À Esquerda e à Direita

A vida dos outros, segundo Sérgio Sousa Pinto

As palavras, infelizmente, não conseguem, por inabilidade minha, descrever a cara de Rui Tavares, que ficou mais embaraçado do que uma criança a mentir aos pais. Mas o deputado socialista, como é óbvio, tinha o nome debaixo de língua e avivou a memória do homem do Livre.

Por vezes esqueço-me de que foi um dos filmes da minha vida, mas há quem mo recorde de tempos a tempos. No último programa É Ou Não É, da RTP-1, Sérgio Sousa Pinto reavivou-me a grandeza desse filme quando explicou a Rui Tavares quem foi um dos principais elementos do Parlamento Europeu que comandou a família onde estava o PCP e o BE. Sérgio Sousa Pinto, que leu os mesmos livros que o antigo dirigente do BE e fundador do Livre, questionou Rui Tavares se ele se lembrava do nome do então líder da bancada comunista e trotskista, ao que o mentor do Livre disse, de forma envergonhada, que não se recordava. As palavras, infelizmente, não conseguem, por inabilidade minha, descrever a cara de Rui Tavares, que ficou mais embaraçado do que uma criança a mentir aos pais. Mas o deputado socialista, como é óbvio, tinha o nome debaixo de língua e avivou a memória do homem do Livre. Afinal, trata-se de um antigo formador da Stasi, a antiga polícia política da RDA, que comandou as tropas comunistas e trotskistas no_Parlamento Europeu no princípio dos anos 2000.

No filme, A Vida dos Outros, um diligente funcionário da Stasi é encarregado de espiar a vida de uma atriz pela qual um ministro estava apaixonado e o ‘bufo’ acaba por se revoltar por ver a podridão do regime. Se a memória não me falha, penso que a atriz acaba por se suicidar, e o agente da Stasi é despromovido e atirado para umas catacumbas da polícia secreta da antiga Alemanha Democrática.

 Sérgio Sousa Pinto explicava aos presentes a tonteria de quererem fazer do Chega o único partido português que convive mal com os valores democráticos. O deputado socialistas deu ainda uma aula de cidadania e elucidou o painel de como se combate o Chega, um partido que Pinto considera repugnante. Fiquei um pouco atónito por ver que é um deputado socialista que consegue ser independente ao analisar o fenómeno partidário, contra o politicamente correto dos outros presentes. Sousa Pinto explicou ainda que sempre foi contra a ‘geringonça’, pois o partido mais votado em 2015 foi o PSD, coligado com o CDS, e que, como tal, também é contra a ‘geringonça’ de direita nos Açores, mas que o PS está a provar do mesmo veneno que criou. E não se cansou de recordar que entre o BE e o PCP e o Chega, as diferenças não são assim tantas. «Quando a direita tenta ensaiar uma habilidade análoga [à de 2015], logo são apelidados de terem uma coligação com nazis, fascistas, descendentes de Hitler e Mussolini».

Mais coisa, menos coisa, Sousa Pinto deu a sua receita para se combater fenómenos como o Chega. É preciso chamar o eleitorado de André Ventura e perceber por que razão está ao lado de um partido que se coloca fora do sistema. E lembrou que essas pessoas não são, seguramente, fascistas ou nazis.

Faltam Sérgios Sousas Pintos ao país. Pessoas que pensam pela sua cabeça, que conhecem a história como os fundamentalistas de esquerda e que não se deixam ir na narrativa de que de um lado estão os bons e, do outro, os maus. A vida, dos outros e nossa, não é a preto ou branco. Há muitas tonalidades e, por muito que nos queiram fazer crer o contrário, não nos vão convencer.

P. S. Donald Trump, uma figura repugnante, digo eu, perdeu as eleições, mas os EUA perderam boa parte do crédito que tinham, devido a uma imprensa completamente cega contra o Presidente. Os meios continuam a não justificar os fins, mas os meios de comunicação social mais prestigiados do mundo entraram numa deriva lamentável. Factos são factos e os nossos gostos não devem ser confundidos com opiniões.

vitor.rainho@sol.pt