Sociedade

"Uma pessoa fica isolada como um leproso"

António Marques, médico com experiência internacional na planificação e implementação de medidas de resposta a epidemias víricas, foi um dos primeiros profissionais de saúde a ficar infetado pela covid-19. Em entrevista ao Sol, fala da experiência de estar do outro lado da barricada, e como mudou a sua forma de encarar a vida e a sua relação com os doentes. É um homem irrequieto. Mês e meio depois de ter tido alta, sofreu uma grave acidente de mota.

Como é que um médico, com a sua experiência, reage quando sabe que está infetado? Imagino que seja muito diferente do que ser um doente leigo, que nada sabe sobre a doença.

Pode ter a certeza de que há alturas em que a ignorância é o nosso principal amigo (risos)! Estar febril, mas consciente, e ouvir os meus colegas a comentarem o meu estado… é chato. Para um médico, meia palavra basta. Houve uma altura em que os ouvi dizer que a coisa não estava a correr bem, que era preciso considerar a entubação e eu pensava ‘estou tramado’.

Porquê?

Porque quando uma pessoa é entubada abre-se uma porta no organismo para o exterior e há sempre o risco de se apanhar uma infeção bacteriana, as chamadas infeções hospitalares. Ora, com uma infeção dessas, mais a vírica que eu já tinha, o corpo fica mais débil. Portanto, eu tinha acesso a mais informação do que um leigo, o que me deixava muito mais ansioso.

Sofria por antecipação e colocava vários cenários?

Sim, ia fazendo ‘filmes’. Lembro-me que, quando já estava nos cuidados intensivos e foi necessário colocar o cateter numa veia central, para me darem soro e injetarem os medicamentos que fossem necessários, o colega, que era um médico experiente, estava a rodar a ecografia para tentar distinguir entre a jugular e a carótida e não picar uma em vez da outra. Apesar da anestesia, sentia a agulha e aquilo não foi logo à primeira. Como já meti milhares de cateteres, sei os problemas que podem surgir…

Mais uma vez, a sua experiência levava-o a antecipar as consequências. Parece um filme de terror!

Por isso é que eu digo que, nestas coisas, é pior o conhecimento do que a ignorância. Para se fazer o cateter na jugular, utiliza-se uma agulha que, no seu trajeto, pode ir parar ao sítio errado: existe a probabilidade de descer e perfurar a pleura, e entrar ar no pulmão, que colapsa. Eu, que já estava com um problema respiratório, podia fazer então também um pneumotórax; ou podia picar a artéria em vez da veia e causaria um derrame que, se descer e ficar à volta do pulmão, tem o mesmo efeito. Também pode haver um derrame e, com a perda de sangue, havia a hipótese de ficar hipotenso e com problemas de ordem mental porque não se fazia a irrigação cerebral. Lembro-me que nesse dia estava lá um enfermeiro que conheço há anos, ele topou que aquilo estava a demorar, foi perspicaz, imaginou que eu estaria aflito e veio ter comigo. Pegou-me na mão e apertou-a, como quem diz ‘não te preocupes que eu estou aqui contigo’.

Deve, então, ter pressentido a presença do vírus da covid-19 ainda ele não se tinha anunciado… (risos). Como é que foi?

Estava no hospital e comecei a sentir febre. Pelo contexto que se vivia, decidi, para tirar teimas, fazer logo o rastreio – e ainda bem que o fiz porque, nesse mesmo dia, comecei a piorar. A evolução foi muito rápida. Esta doença tem uma coisa estranha: o doente leigo não sente, apesar de a ter, a sensação subjetiva de falta de ar que outras doenças respiratórias provocam. Fica apenas cansado, prostrado. Mas eu, como profissional de saúde, sabia que estava a hiperventilar, sentia o trabalho respiratório acrescido. Depois, há a presença dos monitores que, apesar de não estarem virados para o doente, como temos um oxímetro no dedo que mede a quantidade de oxigénio a circular no sangue, vai tendo um timbre diferente consoante os níveis do oxigénio. Um médico, ao contrário de um vulgar doente, sabe distinguir os timbres e percebe quando está a respirar pior. Ou seja, um leigo tem a perceção de que está com dificuldades respiratórias, mas não sente a falta de ar. Mas eu sabia que estava a respirar mais vezes por minuto e mais profundamente. Isso e a febre fizeram com que ficasse logo internado numa unidade para doentes covid. O resultado, que deu positivo, só chegou umas quatro ou cinco horas depois, mas eu já estava à espera.

Como médico e especialista em crises e catástrofes na saúde, habituado a tomar decisões rápidas, teve a tentação de intervir nos atos clínicos que lhe foram prestados?

Só por duas vezes. Uma foi logo no início, quando ainda estava na ala covid. Faço parte dos grupos de risco porque, há uns nove anos, foi-me diagnosticada uma leucemia crónica – ou seja, uma leucemia com crescimento muito lento. Tenho estado estável, mas isso obriga-me a fazer análises de seis em seis meses.

Isso aumentou-lhe o stress?

Pensei nisso logo no início, e os meus colegas também tinham essa noção. Sabia que estava em desvantagem porque parte das minhas células não estavam bem, ou seja, tinha menos guerreiros para irem à luta. Habitualmente, porém, ausento-me disso: sei que por cima de mim paira uma nuvem, que pode explodir de um dia para o outro, mas concentro-me só no que brilha à sua volta.

Estava a contar que houve dois momentos em que não resistiu a intervir na sua própria terapêutica…

Sim. Quando cheguei à ala covid, tinham de me tirar sangue para as análises gerais e eu já sei que sou uma pessoa difícil de picar as veias. Mas ninguém conseguia e já queriam ir-me aos pés onde ainda dói mais.

Passou então de médico com currículo notável para o outro lado, de paciente piegas?

Se fosse apenas uma picada, não tinha problema. O drama é estar ali com a agulha num entra e sai, entra e sai. Já parecia um touro com várias bandarilhas espetadas (risos). Cheguei a um ponto em que disse: ‘Parem!’. Então, tiro o telefone do bolso e liguei a uma enfermeira da oncologia, que habitualmente me tira o sangue, disse-lhe que estava à rasca, que não conseguiam picar-me. Eu tinha a perceção que estava mal, que aquilo ia dar positivo. Esta enfermeira, que não estava numa área covid, não tinha qualquer treino prévio relativo à doença, prontificou-se logo. Chegou, aprendeu a vestir o fato de ‘astronauta’, entrou e picou-me à primeira. Os outros ficaram a olhar. Houve gestos de amizade, de facto, que foram um grande consolo. Aquele ato de alguém que não está a trabalhar numa zona de risco, vestir-se e ir meter-se na boca do lobo para me ajudar é um gesto de grande amizade.

Qual foi o segundo momento em que interferiu nos atos clínicos dos seus colegas?

Não foi bem interferir, mas sim resistir ao que eles me queriam fazer. Isso já foi nos cuidados intensivos. Já lhe disse que a infeção se desenvolveu muito depressa e, a dada altura, os meus colegas quiseram-me ventilar-me e eu contrariei-os.

Se queriam ligá-lo ao ventilador, é porque estava mesmo mal. Por que não deixou?

Estar a ser ventilado mecanicamente é estar a ir no sentido errado da cura, é subir um patamar em termos de risco.

Pensou nas sequelas?

Claro. Sei que vou estar ligado a uma máquina que está a injetar ar a uma certa pressão e que o meu pulmão vai levar uma coça. Aquilo é como estar a levar pancadas constantes e há zonas que ficam destruídas de tal forma que a anatomia do pulmão deixa de ser como anteriormente. Ao nosso pulmão chega sangue e oxigénio, mas, quando se tem zonas destruídas, nem o sangue nem o ar lá chegam e há uma parte do órgão que não está a fazer as trocas gasosas. Isso quer dizer que a minha reserva baixa e, no futuro, quero subir umas escadas ou fazer uma corrida e não posso. É como ter uma parte do pulmão amputado. Quando um individuo é normal, pode ficar com menos reserva e aguenta-se, mas quando se tem certa idade, ou patologias prévias (como um fumador, em que parte do pulmão já foi à vida), o risco é muito maior. Há um preço que se paga ao ser ventilado. Eu pensava nisso e ia resistindo aos meus colegas. Mas não era só por pensar nas sequelas: é que, para se ser ventilado, tem de se ser sedado e aí eu ficaria a dormir sem saber se ia haver o day after. Pensava que talvez estivesse a viver os últimos minutos da minha vida…

Como é que os seus colegas resolveram o impasse?

Houve um dia em que estava fisicamente tão exausto que eles me disseram que já não dava mais para adiar.

Entrou em pânico?

Sou cristão e acho que quem tem fé está em vantagem. Acredito que há alguém lá em cima que está a cuidar de mim. Pode-se chamar uma muleta, mas é uma vantagem. Naquele momento falei com Deus, pedi-lhe para cuidar da minha família e dar-me paz. Pensei que, afinal de contas, tinha tido uma boa vida, que vivi mais do que muitos e, se tivesse chegado o meu momento, que assim fosse. E, de repente, fiquei calmo. Na ‘hora H’, tive uma estranha paz.

Acha mesmo que foi a fé ou seria exaustão?

É evidente que eu estava fisicamente exausto e por isso os meus colegas diziam que não dava para adiar mais. Mas podia estar exausto e com medo. No entanto, fiquei calmo. Aliás, há pouco tempo tive um acidente, fiquei semanas a fio sem me mexer, e não fiquei a precisar de psiquiatra nem dei em tolo. Isto, por duas razões: porque não queria ser um coitadinho – e acho que é na ‘hora H’ que um homem tem de mostrar de que fibra é feito – e porque decidi ser cristão e tinha de ser coerente. Isto implica que se tenha fé nas alturas da dificuldade. E por acaso, por sorte (vamos chamar-lhe assim…), não precisei de ser ventilado. Na altura em que os meus colegas estão para me ventilar, entrou um doente covid em muito pior estado do que eu e foi ele quem foi para a máquina.

Não havia ventiladores para os dois?

Nunca fui vítima de falta de equipamento. No início da pandemia havia a maluqueira da falta de ventiladores, mas as pessoas não percebem que os ventiladores não tratam os doentes. É preciso é ter equipas que monitorizem os aparelhos. Portanto, não houve a situação de se ter de escolher qual dos doentes ficava com a máquina. A equipa é que era única e o ventilador foi para quem estava pior. Enquanto entubavam e ligavam à máquina a outra pessoa, eu, que tinha ficado em decúbito dorsal, melhorei nesse espaço de tempo e eles lá decidiram adiar mais um tempo. E acabou por não ser necessário ventilarem-me. Mas, além destes dois momentos de que lhe falei, fiz o que se deve fazer: entreguei-me nas mãos dos meus colegas e confiei.

Os seus colegas, ao verem-no mal, como era da casa e ainda por cima diretor do departamento, podiam ter feito uma opção classista do tipo ‘vamos salvar primeiro quem é dos nossos’.

Nós já estávamos habituados a fazer planos de contingência, tínhamos flexibilidade e sabíamo-nos orientar perante situações de pressão. É evidente que, quando se trata de uma pessoa conhecida, um colega, há sempre um mimo extra. É humano. Quando melhorei, por exemplo, eles traziam-me coisas que não faziam parte da dieta hospitalar, como sumo de maracujá ou pastéis de nata, que sabem que eu gosto. Mas nunca houve um privilégio ao nível dos cuidados de saúde. Naquele caso, como o outro doente estava numa situação mais aguda do que eu, claro que foi ele quem teve precedência. A equipa reagiu como devia: de forma profissional e fria.

É complicada a passagem do médico para o outro lado da barricada?

Dou-lhe um exemplo: quando fui para os cuidados intensivos, a equipa que me acompanhava estava equipada a rigor, com aqueles fatos tipo astronauta, e, para não haver cruzamento entre infetados e não infetados, à minha frente ia um segurança a avisar as pessoas para se afastarem. Atrás de mim, seguia um individuo sentado num carrinho que tem umas escovas por baixo e vai limpando e desinfetando o chão. Eu conhecia bem aquele procedimento, fazia parte do meu dia-a-dia, mas até aí a minha cabeça só o associava ao transporte de doentes positivos. Estou habituado a estar deste lado e, de repente, apercebo-me que tinha passado para o lado de lá. Ainda hoje, lembro-me da bodega daquele barulho do motor do carrinho, ouço as escovas a baterem no chão, e é quase como ter um gatilho encostado à minha cabeça…

Stress pós-traumático?

Talvez não chegue a tanto. Olhe, os meus pais são emigrantes e eu cresci nos EUA. Lembro-me de um dia estar na rua com um individuo que tinha estado na guerra do Vietname, quando, de repente, ouviu-se um estoiro de um carro – e ele, imediatamente, atirou-se para o chão. Era um reflexo condicionado. O barulho do carrinho tem o mesmo efeito em mim.

Esta é uma doença nova e muitas pessoas sentem-se estigmatizadas como aconteceu com a sida, no início. Isso também terá contado para essa reação?

Vou fazer uma analogia um bocado estúpida: uma pessoa fica isolada como um leproso. Estamos perante uma doença muito solitária. Mesmo aqueles que têm sintomas mais leves ficam em casa, de quarentena, e os que estão no hospital estão em isolamento. Não se recebe visitas e os profissionais de saúde com quem se contacta estão todos ‘plastificados’, não ficam a conviver com o doente. E eu associava a porcaria do barulho daquela máquina que me seguia na maca à viagem de um leproso que ia para o isolamento.

Sabemos que as doenças mentais têm aumentado com a pandemia. Cada vez há mais pessoas a precisarem de acompanhamento, incluindo profissionais de saúde que têm estado na linha da frente do combate à doença. É como se a vossa classe, para travar o vírus que alastrou muito rapidamente e fez milhões de vítimas, tivesse desenvolvido uma espécie de anticorpos ao cansaço, mas depois mais à frente acaba por sucumbir.

É natural, é como na guerra. O pessoal que está na linha da frente tem a adrenalina a correr, faz feitos heroicos, faz maluqueiras, só mais tarde é que cai em si e fica com o ‘Shell Shock’, o chamado trauma de guerra. Os profissionais de saúde experimentam uma dupla ansiedade: quer por estarem a tratar o doente quer pelo risco de saberem que podem vir a ficar infetados. Mas isto vai ter um impacto psicológico muito maior do que as pessoas imaginam. É que o problema não atinge só as pessoas que ficaram infetadas, mas também aqueles que cuidaram, que ficaram em quarentena com eles, nomeadamente a família. Depois, temos os efeitos económicos da pandemia: quem perdeu o emprego ou ficou a ganhar menos, quem teve de fechar o negócio. Aí, não há dúvidas de que os funcionários públicos são os mais protegidos, recebem sempre o ordenado certinho ao fim do mês. Mas eu tenho colegas que trabalham no setor privado e que ficaram sem receber algum tempo. Estes médicos estão dependentes do número de atos médicos que praticam: se fazem muito, ganham muito; se fazem pouco, ganham pouco. Havia médicos que tinham uma vida estável e que, de repente, ou porque perderam a clientela nos consultórios ou nos hospitais, tiveram de se endividar. Porque a privada, praticamente, parou. Há casos de suicídios. E digo-lhe, claramente, a saúde mental vai precisar de apoio para tratar de uma população que, quer aceite ou não, vai estar mais doente do ponto de vista da saúde mental.

Foi fácil o regresso ao trabalho depois de ter estado infetado?

Depois de ter saído dos cuidados intensivos, estive três semanas num quarto de infetocontagiosas, de onde não podia sair. Tinha uma pequena janela, de onde só via o quartel da GNR e a Igreja da Nossa Senhora do Carmo. A única coisa que me distraía era o iPad: colocava séries ou música. Estava farto. Tive alta numa quarta-feira, no dia seguinte fui à Saúde Ocupacional, que me deu alta, e na sexta-feira já estava a trabalhar.

Mas isso é normal?

Sugeriram que eu ficasse de baixa por causa da reabilitação. Estava a fazer fisioterapia porque tinha feito atrofia muscular. Mas eu sentia-me com capacidade e não sou de ficar parado. Comecei logo a trabalhar porque considerei que tinha de estar disponível para os outros, como os outros tinham estado para mim. Queria fazer parte da solução e também dar o exemplo. Sou a favor da liderança pelo exemplo.

É um workaholic?

Fui. Digamos que, depois da infeção, me tornei um workaholic mais moderado e uma pessoa mais social (risos).

Essa viagem mostrou-lhe o quanto a vida é precária e que vivemos numa sociedade que tiraniza o homem?

Sim, tornamo-nos escravos do trabalho, da carreira. Eu fiquei com outra perceção do tempo. Antes, andava sempre muito ocupado e adiava aquilo que me dava gozo fazer. Agora, já penso ‘é melhor fazeres agora porque depois não sabes se vais fazer’. Estou morto por estar operacional e voltar às minhas aulas de música. Toco baixo. (risos).

Tornou-se diferente na sua relação com os doentes?

Claro. O grau de humanização mudou. O que é que percebi estando do outro lado? É que, de facto, às vezes, um pequeno toque, uma pequena festa, uns minutos a mais de conversa, tranquiliza e tem um impacto muito positivo nas pessoas. E nós, como profissionais dos intensivos, que trabalhamos numa área onde a morte é muito frequente, que andamos muito depressa porque há sempre muita coisa para fazer, fazemos as coisas quase mecanicamente e não paramos para dar esse miminho-extra que é muito importante para quem está do outro lado.

Há pouco disse que, depois de ter estado infetado, sofreu um acidente grave. O que aconteceu?

Foi um mês e meio, mais ou menos, depois de ter tido alta. Normalmente, venho de mota para o hospital. Sou professor catedrático e estava a corrigir online uns exames de medicina. Se tivessem acabado um bocadinho mais cedo ou um bocadinho mais tarde, nada disto me tinha acontecido. Costumo dizer que a vida de um homem é feita mais do acaso do que de obra sua. No meu caso, aplica-se completamente. (risos) No trajeto para casa, a dada altura, apanhei o pôr-do-sol e fiquei encadeado. Os carros da frente travaram, mas eu, por segundos, deixei de ver e bati nos outros. Estava equipado à maneira, com capacete e luvas, não via nada, mas sentia uma grande dor nos braços. Chegaram os bombeiros e uma viatura do INEM – que me conheceram, porque sou bombeiro voluntário e fui diretor do CODU – e um deles disse-me: ‘Ó chefe, então ainda agora se curou da covid e já está neste estado?’.

Parece aquela personagem de filme que atrai o azar. Não corro perigo por estar sentada ao seu lado?

De facto, tem sido um ano difícil? (risos)

O que é espantoso é a forma descontraída como fala. Qualquer pessoa ficaria traumatizada.

Já disse que me recuso a ser um coitadinho de um deficiente. E quando se tem fé, como é o meu caso, mantém-se a sanidade mental.

Desta vez, ficou com sequelas?

Estive a ser operado, em cirurgia vascular e ortopedia, das dez da noite às três da manhã. Fiquei com uns ferros nos braços e uns parafusos. Mas não vou ficar parado, faço muita fisioterapia. Ultrapasso as dores e já consigo mexer as mãos (demonstra, unindo as mãos como se estivesse a rezar).

Pode voltar a exercer a sua especialidade de anestesista?

Ainda não sei. Fiquei com um défice visual muito acentuado. Talvez nem volte a conduzir. Aqui no hospital, mantenho o meu trabalho de gestão e continuo como diretor do departamento. E estou no ensino, entre outras coisas.

Mas não devia parar um pouco?

Há colegas que me dizem isso, mas eu não sou capaz de parar. A minha receita para a sanidade mental é ter força para andar para a frente. Mas parte desta minha força vem da minha fé interior. Acredito que Deus esteve comigo, senão podia ter morrido da covid, e agora estou a caminho da recuperação daquilo que perdi. Os meus filhos veem-me como um guerreiro.