Cultura

"Em Roma tinhas de ser muito astuto, inteligente e maquiavélico para triunfar"

Severo talvez nunca tivesse chegado ao poder sem a ajuda da sua mulher, Júlia Domna. É a ela, “a imperatriz mais poderosa da Roma antiga”, que Santiago Posteguillo dedica o romance histórico Eu, Júlia (ed. Planeta). Nele, o autor, professor universitário de Língua e Literatura Inglesa apaixonado pela Antiguidade, reconstitui não apenas as intrigas e a ascensão de Severo ao poder mas também a fundação de uma dinastia.

O ano de 193 da nossa era, que ficou para a posteridade como ‘o ano dos cinco imperadores’, foi especialmente conturbado em Roma. A 1 de janeiro a capital do império acordou com a notícia do assassínio de Cómodo na noite anterior. A morte deste césar cruel e arbitrário foi uma boa notícia para os que temiam os sinais cada vez mais evidentes de insanidade de que dava mostras. Mas a proclamação de Pertinax como seu sucessor, logo no primeiro dia do ano, não resolveu tudo. As conspirações continuaram e também Pertinax acabaria assassinado, às mãos da guarda pretoriana. A capital do império mergulhou em intriga e instabilidade. Da luta impiedosa pelo poder, acabaria por emergir um líder forte, o antigo governador da Panónia (província encravada entre a Germania e a Dalmácia, correspondente a territórios das atuais Hungria, Áustria, Croácia, Sérvia, Eslovénia, Eslováquia e Bósnia e Herzegovina), Septímio Severo. Nascido em Leptis Magna (Líbia), foi o primeiro homem sem sangue romano a tornar-se imperador, mantendo-se no poder até à sua morte quase vinte anos mais tarde, em 211.

Mas Severo talvez nunca tivesse chegado ao poder sem a ajuda da sua mulher, Júlia Domna. É a ela, “a imperatriz mais poderosa da Roma antiga”, que Santiago Posteguillo dedica o romance histórico Eu, Júlia (ed. Planeta). Nele, o autor, professor universitário de Língua e Literatura Inglesa apaixonado pela Antiguidade, reconstitui não apenas as intrigas e a ascensão de Severo ao poder mas também a fundação de uma dinastia.

Este romance situa-se numa época muito conturbada do império romano. Começa durante o reinado de Cómodo, de quem o historiador Dião Cássio nos diz que matou uma centena de ursos no Coliseu de Roma. Cómodo era um louco, um sanguinário?

Sim. Cómodo é realmente um dos piores imperadores que Roma alguma vez teve. O filme Gladiador, que todos temos em mente, reflete isso muito bem, ainda que os guionistas americanos inventem que Cómodo matou o seu pai, o que não é correto. Quando vemos Joaquin Phoenix a estrangular Richard Harris isso não é verdade. Fez muitas maldades, mas não matou o seu pai. O pai, Marco Aurélio, muito provavelmente morreu de varíola, que dizimou muita gente naquela época. Mas não há dúvidas de que Cómodo era um homem muito perverso. E no meio dessa perversidade e dessa loucura, vários governadores, senadores e militares de Roma começam a posicionar-se para procurar uma solução alternativa. Entre eles está Severo, que é casado com Júlia.

Os historiadores deste período colocam sempre as mulheres em segundo plano, quando chegam sequer a referi-las. Isso tornou mais difícil a escrita deste livro, fez com que tivesse maior dificuldade para reunir informação?

Sim. Quando, no século XXI, queremos escrever sobre coisas que aconteceram há 1800 anos, temos o problema da distância, o problema das fontes, mas no império romano, sobre personagens masculinos, encontras muita coisa. Mas quando procuras informação sobre uma personagem feminina é muito mais complexo. As quatro fontes clássicas que nos trazem informação sobre Júlia são: Aurélio Vítor, Herodiano, Dião Cássio e o compêndio de textos denominado História Augusta, também escrito por homens. Mas em todos estes textos não há um único capítulo intitulado Júlia. O que acontece é que há capítulos dedicados a Septímio Severo e aí não puderam evitar referências à esposa, porque era muito importante na vida de Severo. E há capítulos dedicados aos imperadores Geta e Caracala, que eram filhos de Júlia, e aí também não puderam evitar referências à mãe. Eu, juntando referências de uns e de outros à esposa e à mãe, consigo juntar uma quantidade de informação suficiente para ‘montar’ esse capítulo que devia ter sido denominado Júlia. Só que aqui não há capítulos exclusivamente dedicados à história porque se trata de um romance histórico, onde recrio tudo – vida pública, dados históricos, e incorporo uma recriação da vida privada.

Júlia Domna não era certamente o tipo de mulher que se limitasse a ficar em casa a cuidar dos filhos. Gostava de se envolver na intriga política. Isso era normal para uma mulher daquela época?

Não, não era normal nem habitual para as mulheres daquela época. Estaria claramente fora do seu âmbito. O que se passa é que Júlia não era uma mulher comum, não aceitava que o facto de ter nascido mulher a obrigasse a ficar de fora do âmbito político e de toda a esfera de influência relacionada com o poder. Isso fazia dela uma personagem singular, especial. E, no meu entender, particularmente admirável, porque conseguiu, num mundo patriarcal, sexista, machista, controlado por homens, atingir os seus objetivos.

Nota-se que tem uma grande admiração por ela. Mas trata-se de uma mulher extremamente ambiciosa, calculista e talvez até um pouco maquiavélica, não?

Vamos ver os adjetivos que empregaste. Dos três, o que me incomoda mais é o primeiro: ambiciosa. Porque quando se usa para uma mulher, parece que tem uma conotação negativa. E então vamos virar a questão ao contrário: Júlio César não era um homem ambicioso?

Claro que sim.

Eu acho que era muito ambicioso. Quando dizes que Júlio César era ambicioso, normalmente não é de uma forma negativa. E isso, claro, é porque qualquer homem quer progredir na sua carreira profissional. Neste caso, Júlio César no seu cursus honorum [carreira pública]. A palavra ambicioso só adquire uma conotação negativa no discurso de Bruto, na obra de Shakespeare, Júlio César, onde Bruto argumenta que o matou porque era demasiado ambicioso. Mas quando se trata de uma mulher, parece que não tem direito a ser ambiciosa. Por que não? A ambição é um motor – em si mesma não é boa nem má. Na medida em que te permite crescer profissionalmente, não está mal; mas se te cega, sim. Julgo que Júlia não ficava cega de ambição. Era ambiciosa, sim, queria chegar o mais alto possível na escadaria do poder de Roma, e aplicou-se nisso com inteligência e astúcia. Agora entramos nos outros dois adjetivos. Calculista. Sim, era calculista, porque para te moveres com destreza nas lutas intestinas pelo poder em Roma ou calculas bem os teus passos ou podes perder. E, por fim, maquiavélica. Depende de como interpretemos Maquiavel. Claro que usamos o adjetivo maquiavélico com uma conotação negativa, de pessoa retorcida. De facto, O Príncipe, de Maquiavel, é um compêndio de ideias para se ser um governante astuto e inteligente. Desse ponto de vista Júlia era maquiavélica. Retorcida? Repara que se batia contra inimigos muito complicados, os seus inimigos são cinco imperadores de Roma. Isso não é fácil. Tens de ser muito astuto, muito inteligente e, se quiseres, muito maquiavélico para triunfar.

O seu romance fala-nos de rumores, de boatos, de calúnias de que Júlia foi alvo. Estes tinham um papel importante na intriga política?

Sim, as calúnias funcionavam muito bem em Roma. Júlia foi caluniada muitas vezes. Tentam convencer o seu marido de que ela lhe é infiel, que anda com uns e com outros. Isso tinha resultado muito bem com outras mulheres que se tinham aproximado dos círculos do poder. Tinha resultado muito bem com Cleópatra, de quem nos chegou um pouco a ideia – falsa – de que era uma mulher promíscua. Hoje em dia que uma mulher tenha tantos parceiros íntimos quantos deseje não está nem bem nem mal. É livre de o fazer. Mas ao longo da história transmitiu-se a ideia de que uma mulher não devia estar com muitos homens, etc., etc., e utilizou-se precisamente isso para desqualificar mulheres que podiam ser muito inteligentes e muito capazes, como era o caso de Cleópatra. Como Cleópatra tinha um filho de Júlio César, Augusto, como tinha medo que ela, através do herdeiro de César, pudesse reclamar o poder de Roma, empenhou-se a desacreditá-la constantemente, quando na realidade ela só teve dois amantes, que se saiba: Júlio César e Marco António. Como resultou muito bem neste caso, fizeram-no outra vez com Berenice, uma amante oriental do imperador Tito, da dinastia flávia, e Tito acabou por repudiar Berenice. E por isso tentaram a mesma estratégia com Júlia: ‘Vamos tentar desacreditar Júlia para que deixe de ter influência na política’. Com o que não contaram é que Severo tinha plena confiança na sua esposa, estava apaixonado por ela, e nunca conseguiram romper essa ligação.

Júlia nasceu na Síria. Que cidade era esta, Emesa?

Emesa corresponde à atual Homs. Agora já não está nas mãos do Estado Islâmico mas, enquanto eu escrevia Eu, Júlia, era a capital do Estado Islâmico, pelo que não pude visitá-la, era um sítio um pouco difícil para um ocidental. E é uma pena porque Emesa, como Palmira, tinha umas ruínas romanas muito importantes que o Estado Islâmico destruiu, lamentavelmente.

Além da efígie na moeda que reproduz no seu livro, chegaram-nos outros retratos de Júlia?

Sim. Além destas moedas há várias estátuas de Júlia. Julgo que há uma nos Museus Capitolinos, mas a melhor coleção de estátuas não apenas de Júlia mas de toda a sua família está num pequeno museu em Roma que fica fora dos circuitos habituais dos turistas, que incluem os Museus Vaticanos, os fora, o Coliseu, o Palatino e pouco mais – isso é o que normalmente se consegue ver em três dias. Mas existe um museu chamado Palazzo Massimo alle Terme, que está em frente das termas de Diocleciano, onde há uma grande coleção de estátuas da Dinastia Severa. Tem estátuas de Severo, de Júlia, de Caracala e de Geta.

E o que mostram as estátuas de Júlia, o que nos dizem sobre ela?

Há que ter em conta que os romanos, quando faziam estátuas imperiais, tentavam transmitir uma imagem de perfeição, o que leva a questionar até que ponto podemos considerar fiéis imagens que quase de certeza foram retocadas. É uma mulher de traços suaves, cálidos e agradáveis à vista.

Orientais?

Não particularmente, embora se perceba que provavelmente teria uma tez algo mais morena do que devia ter uma romana. Todas as fontes escritas – as que estão contra ela e as que estão a seu favor – coincidem em descrevê-la como uma mulher muito bonita. Então, se todos o diziam, temos de assumir que era muito atraente.

 

No seu livro, quando nos apresenta Júlia, ela está a ler um poema de Ovídio. Que importância tinham a escrita, a leitura e os livros para os romanos?

Muita importância – para as elites romanas. A cultura romana fez muito pela história do livro. São os romanos que fazem a passagem do papiro ao códice, ao formato livro, porque recebem de Pérgamo o pergaminho. Enquanto no papiro só se podia escrever de um lado, no pergaminho, que é feito de pele de animal e por isso é mais resistente, podia-se escrever de um lado e do outro. Cosia-lo de lado e tinhas um livro. É assim que em Roma se populariza o formato do livro. Além disso, há uma mudança qualitativa nas bibliotecas. As bibliotecas dos gregos normalmente não permitiam o empréstimo dos livros. Não podias consultá-los noutros lugares. É provável que tenha sido Júlio César – isto é algo que continuo a investigar –, no seu processo de democratização de muitos aspetos, entre os quais o acesso aos livros, quem promoveu que nas bibliotecas de Roma passasse a haver empréstimos, que pudesses requisitar um livro, levá-lo para tua casa, e devolvê-lo. Já na época de Trajano, quando se passa do papiro para o códice – o livro, cosido na lateral – Roma tinha julgo que entre 25 e 27 bibliotecas públicas. É verdade que a grande Biblioteca de Alexandria ficava no Egipto. Mas era uma exceção. Uma rede de bibliotecas distribuídas pela cidade, como havia em Roma, é algo que só voltaremos a encontrar no século XIX. Esse foi outro contributo dos romanos para a história do livro. Acredito que Roma fez muito para que os livros se tornassem elementos transmissores de cultura.

E sabemos como eram essas bibliotecas?

Sabemos bastante mais do que se poderia imaginar, temos muitos dados dos arquitetos. Por exemplo, quando Trajano pede ao seu arquiteto, Apolodoro de Damasco, duas bibliotecas no fórum de Trajano, uma para textos gregos, outra para textos latinos, que estavam frente a frente em cada um dos lados da coluna de Trajano, há detalhes que Apolodoro explica que são apaixonantes. Por exemplo, um dos problemas mais importantes que os romanos tinham na preservação dos textos é que o papiro não era enrolado, e colocava-se numa estante e ficava a tocar no fundo. Normalmente estas estantes não eram de madeira, mas sim escavadas na pedra. O que acontece é que a pedra fica húmida e, se toca em algo húmido, o papiro apodrece. Este homem fazia os armaria – os armários para conservar os papiros – com uma profundidade superior ao comprimento dos papiros, para que nunca tocassem no fundo e nunca apodrecessem. Isto era um arquiteto que pensava no uso do edifício, não como esses arquitetos modernos que pensam num desenho particularmente original e não querem saber do resto. Antes de se chegar ao códice, que podia ter o nome do autor escrito na lombada, o que normalmente se fazia era atar um cordel com uma etiqueta aos papiros, a indicar o autor. Sabemos alguns pormenores sobre isso. E sobre como as bibliotecas estavam organizadas – por ordem alfabética. Devemos isto ao primeiro bibliotecário da Biblioteca de Alexandria. Até ao ano 300, as bibliotecas costumavam ter entre 300 e 500 livros, não mais do que isso. Quando o faraó Ptolomeu II – não sei se viste o filme Alexandre…

Não vi.

Então não vejas, não perdes nada. Há uma cena em que aparece Alexandre e, ao fundo, vê-se o farol de Alexandria. O farol não existia no tempo de Alexandre, foi o filho que o mandou construir! Quando vejo essas coisas fico doente. Bom, mas é no tempo de Ptolomeu II que tanto o farol como a biblioteca de Alexandria são terminados, e então ele chama a pessoa mais intelectual que havia, o seu professor Zenódoto, e manda-o organizar a biblioteca. Zenódoto vê que há um milhão de papiros, uma coisa brutal. E ocorre-lhe organizá-los por ordem alfabética. A partir daí, quando se organizam arquivos de todo o tipo, usa-se sempre este sistema. É por isso que temos no nosso telemóvel os contactos organizados por ordem alfabética, porque o senhor Zenódoto se lembrou que podia ser uma boa ideia. E por isso sabemos que em Roma também em muitas bibliotecas os textos estariam organizados por ordem alfabética.

As páginas do seu livro levam-nos a viajar pela Panónia, Gália, Trácia, Danúbio? Os romanos viajavam muito? E como viajavam?

Viajavam muito, sobretudo as elites romanas, e os comerciantes.

E os soldados.

E os soldados, claro. O império romano estava concebido para que as províncias estivessem em contacto umas com as outras. Por isso os romanos desenvolveram muitíssimo o campo dos transportes. De duas formas: o terrestre e o marítimo. Para o marítimo, o maior problema não era os barcos, os barcos já atravessavam o Mediterrâneo há muito tempo, pelo menos desde os fenícios. Qual é o problema com que Roma se depara quando cresce e acaba a controlar todos os territórios a Norte do Mediterrâneo? É que navegar é muito inseguro.

Por causa dos piratas?

Havia uma pirataria profissional brutal, concentrada sobretudo na parte oriental, no que seria a atual Turquia, mas que assolava todo o Mediterrâneo. E, precisamente, aquele que será um dos grandes inimigos de César, Pompeio, acaba por ser nomeado Pompeio Magno, justamente porque consegue acabar com a pirataria no Mediterrâneo. E isso transforma o Mediterrâneo de um lugar inseguro num lugar perfeitamente seguro para o transporte comercial. Os barcos comerciais podiam ir de um lado para o outro sem proteção militar, porque a frota militar romana tinha acabado com a pirataria. Isto é uma mudança qualitativa. Uma das formas boas de viajar ou de transportar as mercadorias era por mar. Uma das formas boas de viajar ou de transportar produtos é o mar, controlado já contra a pirataria. E depois, através da sua famosa rede de calçadas romanas. Desenvolveram-nas com propósitos militares, para poder deslocar as legiões com maior rapidez, mas isto beneficia a população e o comércio, porque permitia andarem carros para cima e para baixo constantemente. E havia uma manutenção desta rede viária. Resumindo, podia-se viajar bem tanto por mar como por terra, com estas calçadas, que tinham postas [lugares para troca de cavalos], lugares para descansar a cada 15 quilómetros, etc., etc., como na rede viária moderna de qualquer país, em que as autoestradas também têm as suas estações de serviço.

Na sua cabeça as personagens falam em latim?

Na minha cabeça sim. Mas salpico também os meus romances com excertos de textos em latim clássico, que traduzo sempre, para que cheguem a toda a gente. Faz parte da construção do ambiente. Numa série documental de seis episódios intitulada O Coração do Império, que acabamos de rodar para a Movistar [operadora de telecomunicações espanhola], em que sou apresentador, falo espanhol e depois há historiadores a falarem nos seus idiomas. Mas, numa aposta bastante audaz, rodámos toda a parte da recriação em que os atores e atrizes falam latim entre si. Não sei se será a minha primeira e última série para a Movistar. [risos] Mas tomei essa opção até porque na Guerra dos Tronos e n’O Senhor dos Anéis falam em valiriano e em élfico e põem legendas por baixo. Mel Gibson rodou A Paixão de Cristo em aramaico. Nós rodámos O Coração do Império em latim. Mas vamos ver como corre.

Voltando a Júlia, na sua opinião em que aspeto a sua ação foi mais decisiva? Na forma como transmitiu confiança e audácia ao marido, Septímio Severo, que era mais cauteloso?

Creio que foi uma combinação de várias coisas que aliás evoluiu ao longo da sua vida. Num primeiro momento, o que referes: transmitir audácia, valor e energia ao marido, para entrar na luta máxima pelo poder. Em seguida, uma vez entrado nessa luta, transmitindo-lhe serenidade e tranquilidade, sendo-lhe totalmente leal. Depois, o facto de lhe dar filhos. Só uma mulher, e sublinho-o várias vezes, pode forjar uma dinastia, porque só uma mulher pode ter filhos. E passando à segunda parte, Y Júlia Retó a los Diosos [E Júlia desafiou os Deuses, o segundo volume, ainda não publicado em Portugal], a sua capacidade de resistência face à adversidade, como enfrenta como uma dignidade sublime uma doença brutal como o cancro, que lhe detetam, e a sua inteligência para defrontar as conjuras, uma vez estabelecida no poder, para conseguir manter a sua dinastia à frente de Roma.

Por falar em doença: uma das personagens importantes desta história é Galeno. Há muita informação sobre este médico.

Sim, chegou-nos uma grande parte do que escreveu, e é uma personagem absolutamente fascinante. Se formos ao Dicionário da Real Academia Espanhola, encontramos a palavra ‘galeno’ como sinónimo de médico. Ele é, com Hipócrates, de quem herdámos o juramento hipocrático, um dos dois grandes médicos do mundo antigo. Galeno ficará famoso no império romano porque, sendo médico oficial do valetudianarium, o hospital do colégio de gladiadores de Pérgamo, na atual Turquia, consegue uma percentagem de sobreviventes, com gladiadores feridos, muito acima da média. E consegue-o porque percebe que, se lavar as mãos, e as feridas dos lutadores, não sabe porquê, porque não tinha laboratórios, era muito observador e deu-se conta de que se lavasse bem as mãos e lavasse bem as feridas havia menos infeções e sobreviviam muito mais. E por isso é que andamos todos com ácool gel, porque Galeno transmitiu a ideia de que lavar as mãos evitava muitas doenças. De Pérgamo, Galeno mudou-se para Roma e tornou-se médico de imperadores como Marco Aurélio, Cómodo e de toda a dinastia de Júlia. E Júlia, como pessoa muito sábia que era, sabia que o mais interessante para um bom governante que não tenha complexos de inferioridade, ao contrário da maioria dos que nos governam hoje, é rodear-se de gente inteligente. Primeiro, porque, se não tens complexos de inferioridade, não tens medo que te façam sombra e, segundo, sabes que pessoas inteligentes te vão dar conselhos inteligentes. Galeno foi uma das pessoas que ela introduziu no seu círculo próximo. E Galeno, que começou por ver em Júlia, como tantos homens, uma mulher bonita, acabou por ter-lhe um grande respeito e admiração.

 

Outra personagem importante é um escravo, Calídio, que consegue juntar dinheiro para comprar a sua liberdade. Aqui em Lisboa há um teatro romano que foi mandado construir por um antigo escravo que se tornou riquíssimo. Os escravos, em Roma, não tinham de o ser para sempre, podiam até subir bem alto na hierarquia social, não é verdade?

Um escravo em Roma podia comprar a sua liberdade e houve libertos que chegaram muito alto na escala do império. Na realidade, na época alto-imperial, muitos dos conselheiros dos imperadores eram libertos, homens que haviam conquistado a liberdade graças à sua inteligência e tinham entrado para o círculo imperial. Eram figuras muito influentes a nível político e administrativo. A incorporação das personagens de Calídio e de Lucia, a escrava por quem Calídio se apaixona, parece-me importante porque à vezes, quando escrevemos sobre o império romano, escrevemos apenas sobre os grandes personagens históricos. E se, por um lado, os esquecidos eram as mulheres, e aqui fomos buscar Júlia, os outros grandes esquecidos são estas pessoas que não pertencem â aristocracia, à plêiade de grandes figuras históricas – são personagens humildes de quem nunca se fala. Mas estavam lá. E tanto a história de Lucia como de Calídio ajudam a colocar o foco nestas pessoas que, enquanto outros lutavam pelo controlo do império romano, queriam apenas sobreviver. Simplesmente sobreviver.