Economia

Turismo em queda livre mas com olhos na Páscoa

O setor continua a registar quedas atrás de quedas. AHP diz que perspetivas vão-se confirmar: quebras superiores a 70% nas dormidas e 80% nas receitas. 

O turismo continua em queda livre e as perspetivas não são animadoras. O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) garante que as previsões feitas a meio do ano vão agora confirmar-se: «Iremos fechar o ano com quebras superiores a 70% nas dormidas, menos 40 milhões de noites e de 80% nas receitas». Tudo somado são «menos 3,6 mil milhões de euros», conclui Raul Martins.

Os últimos dados revelados pelo INE falam por si. O número de hóspedes recuou 59,7% e as dormidas diminuíram 63,3% em outubro face a igual período do ano passado, «Esta evolução representa uma nova aceleração das quebras homólogas da atividade turística, fortemente impactada pela pandemia, que em setembro já tinha sofrido recuos de 50,3% nos hóspedes e de 53,4% nas dormidas», refere o responsável. As dormidas de residentes caíram 21,7% (-8,6% em setembro) e as de não residentes recuaram 76,4% (-71,8% no mês anterior).

Os proveitos totais registaram uma variação de -67,7% (-59,1% em setembro) e atingiram 126,2 milhões de euros. Os proveitos de aposento fixaram-se em 90,7 milhões de euros, diminuindo 68,7% (-59,5% no mês anterior). Os mesmos dados indicam ainda que, em outubro, 32,1% dos estabelecimentos de alojamento turístico estiveram encerrados ou não registaram movimento de hóspedes (25,9% em setembro).

Setor de portas fechadas

Raul Martins revela ainda que, até março do próximo ano, a maior parte da hotelaria estará encerrada, pelo que no 1.º trimestre de 2021 a realidade vai ser muito idêntica à do ano que agora termina: sem hóspedes. Um cenário que poderá alterar-se a partir da Páscoa, tal como tem sido adiantado pelo ministro Siza Vieira, que está otimista em relação à recuperação da economia e também do turismo em 2021.

A esperança é partilhada por Raul Martins. «A partir da Páscoa pensamos que o número de turistas vá aumentando progressivamente. Apesar de acreditarmos que o 2.º semestre de 2021 será com certeza melhor do que 2020, assim os planos de vacinação corram bem, os resultados ainda serão negativos para a Hotelaria e ficarão muito longe dos resultados de 2019, mas em 2022 já será um ano com resultados positivos», antevê.

Manter unidades

A crise no setor já está a refletir-se na venda de unidades. De acordo com um estudo do Idealista, mais de 160 unidades hoteleiras não resistiram e estão à venda.

Só na região Centro, em outubro foram colocados no mercado 53 hotéis (17 dos quais em Lisboa), um aumento de 15% face ao número de hotéis anunciados em março (46), segundo dados do site especialista em imóveis. Segue-se a região Norte (37) e o Algarve (29).

É no Algarve, mais especificamente em Faro, que se contabiliza o segundo maior número de unidades hoteleiras postas à venda em outubro Portugal. Um hotel de quatro estrelas na zona da Praia da Oura, em Albufeira, Faro, é um dos mais caros da lista (mais de 36 milhões de euros).

Mas há muitos outros casos, de acordo com o mesmo documento. Um número que não convence a AHP. «Não temos conhecimento deste elevado número, mas estranhamos bastante. Por um lado, os apoios que têm existido, desde o layoff; apoios à tesouraria e as moratórias em vigor até setembro de 2021, são instrumentos fundamentais e que precisamente têm significado a possibilidade de manutenção dos ativos. Por outro lado, existe bastante confusão na nomenclatura: verificamos que muitas vezes são considerados ‘hotéis’ realidades que não o são, desde turismo no espaço rural a alojamento local. Finalmente, deve referir-se que compra e venda de ativos hoteleiros sempre existiu. Continua a haver interesse por parte dos operadores em expandirem-se ou a entrarem de novo no mercado, aliás, até há bem pouco tempo cadeias e investidores internacionais queixavam-se de que não era já possível comprar hotéis em Portugal. No entanto não houve um ajuste dos preços dos ativos, apesar da pandemia, o que faz com que muitos negócios que se anunciam não estejam nem venham a acontecer», diz ao nosso jornal.

Raul Martins diz ainda que só no início de 2021 terá esse balanço feito, apesar de reconhecer que há algumas empresas que «adiaram, naturalmente, a abertura dos hotéis prevista para 2020», acrescentando que «a par destas, haverá empresas que iriam iniciar a construção de novos hotéis (de raiz ou em reabilitações) neste ano e que estão a redirecionar o investimento para outras opções imobiliárias e outras utilizações».

E lembra que há vários grupos e unidades hoteleiras a apostar noutras utilizações, «sendo que a maioria da oferta vai para as que aliam os momentos de lazer ao trabalho, onde a pessoa pode passar os dias e, ao mesmo tempo, fazer do hotel o seu escritório». Os últimos dados do inquérito da AHP indicam que 68% dos inquiridos consideram importante a alteração do enquadramento legal para a utilização de quartos de estabelecimentos hoteleiros para outros fins. «No topo das soluções de utilização estão a utilização para cowork, reuniões e escritórios, apontada por 49%; seguida da utilização para ensino e formação e alojamento para estudantes, indicada por 24%; e, por fim, por 24%, exposições, eventos culturais e showrooms». Mas lembra que esta alternativa depende muito do potencial de adaptação e pode ter custos associados.