Contra a corrente

Quem ganhará?

Nos longos milénios em que os sapiens viviam da caça e recoleção, todos os indivíduos cooperavam e partilhavam conhecimentos e experiências de modo a potenciar as capacidades individuais e coletivas em prol do bem-estar e florescimento do grupo. Este foi o caldo que modelou as estruturas biopsicológicas para o exercício dos valores éticos como ‘ADN’ das relações sociais humanas.

Naquele tempo, todos os indivíduos eram mais ou menos enciclopédicos: tinham de saber quase tudo sobre plantas, animais e os ciclos naturais. Eram Pessoas Completas que não conheciam abstrações como o ‘económico’, o ‘social’, o ‘espiritual’, o ‘ambiental’, etc. Tudo se condensava num único âmbito, o da Vida Humana, segundo o Bem-Viver!

As relações inter-grupos tanto podiam ser de cooperação e boa vizinhança, partilhando espaços comuns, como podiam ser de competição, antagonismo e guerra. A maior parte das vezes o assunto resolvia-se pela deslocação para um outro ecossistema do grupo mais fraco, frequentemente com troca de mulheres (para ‘vitalizar’ o ADN). Quando isso não era possível, o grupo derrotado era exterminado (exceto algumas mulheres) pois o ‘espaço vital’ disponível só dava para uma certa população.

Com o advento da agricultura e a domesticação de animais, a ‘produtividade dos territórios’ foi muito aumentada: o que cada um produzia, excedia as suas necessidades de vida; para defender as ‘produções’, os agricultores contrataram os caçadores-recoletores, que eram experientes em ‘seguir pistas’ no mato e usar armas na caça. Pela importância do seu papel, esses caçadores-recoletores vieram a transformar-se em chefes, príncipes e reis: em ‘senhores de domínios’. Surgiram assim o poder e as hierarquias sociais. Estes ‘senhores’ cobravam então aos produtores, a título de pagamento dos serviços prestados ou de simples extorsão, uma certa quantia sobre as produções obtidas: nasceram assim os impostos. Mas, com a agricultura, não vieram só degradações: os antigos vencidos, dos ‘outros’, deixaram de ser mortos, dado que aquilo que produziam enquanto escravos era superior às suas necessidades de sobrevivência, restando uma parte substancial para os ‘donos’. Assim, estes, quanto mais escravos e terras detivessem, mais ricos e poderosos ainda podiam ser.

Desde essa altura até hoje, a ‘peça teatral humana’ continua a ser a mesma, só mudando os ‘cenários’, os ‘figurinos’ e algumas ‘justificações’.

A substituição das nobrezas aristocráticas pelas burguesias não alterou globalmente os termos da equação, já que o moderno trabalho industrial (ou nos ‘serviços’) reproduz o modelo do trabalho agrícola: gente disciplinada a produzir e a consumir muito menos do que as próprias produções. O ‘resto’ é para os senhores dos respetivos ‘domínios’, hoje chamados ‘empresas’. Neste trabalho agrícola/industrial/de ‘serviços’, as pessoas perderam o seu caráter enciclopédico, ‘especializaram-se’. Já não somos Pessoas Completas mas sim um desdobramento contínuo de âmbitos e personalidades tais como a ‘profissão’, ‘contribuinte’, ‘adepto desportivo ou partidário’, ‘cidadão’, ‘consumidor’, etc..

A revolução tecnológica e informacional e de readaptação ambiental que está a dar os primeiros passos, vai alterar substancialmente a estrutura e o metabolismo das sociedades no sentido de uma Sociedade Humana Global. A produção material vai ser automatizada e robotizada. A gestão de todos os processos, produtivos, de obtenção e partilha de conhecimento e de interação social vai ser ‘informatizada’ numa vasta, complexa e transparente rede onde Todos participarão. Será, basicamente, uma rede universal de pessoas, e não de computadores…

Esta revolução irá depender, essencialmente, da qualidade das pessoas, do seu nível de motivação e integração num ambiente global de justiça, de partilha enciclopédica do conhecimento e de criatividade generalizada.

Entre os principais atores mundiais, EUA, China, UE, etc. quem ‘ganhará’? Simplesmente, aqueles que valorizarem e Integrarem as pessoas, dos ‘seus’ e dos ‘outros’ países.