Editorial Luz

Ano velho, tubarões e máscaras

Janeiro de 2020: o ano começava com uma viagem de sonho, planeada juntamente com mais duas primas.

Janeiro de 2020: o ano começava com uma viagem de sonho, planeada juntamente com mais duas primas. O entusiasmo arrancava ainda antes da hora do check-in; aliás, ainda antes de seguirmos para o aeroporto; para dizer a verdade, ainda antes de fazermos a mala. Tinhamos conseguido finalmente agilizar datas, carteiras e promoções para esta aventura, e o nome do nosso grupo do Whatsapp ‘Viajantes’ ganhava por aqueles dias algum sentido. Aterrámos nas Filipinas para uma viagem única e para assistir à mudança do mundo também (ficaríamos a saber mais tarde). Certo dia, acordámos de madrugada para deixar o hostel de El Nido e apanhar a mini van que nos levaria até Puerto Princesa, de onde voaríamos para Cebu. Acordámos, mas a manhã não acordou igual. Chegámos à receção com o mau humor de quem dormiu poucas horas e, mesmo que pretendêssemos estender o silêncio até pousarmos novamente as malas – como se o mau feitio pudesse ser colocado dentro de uma mochila -, não era possível. Nas despedidas, reparámos que as rececionistas usavam um novo acessório: a máscara cirúrgica. O habitual segurança à porta do hostel não era exceção. Nem o condutor do tuk tuk que nos levou até à paragem das tais carrinhas – bem como praticamente todos os filipinos com quem nos fomos cruzando. Por esta altura surgiam as primeiras declarações das autoridades portuguesas sobre o coronavírus e a preocupação era ainda contida. Paralelamente, nós andávamos numa missão impossível de comprar máscaras, com as farmácias filipinas sem stock – conseguiríamos mais tarde, em novo voo interno. Embora a viragem repentina, só em um momento sentimos verdadeiramente que o vírus nos alterou o roteiro inicialmente delineado. Aconteceu na saída de Bohol: com os bilhetes esgotados para novo regresso a Cebu nos barcos rápidos, mas com a convicção de cumprirmos sempre o plano traçado, optámos por comprar o passe do barco lento. Além de demorar mais do dobro do tempo do que o primeiro, quando subimos a bordo apanhámos logo a primeira desilução. Com beliches a perder de vista – tal era a demora da travessia -, descobrimos que os nossos lugares eram num dos bancos laterais, rijos, de madeira, onde pensar sequer descansar seria motivo de anedota. Começámos a trocar olhares para ver quem cedia primeiro, mas o silêncio voltou a mandar. Tínhamos aparentemente aceitado passar aquele desafio, mas, à medida que o barco ía enchendo, a banda sonora tornava-se cada vez mais assustadora: a tosse em coro foi para nós a gota de água, e saímos disparadas segundos antes da partida. No penúltimo dia, já em Manila, ninguém entrou no hotel sem passar pelo termómetro corporal – tal como hoje acontece em vários cabeleireiros ou restaurantes. No dia de regresso a Portugal, saímos do hotel diretamente para o aeroporto. 2020 tinha acabado de arrancar. Nós achávamos que nadar com os tubarões tinha sido a experiência mais assustadora do ano. E a nossa Avó também.

Ainda não se conta um ano desde o início dessa aventura e o plano de vacinação contra a covid-19 já arrancou em Portugal. À porta do Ano Novo, que seja também o fim de um novo princípio.