Sociedade

Como se escolhe uma vacina?

"As primeiras vacinas no mercado podem não ser as que têm as melhores características", avisa Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular.

Depois de tantos meses à espera, ansiosos, poderemos ter o luxo de decidir entre várias vacinas, feitas por diversas farmacêuticas, com abordagens diferentes. Contudo, «isso levanta a questão de como vamos ajuizar quais são as melhores opções», avisa ao SOL Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM) e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. «Porque, eventualmente, as primeiras vacinas no mercado podem não ser as que têm as melhores características», salienta. «Pode ser preciso alguma ponderação, não aceitar logo as que chegam primeiro, manter a presença de espírito, talvez até fazer um compasso de espera».

«Primeiro, é preciso ter em conta que umas vacinas podem ter mostrado eficácia para uma população mais velha, outras para populações mais novas. Umas, podemos saber que são eficazes em mulheres grávidas, outras, podemos não ter essa informação», exemplifica o investigador. Por exemplo, sabemos que a vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford criou uma resposta imunitária forte nas pessoas mais velhas. «Devemos planear no sentido de abranger o maior espetro possível da população, mas o ideal seria fazer uma opção seccionada, de acordo com o perfil das pessoas».

«Obviamente que, nesta altura, também interessam outros fatores. Se já temos capacidade de distribuição para uma vacina, em princípio damos preferência àquela em que não é preciso estar a montar uma infraestrutura, por exemplo com uma nova rede de frio», explica Miguel Castanho, referindo-se a vacinas de RNA, como a da Pfizer e da BioNTech, ou a vacina da Moderna, que têm de ser mantidas a -70 ºC e -20 ºC, respetivamente. E estas vacinas ainda têm a dificuldade de requererem duas doses, aplicadas com semanas de diferença, dificultando a logística.

No caso da vacina da Pfizer e da BioNTech, que requer temperaturas abaixo do que se sente num dia frio na Antártida, a cadeia de frio será um enorme desafio, mas não impossível. A vacina contra o ébola, por exemplo, que requeria temperaturas semelhantes, foi utilizada com sucesso em vários países da África ocidental – mas a compra de arcas frigoríficas em massa tornaria o preço final da vacina muito mais elevado.

«Outro fator é o preço, que não é igual para todas as vacinas», salienta Miguel Castanho. Sabemos que a Pfizer cobrou 20 dólares (16,7 euros) pela sua vacina; a Moderna, entre 10 e 50 dólares (8,4 e 41,8 euros); e a AstraZeneca, menos de 4 dólares (3,3 euros). «A saúde não tem preço, mas as vacinas e os medicamentos têm».

 

Confusão e dinheiro

Com tanto em cima da mesa, com as nossas vidas em pausa, Governos pressionados a fechar e a reabrir economias, quando todos os dias vemos o número de casos a aumentar, com mais de 61 milhões de infeções registadas e 1,4 milhões de mortes, a ideia de esperar por uma vacina melhor parece impossível.

«Sim, sem dúvida nenhuma. Mas é por isso que existem especialistas técnicos, profissionais, que fazem grupos de trabalho para analisar o assunto», assegura o investigador. E a necessidade de cautela só é reforçada pelas dúvidas quanto à vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford, cuja apresentação de resultados preliminares tem sido questionada.

Logo à partida, a vacina britânica – de que a União Europeia já comprou 300 milhões de doses, avançando com 336 milhões de euros, com opção de compra de mais 100 milhões – era das que suscitavam maiores esperanças, tendo sido a primeira a entrar na última fase de ensaios clínicos.

A expetativa aumentou ainda mais quando saíram resultados preliminares nos EUA, com a vacina Pfizer e BioNTech a mostrar uma eficácia estratosférica, acima de 90%, bem como a da Moderna. Foi uma explosão de esperança – o critério mínimo de eficácia de uma vacina estava apenas nos 50%, poucos esperavam algo acima dos 60%, 70%.

Com a pressão no máximo, a AstraZeneca mostrou os seus resultados preliminares, e foi uma confusão. Em comunicado, a farmacêutica salientava que a vacina tinha até 90% de eficácia – já o comunicado da sua parceira, a Universidade de Oxford, falava de 62% de eficácia ou de uma eficácia média de 70%. Acabaram por explicar que se enganaram com umas 3 mil cobaias que, em vez de tomarem as duas doses da vacina, receberam só meia dose na primeira toma. Surpreendentemente, e sem qualquer explicação concebível, esse grupo tinha 90% de imunidade, em vez dos 62% que tinham os restantes – a AstraZeneca fez a média e daí é que vieram os 70%.

«Estes 70% são uma média estatística sem significado prático. O que deve estar em cima da mesa é o que for aprovado pelas entidades reguladoras porque, se não estiver aprovado, nem sequer pode ser usado, ponto final», refere Miguel Castanho. Ou seja, o que interessa são os 62% de eficácia. A AstraZeneca já anunciou que vai fazer um segundo ensaio em que só dará meia dose na primeira toma, mas isso deverá demorar bastante – o que significa que quem tomar esta vacina nos primeiros tempos de distribuição terá de tomar duas doses.

O motivo para a discrepância continua a ser um mistério. «Não existe uma explicação óbvia de porque é que uma pessoa com uma dose menor acaba por ter uma imunidade maior. Mas os testes não se destinam a justificar, são testes de eficácia, dizem, preto no branco, se protege ou não», nota o investigador. Até o erro que levou voluntários a receber meia dose é difícil de perceber. «Posso dizer-lhe que num processo de investigação científica, estes enganos não são frequentes. Mas podem acontecer».

Importa salientar que 62% de eficácia não é um falhanço. Mas sabe a pouco comparado com a eficácia acima dos 90% das vacinas da Pfizer e da Moderna. Daí que a AstraZeneca esteja a ser acusada de embelezar os seus resultados quando estão milhares de milhões de euros em jogo – o preço das suas ações já caiu uns 5% desde que saíram os resultados.

«No atual ambiente, comunicação cuidadosa é essencial», avisou a Reuters, notando que a percentagem da população que recusa tomar vacinas está a aumentar. «Embora os gigantes farmacêuticos tenham prometido não lucrar com as vacinas contra a covid-19 durante a pandemia, a velocidade da investigação em si tem inspirado dúvidas».

 

Receios e garantias

Quando costuma chegar a demorar uma década para uma vacina ser aprovada, muitos questionam-se como foi possível estarmos tão próximos de uma vacina para a covid-19 tão rapidamente. «Eu não diria que há motivo para receios, mas há motivos para a cautela. Porque a pressa nunca foi boa conselheira e fazer depressa não é fazer à pressa. E se os procedimentos são como são é porque temos uma experiência acumulada de muitos anos a fazer medicamentos. Não estamos a falar de burocracia, estamos a falar de análise de resultados», assegura Miguel Castanho.

«Agora, o facto de haver uma urgência muito grande em conseguir a vacina pode levar a que os critérios estatísticos com que se vão analisar os resultados possam não ser tão, tão apertados como são normalmente», admite.

«Mas compete às entidades reguladoras – e é aí que, mesmo sob pressão, não pode haver qualquer efeito disso, qualquer cedência – olharem com muita frieza para os resultados, verem se eles são claros, se o estudo foi feito como devia ser e se daqueles dados dá para concluir que a vacina é segura, sem reações adversas significativas e com eficácia suficiente».

«Por exemplo, era notório que Trump – que é uma pessoa que não esconde nada – estava a fazer pressão sobre a FDA [a agência que regula os medicamentos nos EUA] e a agência garantia que não se deixaria pressionar, que faria o que devia fazer», afirma.

«Claro que o resultado deste tipo de pressões depende de país para país. Há países onde as instituições são mais fortes, resistem melhor, e há outros onde não têm poder nenhum». Um exemplo podia ser a Rússia, onde se suspeita que os resultados da vacina da Gamaleya, que diz ter mais de 90% de eficácia, possam ter mão do Kremlin..