Politica

"As pessoas estão com medo, mas também fartas do confinamento"

Entrevista a Maria do Rosário Gama, professora aposentada e presidente da APRe.

 

Como tem vivido estes tempos de pandemia?

Primeiro, com alguma esperança, mas sempre com a preocupação. Mas primeiro com alguma esperança, porque, depois daquela conversa que nós tivemos [edição do SOL de 25 de abril passado], a situação parece que melhorou ligeiramente durante o verão. Mas logo a seguir, a partir de setembro, voltou a complicar-se e neste momento acho que está bastante complicado. O número de mortos é grande, principalmente na população mais velha e principalmente também nos internados em lares. Os surtos dos lares continuam intensos e isso é uma coisa que, como deve imaginar, nos preocupa bastante. Esta é a população que tem a idade que nós pretendemos representar com a nossa associação.

Tem tido muitos relatos de pânico?

Acho que as pessoas, por um lado, estão com medo e são capazes de aceitar as regras. Mas ao mesmo tempo – e principalmente nesta altura do Natal – acho que se complica bastante para cada um daqueles que tem familiares e não pode sair. Se saírem, quando regressarem têm de estar 14 dias confinados. Há uma proposta da Câmara de Cascais em que a câmara se ofereceu para pagar os hotéis para as pessoas ficarem confinadas durante 14 dias. Paga a uma pessoa idosa do lar que vai passar com a família, mas tem de ser acompanhada por um familiar. Não sei se já tiveram inscrições. Acho que todos os lares estão a tentar melhorar. Acho que há várias pessoas a tentar aliviar esta situação, a tentar torná-la menos dolorosa para os utentes. Há também situações de lares que convidam um familiar para lá ir almoçar num destes dias. É apenas um e numa situação de distanciamento bastante grande, mas a pessoa vai e está com o familiar. Há várias tentativas para resolver esta situação. Outros não terão condições para o fazer e isso complica a situação mental até de quem está internado. As pessoas aproveitavam muitas vezes esta data para sair, havia muitos familiares que iam buscar os seus idosos para passarem o Natal em família e agora isso não pode acontecer porque ninguém se quer sujeitar a ficar 14 dias confinado num quarto. As pessoas estão fartas de estar confinadas. Cada vez que há alguma situação de teste positivo num lar, imediatamente fica tudo fechado nos quartos. Isto é uma situação muito complicada, nós temos conhecimento de casos destes que têm acontecido por aí, por alguns lares, e as pessoas estão cansadas. Já é complicado não poderem sair dos lares, mais complicado ainda é não poder sair dos quartos.

Uma pessoa autónoma, que pode andar...

Não pode sair do quarto se estiver confinada.

Sim, mas se vai a casa de um familiar, tem de voltar para esse quarto?

Exatamente.

Mas os assistentes dos lares também vão estar com as famílias.

Exatamente, por isso é que eu acho que há aqui alguma injustiça. Se houvesse testes feitos, se as pessoas fizessem o teste no regresso, com certeza que, se calhar, não haveria necessidade de ficarem confinadas, mas não é isso que as normas da DGS dizem para os lares. Quando alguém sai, no regresso tem que ficar 14 dias confinado no quarto. Tenho a certeza que isto é assim, porque o meu marido trabalha na direção de um lar. E veja: quem quer sair para ficar no quarto 14 dias fechado? Há lares em que nunca aconteceu nada, as pessoas estão separadas sempre que é possível, não se misturam todas, estão confinadas a um espaço e não a um quarto. Mas há outros em que mal acontece um caso positivo ficam imediatamente todas enfiadas nos quartos. Isto são situações que eu acho que perturbam qualquer pessoa mais nova, quanto mais uma pessoa mais velha.

Tem tido conhecimento de relatos dramáticos?

Claro que temos. Tenho uma familiar num lar que gostaria muito de ir a casa, tem saudades de casa e não pode. Não pode porque não quer depois ficar confinada num quarto. Até porque já tem estado confinada no quarto, porque no lar apareceu lá um surto de covid-19.

A sua filha trabalha num lar? Como tem a vossa convivência?

Não tem problema nenhum. Fazem testes de 15 em 15 dias e há um cuidado imenso. É um espaço que está dividido em alas, tem três alas, os utentes estão distribuídos por essas três alas e estamos tranquilos, porque são cumpridas todas as regras. Desde a máscara, à distância física, à higienização das mãos com a solução alcoólica, isso tudo tem sido sempre cumprido. Muitas vezes, o que aparece vem de fora. Por exemplo, com enfermeiros que trabalham fora e entram no lar e trazem o vírus. No lar dessa minha familiar, o que aconteceu foi isso. Foi um enfermeiro que trabalhava em vários locais e levou para lá a covid e infetou uma série de residentes nos lares. Isso é muito complicado.

Quais são as principais preocupações que chegam à sua associação?

Ainda agora vamos estar, na terça-feira, na Assembleia da República para assistir ao debate de uma petição que fizemos sobre o complemento solidário para idosos em que nós contestamos a condição de recursos. Essa também era uma das preocupações, conseguimos levar isso avante, conseguimos as assinaturas necessárias e isso foi bastante bom.

O que pretendem com esse componente solidário?

O complemento solidário para idosos é um subsídio que é atribuído a quem tem pensões bastante baixas e até atingir um determinado valor, que é à volta de 400 e qualquer coisa euros. É o diferencial entre o valor da pensão e o valor que está estipulado nesse complemento solidário. Mas muitas pessoas idosas não tinham acesso a esse complemento solidário, porque havia uma condição de recursos que tinha a ver com o rendimento dos filhos. Ora, pessoas que vivem sozinhas, uma pessoa idosa ou um casal que vive sozinho e que os filhos têm as suas vidas, como é evidente, os filhos não têm possibilidades de estar, se calhar, a ajudar os pais, digo eu. A situação económica dos filhos pode não permitir isso. E, portanto, essas pessoas não tinham direito ao complemento solidário para idosos. E aquilo que defendemos é que as pessoas que têm pensões muito baixas devem concorrer a esse subsídio sem ter em conta o rendimento dos filhos. Um exemplo de um casal que conheço: têm uma pensão baixa, são 300 e tal euros cada um. Permitia candidatar-se a este complemento, só que a filha tinha um rebanho de ovelhas. Bastou a filha ter o rebanho para eles não terem direito. E isto não pode ser. O Governo entretanto legislou, há quatro escalões de rendimentos dos filhos e o Governo aceitou que a condição de recursos deixasse de existir até ao terceiro escalão, mas ainda falta o quarto e achamos que a petição se justifica. Resumindo, nessa petição, a APRe relembra que, por considerar que o englobamento de parte do rendimento dos filhos era totalmente injusto e penalizante para muitas pessoas com mais idade e de baixos rendimentos que, em resultado daquele englobamento, ficavam excluídas do acesso ao CSI.  Não poderemos aceitar que qualquer pessoa mais velha fique privada de uma ajuda da maior importância pelo facto de ter um filho com um rendimento mediano.

Tem noção de quantas pessoas estão nos lares?

O setor de acordo com os dados do Instituto da Segurança Social, representa 70% dos lares. São 2526 entidades. Destas entidades, os privados lucrativos representam cerca de 30% da oferta, o que corresponde a 750 lares. Estima-se que existam cerca de 3000 lares clandestinos. O número de utentes idosos que recebem cuidados em lares legalizados – que são as IPSS, as Misericórdias, as mutualidades e os privados – é cerca de 150 mil. Há 846 lares de IPSS com universo de cerca de 40 mil utentes e 737 lares das misericórdias que acolhem cerca de 37 mil utentes. Mas o que interessa aqui são os 150 mil que é o total nos lares legais. Estas pessoas são pessoas que estão nos lares. Poder sair, podem. Mas quando regressarem terão de estar confinadas ou, então, acontece como aquela que até foi um caso único, penso eu. Em Cascais, o presidente da Câmara, disponibiliza-se a pagar durante 14 dias num hotel da cidade a estadia de um residente de um lar acompanhado por um familiar. O familiar é que o vai buscar ao lar, passa lá o Natal com ele e depois acaba a estadia e acho que até são os bombeiros que vão levar a pessoa ao lar depois de ter feito três testes: um à entrada do hotel, outro a meio e outro à saída. Mas não sei se já há muitos candidatos. Acho que, na minha opinião, que depois os familiares não estão disponíveis para ficar os 14 dias.

Preocupações...

Temos muitas. Estou constantemente a falar dos nossos direitos e daquilo a que devemos ter direito.

Como é que as pessoas com mais de 65 anos estão a viver esta fase?

As pessoas pararam. Tínhamos dois coros na APRe, tínhamos um grupo de teatro, isso tudo parou. Tínhamos visitas a museus e vários locais e isso tudo parou. Por acaso fizemos uma conferência em Lisboa em outubro, uma conferência presencial no ISCTE, com personalidades importantes. De resto, parou tudo. Fazemos conferências por Zoom, temos muitas solicitações para intervirmos através do Zoom. Mas isso é para quem tem acesso à internet, porque há muitas pessoas que não têm acesso à internet. Ainda há pouco participei num ‘webinar’ sobre a comunicação entre as pessoas. Nessa comunicação uma das coisas que eu disse é que umas das primeiras coisas importantes a fazer era, por exemplo, garantir wi-fi em todos os lares para as pessoas poderem contactar umas com as outras, isto era fundamental. Uma senhora que estava nesse ‘webinar’ disse que isso não era possível porque as redes móveis não chegam a todo o país. Há zonas do país que não são cobertas por redes móveis. Essa é outra das nossas preocupações. Se estiver numa aldeia em Pinhel não tenho acesso à internet, é verdade. Para haver wi-fi em todos os lares tem que haver a cobertura pelas operadoras e acho que não existe essa cobertura a nível nacional. Por outro lado, as pessoas que vivem isoladas e que também gostariam de falar com os seus familiares, teria que haver algum apoio das comissões locais de ação social para poderem fazer esse contacto com os familiares porque estão isolados, muitos não têm acesso à internet, podem ter telemóvel mas se calhar não é um telemóvel que permita usar o WhatsApp ou assim. Há tanto voluntariado, há tanta situação que poderia ser resolvida através das freguesias e das comissões locais das ação social que se calhar era bom que isso fosse implementado de maneira a que quem vive isolado pudesse contactar com os seus familiares, pelo menos nesta altura do ano.

Em abril disse que as pessoas estavam a ficar com problemas psicológicos. O caso agravou-se?

Claro. Isso é uma coisa que é recorrente. Muitas das pessoas estão baralhadas e agora com a aproximação do Natal pior ainda, porque muitas delas são autónomas, mas muitas não são. E aquelas que estão mais fragilizadas em termos psicológicos, muitas delas não entendem como é que, por exemplo, os familiares só podem ir uma vez por semana visitá-las e estar meia hora e vão embora. Como é que uma mãe que está internada num lar, por exemplo, e que entrou para lá ainda com boas capacidades, passado quase um ano está numa situação – estou a dar um exemplo, ainda há pouco falei com uma senhora que tem a mãe num lar e está nesta situação – em que de um momento para o outro ficou perturbadíssima. Não reconhece a filha porque a filha tem de estar de máscara e a uma distância grande. Quem é surdo não ouve as pessoas, não fala, não há comunicação. É só dizer ‘olá como é que está?’ e gritam de um lado e gritam do outro para poderem falar uns com os outros. Isto perturba qualquer um como é evidente.

Não acha que as pessoas mandam muito cedo os familiares para os lares?

Defendemos bastante as pessoas em casa e o apoio domiciliário e agora até era bom que isso acontecesse porque tem de haver – com certeza, digo eu, porque não sei como é que isso vai ser feito – uma reestruturação de muitos lares que existem por aí. E tem de haver, se calhar, um redimensionamento. O que era importante era garantir, porque a maior parte das pessoas mais velhas, autónomas, aquilo que desejavam era ficar em casa. E mesmo quem está bom da cabeça mas tem alguma limitação física – e há muita gente que parte o colo do fémur, nesta idade é muito frequente e as pessoas ficam limitadas e têm de andar com andarilho e não podem estar sozinhas. Se houvesse apoio domiciliário e que esse apoio domiciliário fosse diversificado, se calhar até se poupava dinheiro, penso eu. Os subsídios que são dados aos lares podiam ser investidos nesse apoio domiciliário e depois as pessoas, quem tivesse possibilidades, poderia também contribuir para que isso acontecesse. Mas esse apoio domiciliário tem de ser diversificado e não pode ser só com as funções que estão escritas na segurança social, que estão contempladas: levar o almoço, a refeição, higiene da casa e higiene pessoal. Achamos que é importante também que esse apoio permita, por exemplo, acompanhar as pessoas a alguma atividade cultural, uma compra, um espetáculo, qualquer coisa. Achamos que devia também contemplar isso. E isso não existe. Ora, havendo agora tanta gente desempregada e como era importante tendo em conta aquilo que se passa nos lares, se calhar era fundamental repensar-se essa hipótese do apoio domiciliário como forma de dar satisfação ou resposta a quem gostaria de ficar em casa e como forma de ter menos gente a caminho dos lares. E, respondendo à sua pergunta, claro que há muita gente que quer despachar os familiares, claro que sim. E há muitos que estão abandonados, como sabe. Até nos hospitais. E nesta altura do ano até pessoas que se calhar tinham possibilidades de pagar a alguém, põem os pais nos hospitais, arranjam uma doença e depois só vão buscá-los quando regressam de férias. Este ano não sei se vão haver férias para o estrangeiro mas isso é uma coisa que era recorrente.

Tem relatos de pessoas com alguma idade que sintam alguma discriminação na rua?

Não, felizmente não. Quando foi da vacinação, quando houve aquela hipótese de as pessoas com mais de 65 anos ficarem de fora, houve essa hipótese, mexemo-nos, fizemos logo comunicados, fomos contactar o gabinete do primeiro-ministro e com deputados e essas coisas voltaram para trás. O Presidente da República também tem aproximadamente essa idade e isso está resolvido. Há quem ache que as pessoas com 65 anos ou mais, doentes com doenças graves, deveriam estar no primeiro grupo. Mas para estarem esses, se calhar tinham que tirar outros que estão lá, como o caso das pessoas que estão nos lares e os médicos, os profissionais de saúde. E esses, com certeza, têm que estar à frente nesse plano de vacinação.

O seu dia a dia não se alterou de abril para cá?

Olhe, passei a ter muito mais reuniões não presenciais. Tive uma em Lisboa no Centro Cultural de Belém, por exemplo, com o Júlio Isidro a moderar, estivemos a contactar com lares. Aquilo que ouvi foi aquilo que acabei de dizer: as pessoas gostavam era de estar nas suas casas. Fora isso é tudo através da internet.

Mas continua a fazer a sua vida normal?

Tudo. Não alterei nada. Os meus netos continuam a vir cá casa e tudo bem. Não alterei nada. Temos é que cumprir as regras e nós cumprimos as regras. Ainda ontem fui jantar fora com quatro colegas. Nós temos é que cumprir as regras.

Na altura era muito contra o uso da máscara ao ar livre. Usa agora?

Pois que remédio, é obrigatório. Sempre que posso, tiro. Por exemplo, se for aqui na minha rua e se não estiver ninguém eu não uso. Mas claro que é importante usar porque é obrigatório e não queremos sujeitar-nos a uma multa. Estou triste é por causa do dia de Ano Novo. Acho que é importante haver medidas de contenção, claro que sim, porque a situação está grave. Mas nesse dia podiam deixar os familiares almoçar e não podem, não podem estar juntos porque às 13h têm de estar todos recolhidos. Começamos mal o primeiro dia do ano. Mas pronto, é por um bem maior.

Há relatos de quem se lamenta?

Eu sou uma das que se lamenta. Não é da passagem de ano... Mas eu entendo que as medidas são importantes. Já ultrapassámos os 6 mil mortos, já viu?

Falavam um oito mil até ao final do ano.

Mas esses números estão um bocado inflacionados, não vai ser tanto. Uma das coisas que nós conseguimos, através de persistência bastante grande, foi participar nas reuniões do Infarmed. Fomos agora à primeira depois de eu insistir bastante com o poder político. Não faz sentido. 

Foi a Maria do Rosário que foi?

Através do Zoom. Era para ir até pessoalmente mas o espaço... a recomendação é que as pessoas deviam ficar em casa e, de facto, a maior parte das pessoas estavam em casa. Eu assisti aqui e estava muita gente a assistir em casa. Umas mais novas, outras mais velhas. Mas eu podia ter ido pessoalmente. Mas comecei a pensar que ia de comboio... estive no Zoom e assisti à reunião. Acho que não faz sentido ouvirem-se os sindicatos, estarem os sindicatos e não estarem as associações de reformados quando 1/3 da população portuguesa é reformada. Por que é que têm de estar os sindicatos e não estão as associações? Não estou a dizer para estar só a APRe!. Insisti e consegui.

Chegou a dizer de sua justiça?

Disse de minha justiça antes. Lá não. Só se lá estivesse é que podia falar. Acho que é importante que as associações dos reformados estejam presentes nas reuniões do Infarmed porque as associações de reformados têm uma palavra a dizer nesta situação em que a maior parte das pessoas que morreram são velhos.

Como vai ser o seu Natal?

Vai ser exatamente igual. A única diferença é que não vou ter a minha irmã. Tenho uma irmã que vive em Sines e não vai poder vir. Ela é diabética e convém ficar em casa. Essa é a única diferença, mas custa-me muito porque é a primeira vez que vai acontecer. Vou passar com os meus filhos e com os meus netos.

Tem muita atividade na sua página do Facebook sobre as entrevistas que têm sido feitas aos candidatos.

Ai pois tenho, claro. Então com aquelas da SIC, foi horrível aquilo.

Indigna-se com a agressividade dos jornalistas nestas entrevistas?

Sim, porque eu acho que as pessoas para fazerem perguntas não precisam de ser agressivas. Tenho tido contacto com jornalistas, bastantes, imensas entrevistas, até na televisão... Tantos com quem eu estive na televisão, andei três anos na Praça da Alegria... As pessoas fazem perguntas e estamos sem qualquer problema. Agora com aquela agressividade toda? A que propósito se justifica aquela agressividade? Não se justifica, não deixam falar as pessoas. Entre as duas que vi e comentei e as que o Miguel Sousa Tavares tem feito, acho que há uma diferença enorme. O Miguel Sousa Tavares, pelo menos, ouve as pessoas. Faz os seus comentários, também tem a sua opinião, tudo bem. Mas é bem diferente daqueles outros que acho que foi de uma agressividade total. Acho que ninguém gosta de ouvir. Os comentários na minha página mostram que as pessoas concordam com aquilo que lá escrevi.