Viver Para Contar

Os novos pides

A maioria dos comentadores louvou o comportamento do ‘ofendido’. Mas o treinador do Benfica, interpelado sobre o assunto, teve uma resposta diferente.


Num jogo de futebol em Paris, entre uma equipa francesa e uma equipa turca, o 4º árbitro (uma espécie de ‘árbitro ajudante’), ao querer indicar ao árbitro principal um elemento sentado no banco de suplentes dos turcos (que teria tido um comportamento incorreto), designou-o por «aquele negro».

Provavelmente não haveria outros negros no banco, e o 4º árbitro achou ser aquela a melhor forma de o identificar. Nas minhas passagens por Angola diziam por vezes «aquele branco». E eu nunca me senti ofendido. No meio de uma maioria negra, percebia que o facto de ser branco era um fator distintivo.

Mas o homem levantou-se, pôs-se aos gritos – perguntando ao 4º árbitro «Se fosse um branco, tu dizias ‘aquele branco?’», – gerou-se um sururu dos diabos, a equipa turca acabou por abandonar o campo, a equipa francesa seguiu-a, e o jogo foi suspenso.

A maioria dos comentadores louvou o comportamento do ‘ofendido’ e atacou o 4.º árbitro. Mas o treinador do Benfica, Jorge Jesus, interpelado sobre o assunto, teve uma resposta diferente. Começou por dizer que estes casos estão na «moda» e acrescentou que, quando hoje se diz algo a um branco, é uma coisa – mas se se diz o mesmo a um negro é-se logo apelidado de ‘racista’.

Guilherme Valente, há quinze dias, publicou aqui no SOL uma crónica que ilustrava de modo eloquente essa verdade.

Pegou numas declarações do líder ‘antirracista’ negro Mamadou Ba, trocou a palavra ‘branco’ por ‘negro’, e as frases resultavam insuportavelmente violentas. Se qualquer branco tivesse dito aquilo, crucificavam-no sem direito a defesa. E, no entanto, ninguém chamou nomes a Mamadou Ba. Ninguém lhe pediu explicações. Ele falou em «matar o homem branco» num país de maioria branca e ninguém reagiu.

Isto mostra a anestesia que o ‘politicamente correto’ está a provocar na nossa sociedade. Um negro pode dizer tudo dos brancos – um branco não pode dizer nada dos negros.

É óbvio que aquele 4.º árbitro foi inadvertido ao dizer ‘aquele negro’. E digo ‘inadvertido’, porque não acredito que o tenha dito com intenção ofensiva. Mas se o árbitro foi inadvertido, o ‘ofendido’ foi oportunista. Porque aproveitou a situação para armar um escândalo.

Não gostando do modo como o árbitro o indicou – e estava no seu pleníssimo direito – o turco podia ter-lhe dito: ‘O senhor, se faz favor, não volte a referir-se a mim dessa maneira’. E é natural que o outro recuasse, explicando que não quisera ofendê-lo. E em última análise o ‘ofendido’ podia fazer uma queixa por escrito. Mas não. ‘Surfando’ a onda que existe contra o racismo, com movimentos como o Black Lives Matter (que se tem distinguido pelo derrube de estátuas…), tirou partido da situação para criar um problema grave.

A UEFA tem dado muita importância à questão do racismo, com sucessivas campanhas, e o árbitro vai ser com certeza castigado. Mas eu pergunto: há muito racismo no futebol? Os jogadores negros são discriminados? São mais mal pagos do que os brancos? São mais castigados pelos árbitros do que os brancos? São menos endeusados pelos adeptos do que os brancos? São discriminados pelos treinadores em relação aos brancos?

Julgo que não. Todas as grandes equipas têm estrelas negras, pagas faustosamente, alguns dos grandes ídolos do futebol, como Eusébio ou Pelé, são negros, nunca nos apercebemos de que os jogadores negros fossem penalizados pelos árbitros.

Nesta medida, episódios como este são indesejáveis – e acabam por voltar-se contra quem os provoca. Aquele caso de Paris só contribuiu para envenenar as relações entre brancos e negros.

E se estes problemas se multiplicarem, se houver cada vez mais perturbações desta natureza – com negros (ou mulatos, ou amarelos) a queixarem-se de racismo por dá cá aquela palha –, o futebol tornar-se-á um circo e os clubes europeus começarão a pensar duas vezes antes de contratarem um jogador negro, com receio de que se torne uma fonte de problemas.

Percebendo o perigo que existe na banalização do racismo, Jorge Jesus, que é um homem sensato e experimentado, disse o que disse. Teve as palavras certas. Desvalorizou o caso.

Foi muito atacado pelos politicamente corretos. Mas não tem de se arrepender do que disse. Deve continuar a pensar pela sua cabeça, como sempre fez, e não como alguns querem que pense. Estamos a entrar num tempo inquisitorial. Há pessoas a apontar o dedo a outras: «Aquele é racista!», «Aquele é fascista!», «Aquele é xenófobo!», «Aquele é machista!», como antes se dizia «Aquele é comunista!» ou «Aquele é herege!».

Com múltiplos pretextos, estão a nascer novos pides. E na internet, com a desculpa das fake news, começam a aparecer novas censuras.

Jorge Jesus, na sua carreira de treinador, já treinou centenas de jogadores negros. E algum se queixou dele? Algum disse que foi discriminado por ser negro ou doutra cor? Algum disse que ele preferia pôr a jogar um branco em vez de um negro?

Não? Então, calem-se os detratores.

Os atos de um homem são o melhor atestado que ele pode apresentar. O resto é palavreado.

P.S. – Esta semana, um polícia branco foi mortalmente atropelado por um negro, quando tentava travar os maus tratos que este infligia à mulher. E se fosse ao contrário? Se tivesse sido o branco a atropelar o negro e a arrastá-lo 40 metros, o que estaria hoje a dizer-se? Pense nisto…