de nomeação de bispos e de cardeais. É um processo meticuloso que obriga as autoridades da Igreja a escutarem centenas de pessoas para se pronunciarem sobre o candidato.

É verdade que já nos anos noventa houve rumores que se apontavam sobre os abusos sexuais de Theodore McCarrick! É verdade que houve algumas indicações contrárias à sua nomeação para bispo de Washington! Mas também é verdade que a maioria das coisas que foram aparecendo era, então, meras conversas de corredor sem quaisquer fundamentos com provas.

Claro que se na altura se soubesse o que hoje se sabe, nunca se teria deixado chegar a bispo alguém daquela envergadura. Mas, claro, na altura não se sabia o que se sabe hoje e nós temos sempre a tentação de julgar os acontecimentos passados com o conhecimento que possuímos hoje.

Podem-se mudar todos os processos e apontar todos os problemas e falhas dos processos para bispos, mas nunca serão processos isentos de falhas, porque não são processos matemáticos, mas que existem algo que às vezes nos falta a todos: a verdade!

Se não há verdade de todas as partes, não se pode nunca erradicar a mentira dentro de qualquer que seja a instituição.

A primeira coisa que noto é o seguinte: há mais de vinte anos que os Estados Unidos da América criaram comissões de investigação sobre pedofilia e de ajuda às vitimas, principalmente depois do caso de Boston. Porém, o caso de McCarrick só eclodiu quando este tinha 88 anos com o testemunho de uma vítima.

Quando se pensa que se tem a casa arrumada com a criação de inúmeras comissões e estruturas e demais programas e projetos de combate à pedofilia, mesmo assim, ainda aparecem casos novos, mas antigos.

Todos temos de compreender que a maturidade que se exige a uma vítima para que consiga falar sobre estes assuntos leva o seu tempo e não podemos exigir nada. Cada pessoa tem o seu tempo e a sua hora para se sentir confortável a denunciar os abusos de que foram vítimas.

Este facto leva também a que as instituições continuem ainda sem a posse total do conhecimento dos problemas que foram criados no passado.

A coisa que noto neste processo está expresso numa carta assinada pelo próprio e dirigida ao secretário do Papa João Paulo II em que McCarrick sob compromisso de honra jura nunca ter tido relações sexuais com quem quer que seja.

Isto veio a revelar-se mentira… E contra as mentiras, não há estrutura que nos valha em nenhuma instituição do mundo.