Carta de Wall Street

Aventuras e desventuras (parte II)

por Pedro Ramos

 

Nova Iorque, novembro 2020

Queridas Filhas,

 

Na última carta analisámos oportunidades de investimento assumindo-nos como únicos investidores. Na realidade, é mais comum investir em projetos com sócios e parceiros. Há várias razões para partilhar o investimento: a) falta de capital suficiente para o financiar; b) alto risco de assumir o projeto sozinho pois, se falhasse, poderia levar à ruína pessoal; c) necessidade de sócios que aportem capacidades importantes para o sucesso do projeto.

Vamos ilustrar estes princípios com alguma ficção histórica. Pelo ano de 1522, a nossa família tem oportunidade de financiar uma viagem de comércio à Índia. O custo da viagem é de 100 moedas de ouro. Se a viagem tiver sucesso, esperamos ter receitas de 300 moedas de ouro, para um lucro de 200 moedas de ouro. Ótimo negócio!

A nossa família dispõe de 105 moedas de ouro. Podemos financiar a viagem. Porquê partilhar um negócio tão atrativo? O que acontece se o barco naufragar ou a carga for roubada por piratas? Estamos confortáveis em recomeçar com apenas cinco moedas de ouro de poupança? Parece prudente partilhar o risco. Podemos ainda encontrar um sócio que, além do capital, possa também aportar conhecimentos de navegação mercante.

Na procura de parceiro temos uma decisão adicional: queremos um credor que empreste o capital ao projeto em troca do pagamento de juro (por exemplo, 20%)? Ou queremos um sócio que entre com capital nas mesmas condições da nossa família, partilhando os lucros e as perdas (por exemplo, o sócio contribui 40% do capital e recebe 40% dos lucros e das perdas).

Porque aceitaria o credor abdicar de todos os lucros potenciais em favor de um retorno de ‘apenas’ 20%? Porque o seu capital tem um risco bastante menor do que o nosso capital (capital próprio). Como donos do projeto, a nossa família não recebe qualquer dinheiro até o credor receber o seu capital, acrescido dos juros.

Assumimos que pedimos 60 moedas de ouro de crédito e investimos 40 moedas de ouro como capital. No retorno da viagem, as primeiras 72 moedas de ouro (60 de crédito mais 12 de juro) serão pagas ao credor. Se, por qualquer razão (tempestade, piratas, mau ambiente de negócios), a viagem render menos de 72 moedas de ouro, a nossa família perde todo o capital investido (neste exemplo, 40 moedas de ouro). Se a viagem render as 100 moedas de ouro que foram investidas, o credor recebe as suas 72 moedas de ouro e a nossa família as 28 moedas restantes (para um prejuízo de 12 moedas, equivalente ao juro pago). A tabela resume os resultados para a nossa família e para os credores em vários cenários.

Uma forma conceptual de pensar na diferença entre o risco e retorno de credores e de capital próprio é resumida na figura seguinte. Ambos contribuem liquidez para o projeto (A) e (B). A dimensão da contribuição dos capitais próprios nunca é fixa até ao fim, pois surgem sempre custos de última hora.

O projeto contribui liquidez que, em primeiro lugar, vai para repagar os credores. Só quando o ‘balde’ dos credores transborda, isto é, repagámos o seu capital (B) acrescido de juros, é que o ‘balde’ dos capitais próprios começa a receber a liquidez restante do projeto.

Tanto a tabela como a figura ilustram um ponto muito importante em finanças e investimentos: em geral, quanto maior o risco assumido, maior o retorno potencial. Esta correlação acontece em mercados eficientes, com informação bem difundida. Mas o mundo real não funciona sempre assim. Pelo que investigação para entender todos os detalhes dos projetos cria muito valor. O uso de profissionais honestos é recomendado.