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Cinema. Kát Félidö a Pobolkan

É, indiscutivelmente, um dos grandes filmes da história do futebol. Resta ainda por saber se baseado em factos autênticos.

Quantos dos que neste momento leem estas linhas viram e reviram um filme que ficou para a história do cinema e que, em português, levou o título de Fuga Para a Vitória? É datado de 1982, conta com um golo de Pelé de pontapé de bicicleta, com Michael Caine (John Colby) a servir de chefe dos prisioneiros do campo comandado pelo nazi Max von Sydow, a fazer o papel de Karl von Steiner, e um jogo pela liberdade disputado no Estádio de Colombes, em Paris, onde a equipa dos aliados era composta por gente finíssima, de Bobby Moore a Osvaldo Ardilles, e de Kazimierz Deyna a Paul Van Himst, passando por um guarda-redes grotesco, o capitão americano Robert Hatch, interpretado pelo canastão Sylvester Stalone que, a despeito de defender um penálti decisivo que permitiu a fuga dos seus companheiros, foi dos guarda-redes mais deselegantes que alguma vez me passou pela frente dos olhos.

Escape to Victory, no original, foi realizado por John Huston, que não era propriamente um saloio, apesar de ter facilitado um tudo nada na execução da película. Mas a ideia original desse filma esteve muito longe de ser dele. Sim, porque se muitos de vós viram Fuga para a Vitória, transformado pela propaganda norte-americana como uma das longas metragens que espalhava pelo mundo a superioridade das potências ocidentais sobre as potências do eixo na II_Grande Guerra, pouco terão tido acesso ao filme que lhe deu origem: Két Félidö a Pokolban, realizado por um cineasta húngaro chamado Zoltán Fábri.

Zoltan nasceu em Budapeste em 15 de outubro de 1917 e desde muito cedo estudou artes, acabando por se formar no Hungarian College of Fine Arts. Em 1950 estava profundamente envolvido na indústria cinematográfica e não tardou a ganhar fama internacional com a realização de Vihar (A Tempestade), em 1951, e de Körhinta (O_Carrossel), em 1956. Em 1961 resolveu trazer o futebol para as telas de cinema com Két Félidö a Pokolban, que acabaria traduzido em inglês por The Last Goal ou Two Halves in Hell. Basicamente criara as bases para o sucesso de John Huston vinte anos mais tarde. Mesmo que, nos dias que correm, a generalidade dos amantes do cinema se esteja completamente nas tintas para isso.

 

O jogo da morte!

Két Félidö a Pokolban conta a história de um jogo de futebol que terá tido lugar entre uma equipa de soldados alemães e outra de prisioneiros húngaros. Lenda ou realidade? Não há quem se disponha a por as mãos no fogo por isso.

Entremos pela sinopse de Két Félidö a Pokolban. Na primavera de 1944, um grupo de oficiais nazis fizeram questão de comemorar o aniversário de Adolf Hitler (20 de abril) com uma disputa desportiva entre soldados das SS e um grupo de operário de guerra naturais da Hungria. Para isso, foi convocado um antigo jogador de fama reconhecida chamado Ónódi. Ónódi, que só existiu na imaginação de Zoltán, e surge no filme representado pelo ator Imre Sinkovits, fez exigências: os seus convocados seriam dispensados de trabalhos forçados, teriam as refeições melhoradas e uma bola para treinar diariamente. Para os alemães, tudo bem, desde que não houvesse sequer um judeu metido ao barulho.

Ónódi estava metido numa camisa de onze varas. E o onze até vem aqui a propósito já que, entre os 98 prisioneiros que tinha à disposição para formar uma equipa, apenas 9 tinham condições físicas para se apresentarem em campo. Por pura piedade, desobedeceu ao que fora acordado e meteu um judeu no conjunto, um tal de Steiner que, vendo bem, de nada lhe servia pois não acertava na bola nem de bico.

O pequeno grupo de jogadores às ordens de Ónódi percebeu rapidamente que as suas hipóteses de vitória eram nulas pelo que, em vez de engendrarem um plano de jogo dedicaram-se a forjar um plano de fuga. Desastre completo. Os nazis, atentos, cortaram-lhe todos os caminhos para a liberdade. E a escolha passou a ser simples: jogar ou morrer dependurados na forca. Como qualquer um, optaram pela solução de se manterem vivos, nem que fosse por mais uns dias.

 

As estrelas da tela

Ao contrário do que John Houston viria a fazer vinte anos depois, Zoltán Fábri não recorreu a antigos jogadores para fazerem o papel no seu filme. Mas não foi parco em recrutar todos os grandes atores húngaros da época, de Dezsö Garas (a fazer de Steiner) a József Szendrö, de István Velenczei a Gyula Benkö. O público húngaro não se alheou desta galáxia e aceitou a película de Fábri como um dos grandes acontecimentos culturais do país.

Sentados nas suas cadeiras, encheram as salas de cinema de Budapeste para assistirem ao drama que iria decorrer na frente dos seus jogos esbugalhados.

O jogo começou muito mal para a equipa dos prisioneiros, um grupo de gente enfraquecida pela fome e pelos maus tratos. Abatidos, sem capacidade de reação, iam sendo absolutamente dominados pelo conjunto orgulhoso de soldados alemães que não percebiam, ou faziam não perceber, a diferença brutal e injusta entre a condição física que os separava dos seus infelizes adversários. Uma soberba insuportável, própria de arianos convencidos da superioridade rácica que nunca tiveram, empurrava-os na ânsia de esmagar os desgraçados prisioneiros húngaros à beira da exaustão. Ao intervalo venciam por 3-1.

Ónódi juntou os seus homens. Injetou-lhes coragem e garra. Mas confessou-lhes o que lhe fora transmitido pelo comandante alemão, o capitão Heilig, interpretado por Siegfried Brachfeld: a vitória dos nazis tinha de ser indiscutível e por números esclarecedores. O resultado obtido até aí era demasiado curto para as expectativas germânicas. Não estavam ali para ganhar. Estavam ali para reduzir a pó a dignidade dos seus inimigos.

A partir desse momento, os húngaros sabiam que tudo o que não fosse uma goleada homérica por parte dos representantes do exército nazi representaria para eles uma condenação à morte.

É esse o momento fulcral do filme de Zóltan Fábri. Um grupo de homens na encruzilhada das suas vidas. Deixarem-se vergar como cachorros vadios, mendigando restos de comida, ou subir com valentia ao estatuto de homens, respeitando a bandeira do seu país e o sangue do seu povo.

Ónódi sabia a resposta.

Os húngaros entraram na segunda parte para um verdadeiro jogo de vida ou de morte. Sendo que a morte surgiria amarrada à vanglória do triunfo. Num ímpeto que lhes vinha do fundo da alma despedaçada, atingiram o limite da sua audácia e da sua arte. Os golos foram surgindo: um, dois, três. De repente, a empáfia dos nazis rebolava no terreno poeirento da partida. Sem honra nem caráter, o capitão Heilig dá ordem de disparo. À vontade! O jogador húngaro que tinha a bola em seu poder tomba morto por conta de uma bala que lhe perfurou uma têmpora. Todos os outros são abatidos, um a um. Para que não reste um pingo de desafio.