Sociedade

Quem responde às cartas do Pai Natal?

Entre 150 mil e 170 mil cartas chegam anualmente aos CTT para serem entregues ao Pai Natal. Devido à sua agenda atarefada, este vê-se obrigado a delegar o trabalho em ajudantes.


Quem passa pelas instalações dos CTT em Cabo Ruivo não imagina que no seu interior está uma estação pertencente à task force dos ajudantes do Pai Natal. As cartas vêm enfeitadas com desenhos, colagens e todo o tipo de arte possível de ser feita por marcadores e lápis de cor. Por ano, são recebidas pelos CTT entre 150 mil e 170 mil cartas para o Pai Natal. Começam a chegar a meio de novembro e todas elas recebem uma resposta e uma lembrança. Mas claro que, devido à quantidade de cartas recebidas, é praticamente impossível que o próprio Pai Natal seja capaz de responder a todas – e ainda produzir milhões de brinquedos ao mesmo tempo. Por isso, para que nenhuma criança fique sem resposta, o Pai Natal distribui esse trabalho pelos seus ajudantes. Desde 1985 que os Correios de Portugal fazem parte desta ajuda. A iniciativa teve origem nas cartas espontâneas que os CTT começaram a receber, nascendo assim uma necessidade de resposta. Costumam ser entre seis e dez os ajudantes que se mobilizam no final do ano para ajudar o velhote de barbas brancas neste trabalho.

Mónica é um deles. Trabalha diretamente com o Pai Natal há 16 anos, mas apenas quando as cartas começam a chegar, porque durante o resto do ano é funcionária dos CTT. Ao longo destas quase duas décadas, Mónica tem observado um aumento nos pedidos de brinquedos tecnológicos, como tablets e computadores. Mas este tipo de pedidos, apesar de representarem uma grande parte dos feitos ao Pai Natal, não são os únicos.

A ajudante do Pai Natal lembra com emoção um pedido especial a que respondeu: «Houve uma vez uma criança que pediu um passarinho para oferecer à avó, que tinha ficado viúva há pouco tempo e queria companhia». Também é frequente aparecerem cartas de crianças que pedem um animal de estimação para si, ou mesmo um irmão ou uma irmã.

No local de trabalho dos ajudantes do Pai Natal, as cartas tendem a ser divididas em dois grupos: de um lado, as que são enviadas espontaneamente pelas crianças; do outro, as que chegam por parte de iniciativas escolares ou associativas. Quando as cartas vêm de escolas, por exemplo, as respostas são todas enviadas de volta para a escola, que depois as distribui pelas crianças. Antes desta divisão acumulam-se em caixotes, pelo chão e debaixo da árvore. Os ajudantes do Pai Natal (que aquando da nossa visita eram apenas “ajudantas”) respondem depois a cada carta individualmente, deixando-as prontas para serem entregues.

E apesar de o mundo do Pai Natal ser um lugar mágico onde as doenças não chegam, este ano, as crianças têm pedido prudência. A ajudante Mónica conta ao Nascer do SOL que «há cartas que vêm com uma máscara para que o Pai Natal esteja protegido».

Pai Natal Solidário

Além de ajudarem o Pai Natal a dar resposta aos pedidos, os CTT têm também uma iniciativa para que crianças em situações de risco possam receber presentes especiais. As cartas são entregues por crianças até aos 12 anos a instituições. Depois, as instituições fazem essas cartas chegar aos Correios, que tornam os pedidos disponíveis no seu site da internet nos meses de novembro e dezembro. Qualquer pessoa pode escolher uma carta para apadrinhar. Para efetuar a reserva das cartas escolhe-se a carta que se pretende e esta fica reservada durante três dias úteis. Se o pedido não chegar aos CTT durante esse espaço de tempo, a carta deixa de estar reservada e novamente disponível para apadrinhar. No fecho desta edição já só estavam disponíveis para apadrinhar 11% das cartas inicialmente disponibilizadas.

Teresa Duarte é um exemplo de alguém que escolheu dar um Natal mais feliz a uma criança. A jovem de 21 anos é patinadora e no ano passado descobriu «uma menina que tinha escrito uma carta a pedir uns patins». Então, Teresa juntou-se a algumas colegas de equipa e compraram «um conjunto de patins, capacete e joelheiras» para oferecer.

Existem várias associações que são parceiras da iniciativa Pai Natal Solidário dos CTT e uma delas é a Apoio à Vida. A associação apoia desde mulheres grávidas a famílias que vivam em situações de risco. Em entrevista a este semanário, Mafalda Monteiro, assistente social e coordenadora dos centros de atendimento da Apoio à Vida, explicou que a parceria com o Pai Natal Solidário é feita há cerca de cinco anos e que tentam «sempre ajudar famílias diferentes de ano para ano».

Ao contrário do que está a acontecer este ano, a instituição costuma organizar uma festa de Natal onde junta as famílias e lhes entrega os presentes. A assistente social recorda um episódio em que «um menino queria imenso um presente do Homem-Aranha. Na festa recebeu uma mochila com estojos e lápis e nunca mais tirou a mochila das costas». Atualmente, a situação tem funcionado de maneira diferente, com mais mensagens e telefonemas a substituírem o contacto presencial. Mafalda admite que, por vezes, recebe mensagens que lhe tocam especialmente o coração, «de mães que nos agradecem por verem os filhos felizes». Entre essas mensagens, a assistente social partilha uma, recente, que a deixou de lágrimas nos olhos: «Muito obrigada pelos presentes lindos das crianças, fiquei muito emocionada ao ver os presentes dos meus filhos! A minha filha vai pular de alegria quando souber que realmente ganhou a máquina fotográfica de presente de Natal. É muita alegria para as crianças e para a mãe».

Iniciativa começou em novembro

Este ano, a iniciativa começou um mês antes do Natal. Foi logo a 25 de novembro que, através da página oficial do Facebook, o Pai Natal Solidário partilhou a novidade.

«O Pai Natal Solidário está de volta aos CTT para garantir que a magia do Natal chega a todas as crianças. Este ano contamos com 41 instituições de solidariedade social e 1500 crianças até aos 12 anos, que serão as autoras das tão conhecidas cartas ao Pai Natal», pode ler-se numa publicação que conta com mais de 250 reações e 100 partilhas. Nos comentários há dezenas de pessoas a quererem ajudar.

Basta aceder ao site do Pai Natal Solidário para oferecer a uma criança um presente que sempre quis ter. Apesar de estarmos na véspera de Natal, ainda é possível apadrinhar cartas. À semelhança dos anos anteriores, a iniciativa vai estar disponível até janeiro.