Diário de um País Desconfinado

Nunca atravessarás sozinho!

Entre os semáforos de Gamla Stan Tjikko, a árvore que tem 9950 anos, aprendemos a viver nesta eternidade que talvez não dure para sempre.

por Afonso de Melo, enviado à Suécia

Estocolmo – Os semáforos para peões da Gamla Stan, a Cidade Velha, avisam as pessoas aos pares. Vários pares presumivelmente homossexuais, já que podemos observar o desenho estilizado de duas mulheres de mão dada com um coração no meio das duas ou de um homem com o braço sobre o ombro de outro. Há várias conjugações, mas as cores, sendo indiferentes, acabam por nunca o ser, como todos bem sabemos. Se se acender um sinal vermelho com uma moça de mãos dadas com outra – supondo que estou a interpretar corretamente esta nova linguagem dos semáforos, da qual nada sabia até agora – é possível entendê-lo como uma proibição. Proibição de atravessar a rua, é de certeza. O coração minúsculo traz à colação o carinho inerente. O facto de os semáforos trazerem bonecos aos pares parece replicar o cântico dos adeptos do_Liverpool, retirado de um musical (Carousel) que deu brado em 1945, composto por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II: «You’ll never walk alone». E chegado a este ponto, já sei o suficiente sobre a linguagem dos semáforos para perceber que, por mais perigosa que seja a rua que atravessamos nesta parte velha de Estocolmo, nunca a atravessaremos sozinhos. Depois, cada um escolha a quem quer dar a mão ao colocar os pés nos riscos brancos da passadeira...

As caras a descoberto. Algo que nos desabituámos de ver nas cidades de Portugal. Ficámos reduzidos aos olhos e por mais que os olhos falem não há nada que substitua um sorriso. Há um antigo ditado romeno que diz: «Sorri, sorri muito. Não é por sorrires a alguém que tens de ficar seu amigo para sempre». Os suecos não acreditam nas máscaras. Defendem um estudo que considera que a sua eficácia não ultrapassa os 5%. Todos têm estudos e percentagens para mostrar neste tempo em que os números tomaram o lugar dos homens. Falamos de mortos, não de pessoas. Os condutores de autocarros de Estocolmo não usam máscaras, mas não deixam que os utentes usem a porta dianteira, o que os obrigaria a cruzarem-se com eles. O povo entra pela porta de trás e aproveita para não pagar, pois evita o obliterador. O primeiro-ministro pede para que as pessoas não se juntem em grupos que ultrapassem a dúzia. Pede, não ordena. A polícia não enche as ruas com a sua presença incomodativa como uma lembrança de Pinochet. Cada um é responsável por si mesmo e pelos outros. E pelo meio dos responsáveis deslocam-se os irresponsáveis. É assim que vivemos desde o início dos tempos. Às três e meia da tarde é noite e o céu tem o tom da baquelite. Cada janela tem um candeeiro aceso dentro das casas. Ficam acesos à medida que, em redor, a cidade vai ficando cada vez mais negra, como se imitassem raios de sol que só prometem regressar na primavera. Põe uma luz na tua janela. Não é por acenderes um candeeiro que estás a desmentir o sol.

No monte de Fulufjället, região da Delacárnia, no centro do país, existe uma árvore com nove mil novecentos e cinquenta anos, assim mesmo, por extenso. É um pinheiro-nórdico. Aqui chamam-lhe pinheiros noruegueses. Nunca fui a Fulufjället; nunca vi o pinheiro com mais de nove mil anos, mas já ouvi dizer que quem o viu sentiu uma profunda desilusão. Um pinheiro com milhares de anos imagina-se gigantesco, poderoso, inatingível. Mais ainda: um pinheiro com milhares de anos pura e simplesmente não se imagina.

O pinheiro de Fulufjället não é um pinheiro: é uma analepse. Um regresso do regresso do regresso. E ao mesmo tempo o seu contrário: uma prolepse. O futuro do futuro do futuro. É esse o motivo da sua desilusão. Quem o enfrenta não se confronta com uma árvore vetusta e imensa: fica frente a frente com os ramos raquíticos que brotam de um tronco fino; fica frente a frente com uma fotografia.

O pinheiro de Fulufjället chama-se Tjikko. Os estudos determinados pela datação de carbono atribuem-lhe a idade correta de 9562 anos. Tem cinco metros de altura e foi descoberto por um professor de Física e de Geografia da Universidade de Umea, Leif Kullman. Foi Leif quem lhe deu o nome, em memória do cão que lhe morrera. As suas raízes remontam à fase do degelo na Escandinávia. São as suas raízes que têm raízes nas raízes das raízes. Não é, portanto, a árvore em si, mas o princípio da árvore que remete para o princípio de todas as árvores da região. Tjikko surge da noite dos tempos e terminará na noite dos tempos que hão de vir. Aceitemos que é uma metáfora de nós, os homens. E daquilo que vamos deixando aos nossos filhos, o que recebemos dos nossos pais, que por sua vez receberam dos avós e continuará nos nossos netos. Tjikko é uma metáfora da vida. Não sabemos se é infinita. Mas sabemos que continua presa aos fundamentos de sermos herdeiros de uma eternidade. Vivamos essa eternidade por inteiro, mesmo que ela, afinal, não dure para sempre.