Fundo? Ainda não chegámos, mas estamos quase lá

Isto não pode ser o 'Perdoa-me' da televisão

 É óbvio que a crise pandémica contribuiu para esta verdadeira ‘tempestade perfeita’, mas será um erro grave insistir na ideia de que, sem a pandemia, tudo seria substancialmente diferente e estaríamos a caminho do melhor dos mundos. Não estaríamos.

Já não dá para ocultar mais: o país vive uma grave crise económica e social com desfecho incerto e com os caminhos cada vez mais estreitados para conseguir a normalização. É óbvio que a crise pandémica contribuiu para esta verdadeira ‘tempestade perfeita’, mas será um erro grave insistir na ideia de que, sem a pandemia, tudo seria substancialmente diferente e estaríamos a caminho do melhor dos mundos. Não estaríamos. Em 2015 estávamos a entrar no princípio do fim da crise das dívidas públicas da Zona Euro, conseguindo uma saída limpa em relação ao programa imposto pelos credores externos, mas havia ainda muito caminho a percorrer, muitas soluções a encontrar e muitos equilíbrios a consolidar. Foi lamentável que, nessa época, a obsessão de alguns com o poder pessoal, tivesse desprezado o verdadeiro interesse nacional, iniciando um processo de subversão do adquirido político e conduzindo o país, e em especial a sua economia, por um caminho desajustado e artificial. Aproveitando a almofada do esforço de estabilização financeira, penosamente obtida nos anos da intervenção externa e, em especial, com as alterações significativas na conjuntura económica europeia, associadas a uma alteração de comportamento do BCE perante as dívidas soberanas, foi possível construir a narrativa de que se conquistara, sem necessidade de esforços suplementares, a desejada normalidade. Mas realmente não foi assim e agora o primeiro passo para a sociedade portuguesa encontrar uma via justa, democrática e ajustada para ultrapassar a crise, é compreender essa realidade e respeitar os ensinamentos que nos oferece. E, sobretudo, é compreender que a ‘normalidade’ anunciada nos últimos cinco anos, não passou de uma ‘estória’ bem comunicada, como, de certa forma, o reconheceu o atual governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, através de uma intervenção que teve tanto de insólita como de esclarecedora, mas permitiu, pelo menos, avaliar a verdadeira natureza da governação do anterior ministro das Finanças. A resolução da atual crise global precisa, cada vez mais, de protagonistas determinados e esclarecidos sobre a gravidade da situação presente e do que esteve na sua origem, e, por outro lado, a retoma dispensa episódios grotescos de confissão na praça pública, de vícios privados ou públicas virtudes. 

Em política não basta assumir erros, é preciso corrigi-los de forma eficiente e definitiva. Até porque, na vida pública, normalmente, quem comete erros graves e confessados, deve sair e dar o protagonismo a outros e não sendo este o momento possível para essas mudanças, o mínimo que pode ser exigido é que os principais responsáveis não encenem um espetáculo de apresentação de desculpas, como se estivessem num popular programa de televisão. Não é aceitável, que em pleno decurso de um decisivo processo orçamental que marcará, para o bem e para o mal, o futuro imediato dos portugueses, se esgotem energias em recados cruzados e ameaças crípticas ou se desperdicem capacidades a analisar, na especialidade, 1542 (?) propostas de alteração do OE, a maioria das quais sem conteúdo ou justificação. É também inconcebível, na véspera de uma indesejada mas possível rutura do SNS, ouvir o líder do PCP (um dos partidos que aguenta o Governo) exorcizar e repudiar, por exclusivo preconceito ideológico, o apoio e a complementaridade do setor privado da saúde no combate à crise nos hospitais, reconhecido na Constituição, juízo no qual, aparentemente, é acompanhado pela ministra responsável pelo setor. 

Finalmente é também preocupante que a agenda dos jornais e das televisões se esgote quase totalmente na divulgação, até ao nível do terror, com a má, incompleta e contraditória informação prestada pela Direção-Geral de Saúde sobre a evolução da covid-19 e com o debate ‘ad nauseam’ e nunca concluído, das virtudes da ‘geringonça’ de 2015 ou das vantagens da carripana dos Açores. Parece que, infelizmente, o bom senso já não voltará a curto prazo, não apenas porque o estado de saúde global não melhorará de imediato, mas, sobretudo, porque dentro de dois meses teremos eleições presidenciais e, já se viu, que ninguém aproveitará o período de campanha, para discutir os verdadeiros problemas do país, para traçar os objetivos possíveis e propor os caminhos e os meios necessários para os alcançar. Dificilmente resultará do confronto dos programas dos atuais candidatos à eleição uma verdadeira alternativa ao estado da arte da política portuguesa. A incompreensível ausência, no próximo escrutínio, de candidatos credíveis e experientes oriundos dos setores do centro direita e do centro esquerda (Passos Coelho e António José Seguro, por exemplo), reduzirá a escolha dos portugueses à procura da mera estabilidade institucional, sem demasiados acidentes de percurso, ou seja, à reeleição, por defeito, de Marcelo Rebelo de Sousa, o atual titular do cargo. 

A clarificação esperada e necessária, ficará, outra vez, adiada, agora para o fim de 2021, quando for possível, finalmente, realizar eleições legislativas. Entretanto, haverá tempo para, ultrapassados os muitos obstáculos que ainda subsistem, começar a receber em Portugal a anunciada bazuca financeira de mais de 45 mil milhões de euros que, se tudo correr bem, será disponibilizada até 2027. Se vem a tempo ou não, só, no futuro, se saberá.