Economia

Evolução da pandemia pode travar crescimento

Depois de queda de 8,1% do PIB, BdP acredita em crescimento de 3,9% do PIB no próximo ano. Analistas estão reticentes em relação às metas e admitem que tudo depende da vacina.

O produto interno bruto (PIB) português deverá subir 3,9% em 2021 e este ano deverá cair 8,1%, ou seja, a previsão realizada em outubro mantém-se. As contas são do Banco de Portugal (BdP), mas mostram um cenário mais pessimista do que o do Governo, que espera um crescimento económico de 5,4% em 2021, tal como a Comissão Europeia (CE), enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra-se mais otimista ao apontar para um crescimento de 6,5%. Para 2022 e 2023, a instituição liderada por Mário Centeno prevê um crescimento de 4,5% e 2,4%, respetivamente.

Os analistas contactados pelo SOL garantem que se trata de uma visão mais atualizada e também mais realista. «Com a evolução da pandemia e o cenário da vacinação penso que sejam análises muito bem documentadas com dados estatísticos e, por isso, o mais realista possível», diz Francisco Alves, da Infinox.

Também Henrique Tomé acredita que este ano será marcado por fortes retrações no crescimento do PIB tanto a nível nacional como a nível internacional, excluindo algumas exceções como é o caso chinês. Por outro lado, o próximo ano já revela sinais de recuperação económica. «Historicamente sempre que existem anos de maiores contrações no crescimento, pelo menos, nos anos de recuperação, são registados fortes recuperações em termos económicos mas as previsões do Banco de Portugal acabam por demonstrar um crescimento modesto», diz o analista da XTB.

A taxa de desemprego deverá ficar nos 7,2%, deteriorando-se em 2021 para 8,8%, de acordo com o regulador. Henrique Tomé lembra que a subida de desemprego no próximo ano será resultado das consequências dos efeitos negativos da pandemia. Mas acredita que o valor poderá variar. «Os próximos meses serão muito importantes para se perceber a que ritmo é que a recuperação económica será feita e também o comportamento do setor privado que será fundamental na recuperação e criação de novos postos de trabalho», refere ao SOL.

Uma opinião partilhada por Francisco Alves. Para o analista da Infinox, estas previsões estarão sempre muito dependentes principalmente do sucesso da vacina. «Desta forma, temos sempre de considerar um cenário mais pessimista», salienta.

 

2022 em níveis pré-crise

O governador do BdP disse, no entanto, esperar que o comportamento da economia portuguesa face a uma eventual terceira vaga da pandemia, após o Natal, seja melhor que o verificado nas anteriores. «É expectável que, se uma terceira vaga suceder, toda esta aprendizagem, e num contexto em que já há vacinação, se possa esperar um efeito muito mais contido na economia», antecipou o ex-ministro das Finanças. E para 2022, o BdP acredita que é possível atingir níveis pré-crise.

Uma meta que não convence todos os analistas. Henrique Tomé lembra que ainda não são conhecidas as reais consequências da pandemia e lembra que o ritmo da recuperação da atividade económica será essencial para perceber se será uma meta alcançável ou não. «A intervenção do Estado na economia é importante mas o setor privado e os níveis de consumo da população terão um papel ainda mais determinante», salienta.

Mais otimista está Francisco Alves. «Se tudo correr dentro do previsto, a recuperação será rápida e exponencial, por isso, acredito que poderemos voltar a níveis pré-crise em 2022».

Mário Centeno vai longe: as previsões para o período de 2020 a 2023 apontam para uma resiliência do rendimento disponível dos portugueses, em termos agregados. O boletim económico de dezembro, divulgado esta segunda-feira, prevê uma manutenção do rendimento disponível, apesar da crise pandémica. No entanto, admite que haverá franjas da população afetadas, dado que o impacto é heterogéneo. «O impacto no rendimento das famílias em 2020 foi amortecido pelas medidas governamentais, incluindo as moratórias ao crédito», salienta.

Argumentos que não convencem os analistas. Para Francisco Alves, da Infinox, não há dúvidas: «Apesar de confortantes, penso que não poderá ser uma garantia. Assistimos a uma segunda vaga, prova que a situação pandémica pode alterar repentinamente».

Uma opinião partilhada pelo analista da XTB, ao considerar que ainda será cedo para fazer já esse tipo de afirmações. «Ainda não se sabe as consequências que a pandemia causaram na economia e nas famílias. Não podemos ignorar o fato de o Estado ter sido bastante interventivo na economia e as recentes medidas de reestruturação de algumas empresas poderão trazer custos aos contribuintes».

 

Alertas

Apesar de algum otimismo por parte do Banco de Portugal, a entidade liderada por Mário Centeno admite que há riscos, nomeadamente em termos de endividamento público e privado e risco do crédito. Para Francisco Alves, «é sem dúvida uma situação bastante delicada, e o próprio BdP frisou que a crise económica não deve originar uma crise financeira. A estabilidade financeira deverá ser mantida com medidas complementares entre todos os setores, sendo que o bancário tem uma função crucial neste momento».

Uma opinião partilhada pelo analista da XTB. Henrique Tomé considera que «este é sem dúvida um dos grandes desafios dos governos para os próximos anos: a redução dos níveis de endividamento nacional. Diria até que será mais desafiante do que o próprio crescimento económico». E lembra que as recentes intervenções do Estado Português e o apoio da ‘bazuca’ do Banco Central Europeu com vista à recuperação económica fizeram com que os níveis de endividamento disparassem.