Cultura

"O objetivo foi fazer um disco onde a herança da Amália fosse respeitada"

Um encontro entre duas das maiores referências do fado, e das suas respetivas gerações, é assim que o disco Mariza canta Amália, editado na passada sexta-feira e com um nome bastante autoexplicativo, pode ser descrito.

Um encontro entre duas das maiores referências do fado, e das suas respetivas gerações, é assim que o disco Mariza canta Amália, editado na passada sexta-feira e com um nome bastante autoexplicativo, pode ser descrito.

A autora de Ó Gente da Minha Terra desafiou-se, no ano em que se celebra o centenário do nascimento da fadista Amália, mas também os vinte anos da carreira de Mariza, a criar um disco onde revisitasse os temas da icónica fadista portuguesa e que atribuísse uma intemporalidade e qualidade que permitisse que fosse ouvido por «um americano, por um brasileiro, por portugueses».

Em entrevista ao b,i., Mariza fala sobre o reencontro com o produtor Jaques Morelenbaum, que trabalha também com músicos como Ryuichi Sakamoto, Sting, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia, como descobriu a música de Amália e as maiores dificuldades que sentiu em gravar as suas músicas.

Como surgiu a ideia de gravar este disco onde apenas canta músicas da fadista Amália?

A ideia já existia há muitos anos, mas eu e o João Pedro Ruela, o meu manager, dizíamos sempre que um dia iríamos fazer um disco tributo à grande diva [Amália], por todo o legado que deixou. Na realidade, só comecei a conhecer as músicas que fazem parte do Universo da Amália muito tarde, tinha os meus 16 anos. Nessa altura não cantava fado, ouvia, por causa do bairro onde nasci, mas não cantava. Comecei a conhecer o seu trabalho e mais tarde, quando regressei ao Sr. Vinho [casa de fados], quando recomecei a cantar este estilo, aí começo mesmo a conhecer o seu reportório, muito devido à casa de fado, ao Jorge Fernando [músico que fez parte da banda de Amália] e à curiosidade que começou a crescer dentro de mim. Fez com que fosse à procura de mais e a pesquisar músicas que não conhecia. Este disco sempre esteve presente em ideia, mas nunca soube quando é que o iria fazer, não havia uma data especifica para o fazer. Acontece que, há um ano e meio, estava a ouvir um álbum que adoro, Francis Albert Sinatra & António Carlos Jobim, um disco com orquestra, e fiquei com essa ideia na cabeça. Uns dias depois recebi uns amigos de São Francisco e cantei-lhes a Estranha Forma de Vida e foi aí que decidi avançar com este disco. Convidei o Jaques Morelenbaum [produtor], que disse ‘se eu não tivesse espaço na agenda, arranjaria’, e começámos a trabalhar. Tive de fazer uma escolha do reportório, foi extremamente custoso cortar temas, e o nosso objetivo passou a ser fazer um disco onde a herança da Amália fosse obviamente respeitada, mas também torná-la intemporal.

Gostava de aprofundar um pouco mais a sua relação com Amália, ainda se lembra da primeira vez que ouviu a fadista?

Lembro-me, devia ter 15 ou 16 anos, foi na altura em que deixei de cantar fado. No meu bairro, numa daquelas noites em que todos tem uma guitarra e todos cantam, que hoje já não existe, cantei e alguém me disse que eu era diferente, o que me deixou insegura e deixei de cantar. Mais tarde, estava a caminhar na baixa e estou a passar numa rua onde tinha uma loja que vendia discos e ouço o Barco Negro. Entrei na loja, perguntei quem era e o proprietário ficou a olhar para mim incrédulo: ‘Não sabe quem é? É Amália!’ Cheguei a casa entusiasmada e disse ao meu pai que tinha descoberto uma grande cantora, quando lhe disse que era a Amália ele começou a rir-se, pois claro. Eu conhecia dois ou três temas de Amália, mas nem sabia que eram dela. Durante muitos anos as rádios, mesmo as portuguesas, não passavam fado. Conheço muitos artistas portugueses, porque em minha casa se ouvia muito rádio, mas fado não, não passava. Era mais difícil encontrar, não é como hoje que é só ir à internet procurar. Depois de deixar de cantar fado, tive vários grupos, de soul, funk, jazz, viajei bastante, e quando volto comecei a cantar uma vez por semana no Sr. Vinho, e começo a sentir toda a paixão por aquilo que aprendi em miúda e vontade de saber ainda mais. O Jorge Fernando começou a falar-me da Amália o que me despertou uma curiosidade gigante. Comecei a comprar CD’s e a ouvir mais músicas da fadista. Todos os dias, quando a Maria da Fé fechava a porta do Sr. Vinho, saímos todos juntos e eu dizia sempre: ‘Amanhã vou acordar cedo (que eu nunca acordo, a não ser quando tenho alguma obrigação) e vou bater à porta da D. Amália e pedir-lhe por favor de me ensinar a cantar’. As pessoas riam-se de mim e eu não percebia porquê. Porque é que não podia bater à porta da senhora e fazer-lhe este pedido. Mas nunca aconteceu. Nunca a conheci e tenho uma pena gigante nunca ter ouvido ao vivo a sua voz.

Da seleção de músicas que fez, qual lhe deu mais prazer gravar e cantar?

Apesar de ter gostado de cantar todas, existem duas músicas que amei cantar. Quando fui para o Brasil gravar o disco com o Jaques, ele disse-me que era impossível gravar um disco com tantos temas e tive de cortar a minha seleção. Mas sabia que havia uma música, Cravos de Papel, que tinha na minha cabeça que queria cantar. Ficou com um arranjo giríssimo e deu-me um prazer enorme de interpretar nos cinco concertos que consegui fazer ao vivo este ano [risos]. A outra foi o tema Lágrima, que era um dos temas que não era para ficar. Sempre o ouvi na taberna dos meus pais cantado de uma forma completamente diferente, muito chorado e melancólico, e quando comecei a ouvir Amália, com a sua voz maravilhosa e potente, apercebi-me que tinha uma perspetiva completamente diferente do tema. Sinto-o como uma balada e, apesar de transparecer uma certa melancolia, existia uma felicidade de ter encontrado um sentimento tão nobre que é o amor, há pessoas que passam uma vida inteira sem o encontrar. Apesar desta música nos dar a entender que o amor nunca aconteceu, existe a felicidade de o ter encontrado. Sentia este poema de forma diferente e quando cheguei ao Brasil uma das coisas que disse ao produtor foi que não queria cantar este tema. Tenho uma forma tão diferente de cantar o tema que não a queria mostrar. Sei que não canto igual nenhum dos temas, nem queremos estar próximos de isso, mas sentia a minha forma de cantar demasiado diferente. Sentia a música como uma balada. O Jaques argumentou que ‘o universo dessa cantora é um mundo completamente à parte’. ‘Ninguém canta igual a ninguém, querias que a Nina Simone cantasse da mesma forma que a Ella Fitzgerald? Não tem como!’. Eu continuava intransigente, mas ele convenceu-me a experimentar. Quando comecei a ouvir a delicadeza da primeira versão da música, apenas com piano, viola e contrabaixo, parecia uma renda, cantei a música e soou exatamente como na minha imaginação. Gostei e disse que podia ficar. Estes são os dois temas que mais prazer me deram.

Como foi o processo de criar estas novas versões das músicas de Amália?

Não tenho pretensão de cantar igual a Amália, nunca tive, nem quero. Quero ser eu. Por isso, este disco está cantado à minha maneira fazendo um tributo e homenagem à maior cantora de fado que Portugal já conheceu, no século XX. É uma diva com um legado maravilhoso para ser cantado, revisitado e lembrado, acho que é isso que prevalece.

 

Esteve a explicar quais foram as músicas que mais gostou de cantar, mas quais foram aquelas que se revelaram mais desafiantes?

Foi precisamente a Barco Negro. Já a cantava antes de a ter gravado para o meu primeiro disco [Fado em Mim, 2001] e continuei a cantar quase todos os dias durante 20 anos. Até ao meu filho nascer fazia quase 200 concertos por ano, e, este ano, para celebrar os 20 anos desse disco, vamos fazer 110, portanto, são quase todos os dias a cantar este tema. Os meus concertos têm sempre no alinhamento Barco Negro, Chuva e Gente da Minha Terra. Já tinha dito ao Jaques que queria revisitar este tema e com orquestra, mas nunca me passou me passou pela cabeça que ele fosse fazer um arranjo tão diferente. Ao início não sabíamos bem em que partes é que deveríamos encaixar a voz e tivemos que dar algumas voltas ao arranjo até compreendermos tudo [risos]. Conseguimos entendermo-nos, mas até chegarmos a esse consenso foi custoso.

Este é o seu reencontro com Jaques, como foi voltar a trabalhar com este produtor?

Nunca perdemos o contacto. Respeito imenso o legado de Amália e o Jaques, conhecendo minimamente, também partilha este sentimento. Acontece que também nos respeitamos mutuamente, ele respeita-me como cantora, e eu respeito-o como músico e maestro. Estivemos sempre juntos, falamos muito, fizemos vários concertos juntos e trabalhei com ele e a sua orquestra no Brasil. Estivemos sempre em contacto e voltar a trabalhar juntos era algo que tínhamos em ideia, apesar de não sabermos quando. Nunca tinha pensado que este disco seria feito com o Jaques. Nunca imaginei ir ao Brasil gravar, mas tudo se casou para que isso acontecesse e foi pelo melhor. Foi mesmo antes da pandemia começar, antes de começarem a fechar tudo. O disco foi gravado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, já era para ter saído, mas como estes são tempos diferentes e imprevisíveis tivemos que adaptar o calendário.

O que acha que os arranjos de Jaques acrescentam à música de Amália?

A intemporalidade. Este é um disco que pode ser ouvido por um americano, por um brasileiro, por portugueses porque a qualidade está lá. O Jaques tem esta qualidade, e a sua cabeça musical é incrível, vem de um mundo onde a música anda e respira de uma forma universal. Estamos a falar de um músico que trabalha com músicos como Ryuichi Sakamoto, o Sting, Gilberto Gil, Caetano Veloso ou Maria Bethânia. Ele é um outro mundo, e quando a música respira mundo pode ser mostrado em todo o mundo.

Ao trabalhar e adaptar as músicas da fadista não se sente um pouco intimidada pela reação dos fãs mais acérrimos de Amália, que poderiam ficar revoltados por alguém estar a mudar o trabalho da cantora?

Por que é que alguém haveria de ficar revoltado se continuamos a cantar e a valorizar o nome de Amália? As pessoas só continuam vivas quando nos lembramos delas e quando lhes damos importância e respeitamos. Foi isso que aconteceu neste trabalho. Queríamos relembrar o legado e herança que nos deixou, com o maior respeito, e tentar mostrar ao mundo a grande cantora que temos em Portugal e que nos representa como um símbolo cultural.

 

Depois de gravar este álbum de versões de Amália, se tivesse a oportunidade de gravar um disco com músicas de outro cantor ou cantora, quem é que gostava de homenagear?

Provavelmente, nunca mais faria um disco assim, mas gostaria de relembrar temas de Max, o cantor madeirense que cantava a Pomba Branca.