Sociedade

Praxe na Universidade do Minho. "Nunca a vontade dos alunos de Biologia e Geologia foi de discriminação racial"

"Tratava-se, única e exclusivamente, da representação de um povo tribal, guerreiro, que mostra as cores em momentos de celebração, em comparação com a nossa Latada, um momento de celebração e de integração", pode ler-se no comunicado. 

 


"Temos sido assolados com vários comentários negativos sobre as nossas tradições. O que para nós é inocente e não passa do retrato cultural de diferentes povos, para outros é visto como racismo e como uma atitude pejorativa para com uma raça", começou por esclarecer o Cabido de Cardeais, órgão que tutela a praxe na Universidade do Minho, em comunicado, nesta quinta-feira. Recorde-se que, na semana passada, um vídeo de uma praxe dos alunos do curso de Biologia e Geologia, da instituição de Ensino Superior anteriormente referida, tornou-se viral. Em causa está o facto de os jovens terem a cara e o corpo pintado de preto, nessas imagens, enquanto cantam "somos conhecidos por canibais".

"Nunca, em momento algum, a vontade dos alunos de Biologia e Geologia foi de discriminação racial ou do uso de uma prática extremamente condenável. A Praxe É união, a Praxe É integração e a Praxe É justa, idónea e equitativa, NÃO discrimina género, crença ou etnia", esclareceu o órgão suprarreferido, aludindo à "blackface", levada a cabo pelos caloiros (estudantes do primeiro ano da licenciatura que participam nas ações de praxe) que tem vindo a ser fortemente criticada. A verdade é que esta prática surgiu por volta do séc.XIX, nos EUA, quando as pessoas negras eram ridicularizadas para o entretenimento da população branca. Desta forma, os estereótipos negativos eram associados à cor da pele, quando os atores a pintavam em espectáculos humorísticos, comportando-se de formas específicas para ilustrar comportamentos, como os sotaques, que os brancos associavam aos negros.

"O ano de 2020 fez-nos repensar alguns momentos importantes para os estudantes, sendo um deles a Latada", adicionou, referindo-se ao cortejo académico que decorre no Centro Histórico de Guimarães, pelas "ruas tão importantes para a Academia Minhota", ilustrando, de seguida, que a submissão do vídeo passou pela "adaptação aos novos tempos", com o intuito de "ser visto e avaliado", isto é, de pandemia de covid-19 em que o distanciamento físico é imperativo. "Como sempre, os estudantes recorreram à paródia e à sátira social da atualidade do nosso país. Desde o abandono escolar, à falta de apoios aos estudantes com necessidades, passando por um povo tribal que usa uma tinta na cara para celebrações, proteção do sol ou até mesmo como sinal de beleza", rematou, justificando que "muito se viu nesta celebração de integração na vida académica, tão importante para a saúde mental dos estudantes".

"O Cabido de Cardeais, Órgão Máximo da Praxe Minhota, orgulha-se de integrar o Conselho Nacional de Tradições Académicas - plataforma de entendimento que reúne os pontos comuns à Praxe a nível Nacional - cujo compromisso, através de uma Carta de Princípios, reitera a nossa inabalável fé em todos os princípios descritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos", elucidou o órgão, não deixando de declarar que continua a acreditar "na inclusão de todos os que assim desejam integrar a Praxe, independentemente do género, crença ou etnia", clarificando que "estes princípios são transversais a todos os cursos da Academia".

Deste modo, o Cabido de Cardeais lamentou que as ações dos estudantes em causa "tenham sido interpretadas desta forma quando nunca houve essa intenção", escrevendo que a "blackface" ocorreu no âmbito "da representação de um povo tribal, guerreiro, que mostra as cores em momentos de celebração, em comparação com a nossa Latada, um momento de celebração e de integração". Assim sendo, e lembrando que "a Praxe sempre se motivou através da união criada entre todos, e não pelas divergências", espera "que este mal entendido seja superado e que todos possamos voltar a viver as nossas tradições de forma livre".

É de referir que a Universidade do Minho opôs-se a esta ação de praxe, tendo transmitido, em comunicado, que "os tempos de distanciamento físico não podem significar que os estudantes se distanciem dos valores, princípios e missão da Universidade do Minho" e informado que acionaria os seus mecanismos internos para averiguar os responsáveis pela situação. A seu lado a Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) reagiu também e mostrou o seu "completo repúdio por todos e quaisquer comportamentos discriminatórios, que atentem contra os valores do respeito, igualdade e dignidade humana".