Cultura

Os descontos que estão a dar cabo das livrarias independentes

Numa altura em que, devido à pandemia, a regra do jogo no sector do livro passou a ser o salve-se quem puder, instalou-se uma guerra de todos contra todos, em que as grandes plataformas digitais aumentam a parada em termos de campanhas de descontos para aproveitar as vendas de Natal, e os próprios editores, mesmo os independentes, procuram vender directamente aos leitores, deixando as livrarias pelo caminho.

 

Na aproximação ao Natal, particularmente num ano incaracterístico como este, em que a peste, para lá das vítimas e dos constrangimentos sociais, parece ter-nos apresentado uma crua radiografia do regime de consumo em que estamos imersos, ficou claro também como é fácil estalar o verniz e instalar-se um verdadeiro campo de batalha. Em grande medida, é o que está a acontecer no sector dos livros, uma guerra de todos contra todos, em que as barricadas opõem por estes dias agentes que antes colaboravam num mercado que tradicionalmente se fazia valer de três componentes: editores, livreiros e leitores. Isto mesmo disse ao Sol a direcção da Rede de Livrarias Independentes (RELI), uma associação de apoio mútuo cuja falta há muito se fazia sentir e que acabou por vencer velhas resistências e ir para a frente assim que ficou claro o impacto que a pandemia iria ter no sector, penalizando primeiramente aqueles que estavam já numa posição mais débil, e agora ainda mais exposta. Antes sendo empurrados do centro das cidades pela especulação imobiliária, e agora enfrentando uma ameaça extraordinária pelo impacto das medidas de contenção no comércio tradicional. Mas o que está a agravar decisivamente as dificuldades sentidas por tantas das cerca de 90 livrarias que integram esta rede são os modelos de adaptação das grandes redes livreiras, as quais, através das suas plataformas de venda online, através dos pouco escrupulosos métodos a que antes já recorriam, têm contornado agora de forma sistemática a Lei do Preço Fixo. “Raro é o dia em que uma das grandes redes de livrarias não esteja a oferecer descontos nas suas lojas físicas ou nas suas plataformas online”, denuncia a RELI. E no caso específico da Wook, foram contabilizados os dias em que, ao longo deste ano, e em campanhas amplamente divulgadas, foram aplicadas aos livros promoções de feira, ultrapassando os 25 dias que a lei permite, isto contabilizando a campanha que está a decorrer actualmente, que começou no dia 25 de novembro e que irá prolongar-se até 11 de dezembro. A Wook fechará, assim, o ano tendo realizado descontos durante 38 dias, mais 13 do que o permitido pela lei. E é importante recordar que, recentemente, esta plataforma promoveu um desconto de 100% sobre os livros do seu acervo, o qual seria pago e depois devolvido ao cliente em cartão. A RELI lembra ainda que outro dos descontos promovidos por uma destas plataformas chegava aos 50% e incidia sobre livros novos, numa clara violação da Lei do Preço Fixo – a qual impede descontos superiores a 10% em livros com menos de 18 meses. A associação dos livreiros independentes vinca ainda que, através desta promoção, aquela plataforma oferecia ao cliente final um desconto superior àquele que é feito às livrarias independentes. E, tratando-se de uma prática recorrente, a RELI diz que isto ilustra bem “as enormes diferenças nas condições comerciais com que nós e as outras livrarias independentes concorrem com os grandes grupos”. De resto, os livreiros independentes fazem questão de notar que também eles são clientes destes grandes grupos editoriais que concentram também as redes livreiras, e esperam que haja da parte do governo central uma actuação no sentido de fazer respeitar a lei, seja fiscalizando seja penalizando de forma mais severa aquelas entidades que não se importam de pagar as coimas na rara ocasião em que estas são aplicadas pelo IGAC.

As declarações que a direcção da RELI fez a este jornal não se limitam a focar estes desequilíbrios no sector do livro, mas vão mais fundo, e reflectem sobre a forma como “os descontos permanentes distorcem o mercado”, desgastando um sector que depende como poucos de um vínculo com tradições ancestrais. Assim, aponta o dedo à forma como “uma economia completamente desregulada” ilustra a perda de ética que está na base do “capitalismo selvagem”, abrindo caminho a um regime de “canibalização” que se define “pela total falta de escrúpulos” na relação entre os diferentes agentes do sector. E tudo isto surge dissimulado na lógica publicitária montada à volta de tudo o que diz respeito ao livro, todas essas achacantes campanhas de promoção à leitura, multiplicando-se até à vertigem textos desnecessários, avisos que mal nos permitem movermo-nos através de um mundo que continua a apagar-se a uma velocidade que se aproveita de todas as crises para acelerar, degradar o sector, ficando a sensação esmagadora de que tudo se lê para o esquecimento, que todo o fulgor será descartado em nome de ganhos imediatos, que todos os valores serão apagados por quaisquer trivialidades.

A RELI diz ao Sol que, hoje, o seu principal objectivo está identificado: “impedir as sistemáticas promoções das grandes redes livreiras ou dos editores nos seus sites, que prejudicam principalmente as pequenas livrarias independentes. Bem como uniformizar os descontos livreiros concedidos pelos editores e distribuidores às pequenas e médias livrarias”. Esta associação reconhece a diferença que separa os médios e pequenos editores dos outros, mas se admite que também eles são pressionados pelos grandes grupos livreiros, que lhes exigem descontos muito superiores aos tradicionalmente praticados (30%), levando a um aumento dos preços de venda apenas para depois virem com a fantochada dessas campanhas artificiais, no entanto, boa parte dos livreiros com quem temos falado, não deixa de ver a hipocrisia na forma como tantos dos supostos editores independentes, desde os melhor adaptados ao modelo dos vendilhões até àqueles que se dizem muito insolentes, nenhum deles perdeu tempo a criar todas as condições para fomentar a venda directa, passando a perna às livrarias. Assim, a RELI nota que, “com a contração da procura causada pela pandemia e pela crise económica que se agrava, enfrentamos também a concorrência dos próprios editores que promovem a venda directa aos clientes de novidades, adicionando ao desconto permitido por lei a oferta de portes e ainda outras ofertas exclusivas”.

Aos poucos, o modelo do salve-se quem puder tem levado a que as componentes que mantinham entre si um pacto que animava a vida deste sector se atraiçoem por 30 moedas, pondo em xeque a ideia de que cada um desses elementos devia funcionar como uma oficina de leitores, como uma instrução que permite que se compreenda o papel que cada um tem nesta fina trama, nesta longa e ancestral cadeia de relações. De resto, embora nunca ninguém se tenha lembrado de dar o ofício do livreiro como algo de dispensável, é isso o que está a ser ensaiado, quebrando um vínculo essencial entre livreiros e leitores, esses caracteres aliados numa melancolia fantasiosa, partilhando aquele apreço desmesurado pelos livros que faz com que, na sua maioria, sejam tidos por loucos de um género inofensivo. Mas estes loucos também farão parte de uma nação qualquer, ainda que a inventem, a montem e desmontem aqui ou ali sem que, muitos vezes, nos apercebamos disso. E é com o compromisso de contrariar a tendência para o comércio dos livros se transferir inteiramente para o mundo digital, mas sem desconsiderar as suas vantagens que a RELI reafirma como sua actual prioridade a tarefa de construir uma plataforma de venda de livros, a qual pretende ser a maior base de dados nacional. Isto ocorrerá à semelhança do que aconteceu há poucas semanas em Espanha, com mais de 150 livrarias independentes a oferecerem, por fim, uma alternativa à Amazon, unindo-se para lançar o site Todostuslibros.com. Enquanto esperamos algo do mesmo género deste lado da fronteira, a RELI pede aos leitores que não se rendam, e enviou ao Sol ainda algumas frases de ordem ao sabor do Manifesto Anti-Dantas: “Morra a Amazona, morra, porra!/ Sermos governados por algoritmos sem ritmos ou com ritmos a mais ou com arritmias era Wuk mais faltava!/ Abaixo a digitadura, viva a analogia! (...)Viva a ana logia, viva a ana cronia, morra a ana conda!/ O diabo que a carregue, por muito que pese, e morra!”

No meio disto tudo, há quem não veja mal nenhum na tendência para os livros se tornarem artigos desses que se encomenda por catálogo, na internet, e então o mais fácil é lembrar que quando os livros começam a perder aquele aroma de vida quotidiana, não haverá neles quaisquer sinais desse tráfico pouco razoável, as cicatrizes que ajudam a despertar no leitor aquele sentido do sublime identificado por Coleridge, frisando, contudo, que este “surge não da visão de um objecto exterior, mas da reflexão que o observador faz dele; não da impressão sensorial, mas do reflexo imaginativo”. Já Alberto Manguel diz-nos que o poeta descarta a “impressão sensorial” com demasiada ligeireza, defendendo que, “para que essas imaginações nocturnas floresçam, tenho de permitir que os meus outros sentidos despertem – ver e tocar as páginas, ouvir o amarrotar e o farfalhar do papel e o temível estalido da lombada, cheirar a madeira das estantes, o perfume almiscarado das encadernações em pele, o cheiro ácido dos meus livros de bolso amarelecidos”. É isto tudo o que vai fazendo com que o livro seja um objecto e um ser de espécie muito incerta, variável, sujeito a elaborações e discussões, ora se afundando, ora vindo à tona das águas da inteligência e do paleio. Mas sem a sua própria viagem, essa que deixa nele uma segunda série de sinais, não tão legíveis, perde-se a capacidade de deslize para a ficção, fica um objecto esvaziado daquele clamor do que resta, contando a sua aventura, como destroço de um naufrágio a caminho de outro. Diz-nos Irene Vallejo que a paixão do coleccionador de livros é parecida com a do viajante, e que todo o livro é um passaporte sem data caducidade. Mas hoje os próprios livros viajam pouco, não trazem o perfume de estranhas demandas, nem os sinais de uso, de desgaste, de sobrevivência num mundo caótico, terrivelmente caprichoso. É difícil hoje imaginá-lo como um elemento de ligação entre essa “peculiar fauna de negociantes astutos, delinquentes, aventureiros e vigaristas com paleio” que ainda buscam por oportunidades nas terras virgens que possam restar-nos. Há mais de um século, a mais lendária revista literária que se criou entre nós, via um bando de jovens assinarem uma carta de navegação entre mares nervosos em busca de “um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento”. Hoje, os livros esfriam muito cedo nas mãos dos leitores, para quem começa a importar menos o título ou o cuidado material e gráfica, a sabedoria envolvida, do que um saldo. Este contenta-se com a breve satisfação de ter caçado um ser perdido da sua espécie, um ser em declínio, transformado numa mera pechincha.

Como sabe quem ainda vai frequentando livrarias, as melhores, as que arriscam, têm em si formas de imaginar o futuro, de interpelá-lo, estando dedicadas, paradoxalmente, a esse “ofício que luta contra os rigores do tempo trazendo fragmentos do passado para o presente” (Manguel). Quem se submerge no seu “silêncio sonoro”, tentando apanhar uma pista para si entre esses ecos, sussurros e cochichos que tornam a sua atmosfera tão vibrante, são caçadores que afiam as suas armas pacientes, alimentando-se de uma antiguidade fabulosa. As bibliotecas que nascem passando ao lado do lançar de dados de cada vez que se visita uma livraria perdem algo desse “caos da descoberta e da criação num sistema estruturado de hierarquias ou daquele alvoroço de associações livres”. E há algo mais que se perde, pois as livrarias enquanto espaço físicos, dimensionam também as cidades. Essas livrarias que não se atêm a um modelo puramente convencional, organizando as suas prateleiras apenas com o intuito de promover as vendas, mas que reflectem de algum modo uma rede de saberes, juízos e preferências dos livreiros, enchem a malha citadina de passadiços, zonas secretas, criam uma forma de nomadismo em percursos que parecem estrangulados pela repetição. Como nos diz Jorge Carrión, “não são só os corpos dos leitores que ligam entre si, com o seu movimento, as diferentes livrarias das cidades, pois também os livros são móveis e errantes, abrem linhas de fuga, criam itinerários”. Este escritor tão empenhado na luta pela anacronia face à expulsão destes pontos de conexão com o imaterial no regime topográfico, lembra-nos que “a rua, a livraria, a praça e o café configuram as rotas da modernidade como âmbitos de duas acções fundamentais: a conversa e a leitura”.

A própria flânerie, essa errância algo contida e que se vai aproveitando de momentos ou espaços de ociosidade, alegra-se com essa actividade de leitura superficial, em que a visão deixa para o tacto e até para o olfacto a formulação de apreciações críticas. Não há leitor que não tenha apreciado a leitura desse livro meio descosido, consultando prateleiras de lojas ao ar livre, alfarrábios, bancas de feira. Mesmo o Sr. Jean Follentin, protagonista de “À Deriva”, de Joris-Karl Huysmans, sem esconder um insanável desgosto, entrega-se ainda assim a essas visitas, essas inspecções, e parece inspirar algo da atmosfera do seu tempo, retirar alguma coisa da decepção com que passa os olhos e se dá conta de que “a maior parte dos volumes amontoados nos caixotes eram refugos de livraria, monos sem valor, romances nados-mortos, pondo em cena mulheres da alta sociedade, narrando numa linguagem de porteira os acidentes do amor trágico, os duelos, os assassinatos e os suicídios; outros sustentavam teses, atribuindo todos os vícios às pessoas titulares, todas as virtudes às pessoas do povo; outros, finalmente, perseguiam um fim religioso; estavam revestidos da aprovação de monsenhor de tal e diluíam colheres de água benta na mucilagem de uma prosa viscosa”. Como se vê, esta passagem da breve novela de 1882, que foi publicada, entre nós, há poucos meses, com o selo da VS Editor, mantém uma inequívoca e até atordoante actualidade. Vale a aproveitar o desvio para elogiar esta tradução de Diogo Paiva, que traz para a nossa língua uma obra cheia de humor e vitalidade, uma obra menor e, talvez por isso mesmo, tão cintilante, num registo em que a resignação do personagem contrasta com a sumptuosidade da prosa, evita também o incómodo de um faustoso enredo, cheio de personagens e acontecimentos, desses articulados com grande premeditação, revelando-se um saborosíssimo exercício literário que se faz de não achar em si um gosto pelas coisas, nem vícios nem desejos ou paixões. É um livro que exprime bem aquela desolação de se chegar ao fim do dia, ter o estômago aos roncos, e não se conseguir comer o raio de um bife decente nesta terra. 

Huysmans monta o fio narrativo a partir de um quotidiano raso, dos agastes de um empregado de escritório, solteiro, e que não meio de se iludir com qualquer desses modos de dissolução viciosos ou mesmo obsessões inofensivas, como as dos bibliófilos. Assim, o Sr. Follantin dá por si a invejá-los. “Todos lhe eram simpáticos; adivinhava neles bons maníacos, pessoas honestas e tranquilas, passando pela vida sem ruído, e invejava-os. ‘Se eu fosse como eles’, pensava; e já tentara imitá-los tornar-se bibliófilo. Consultara catálogos, folheara dicionários, publicações especiais, mas nunca descobrira peças curiosas, e aliás adivinhara que a sua posse não iria tapar esse buraco de tédio que se cavava lentamente em todo o seu ser.”

A inveja do Sr. Follantin tem a sua razão de ser. E mesmo quem, por alguma razão, se sente à margem do fascínio produzido pelos livros nalguns leitores, reconhece esse apelo, identifica-o nos outros. De resto, mais do que uma obsessão ou um vício, os livros chegam a ser um amparo e até uma tábua de salvação como reconheceu G.K. Chesterton. “Existe provavelmente mais do que um velho coleccionador, cujos amigos e familiares dizem que é louco pelos livros dos Elzevirs, quando a verdade é que são os livros dos Elzevirs que o mantêm lúcido. Sem eles o coleccionador cairia numa ociosidade e numa hipocondria que lhes destruiriam a alma; mas a regularidade soporífera das suas anotações e dos seus cálculos ensina a mesma lição do movimento do martelo do ferreiro ou do passo arrastado dos cavalos do lavrador: a lição do ancestral senso comum das coisas.”

E parece ser a exaltação deste ancestral senso comum aquilo a que Follantin nos incita ao reconhecer a forma como Paris se estava a tornar uma “Chicago sinistra”, sentindo no ar “um vago cheiro a prostituição [que] escapava dessas lojas em que os olhares dos comerciantes conseguiam abreviar o regateio dos compradores”. Diz-nos que estamos condenados a ver os centros deslocarem-se e, com eles, “todos os antiquários, todos os vendedores de livros de luxo vegetam neste quarteirão e fogem, assim que expiram os seus contratos de arrendamento (...) E, completamente melancolizado, o Sr. Follantin repetia-se: ‘aproveitemos o tempo que nos resta antes da invasão definitiva da grande velhacaria do Novo Mundo!’”