Desporto

Cinema. Feliz Natal com uma bola

Alemães, franceses e escoceses pagam caro a trégua espontânea na qual trocam presentes e jogam futebol. O final do filme de Christian Carion é frio como o aço de uma baioneta.

Há tantas histórias em redor daquele Natal de 1914 na frente de combate, o primeiro da I Grande Guerra, e das diversas tréguas espontâneas que surgiram um pouco por toda a parte, que não é fácil encontrar um ponto em comum em relação aos milhares de relatos que chegaram até aos dias de hoje que não seja o de uma bola de futebol. Na verdade, aqui e ali, grupos de soldados aproveitaram para resgatar os corpos dos seus camaradas abatidos nas zonas ocupadas pelos inimigos, trocar rações de combate e pacotes de cigarros e dar uns pontapés nas bolas que alguns se lembraram de chutar para o espaço aberto entre trincheiras. Já uma vez contei aqui, nestas páginas, a história do mais a sério desses jogos, que além de meter equipas regulamentadas, onze para cada lado, foi arbitrado segundo as leis do jogo. Mas esse foi apenas um dos episódios mais marcantes desse Inverno terrível no qual a Europa central estava devastada e uma geração de jovens combatentes ficava para sempre amputada de muitos dos seus membros por via de uma guerra que a grande parte deles nem sequer entendia, tão pouco claras foram as razões que levaram ao explodir do conflito.

Por mais uma vez regresso ao mundo do cinema. A semana passada a visita à sétima arte deveu-se ao realizador húngaro Zoltán Fabri que contou, em Két Félidö a Pokolban, a história de um jogo de futebol que terá tido lugar entre uma equipa de soldados alemães e outra de prisioneiros húngaros durante a II Grande Guerra e que conduziu ao assassinato em campo de todos os jogadores húngaros, chacinados pelas balas da Gestapo. Desta vez vou na peugada de Christian Carion, um cineasta nascido em Cambrai, no norte da França, em 4 de janeiro de 1963, numa família de camponeses e fazendeiros.

Na propriedade dos Carion, que fora transformada em campo de batalha entre 1914 e 1918, era vulgar encontrarem-se destroços de material de guerra, desde pedaços de carabinas a restos de bombas e capacetes, algo que mexeu profundamente com o imaginário do jovem Christian que fez da I Grande Guerra uma fonte de inspiração da sua veia artística. Depois de se ter apresentado ao exigente público francês com um primeiro filme, datado de 2001, e chamado Une Hirondelle a Fait le Printemps, uma homenagem aos seus antepassados em forma de história de paixão entre um sisudo camponês e uma rapariga alegremente parisiense, Carion deixou-se cativar pela tal trégua de 1914 e pelas disputas futebolísticas que dela nasceram como flores em terrenos lamacentos. E deitou mãos à obra para fazer Joyeux Noël. Com tamanho sucesso que foi considerado o melhor filme em língua estrangeira na 78.ª edição da entrega dos Óscares da Academia de Cinema Norte-Americana.

 

Ninguém foge ao seu destino

Joyeux Noël viria a ser o último filme do célebre ator Ian Richardson. No casting de Christian, coube-lhe um soturno papel de padre, logo ele que, além de ser um enorme representante shakesperiano, assumira a figura de Francis Urquhart, na séria da BBC, House of Cards, e fascinara os cinéfilos com a sua versão de Sherlock Holmes em The Sign of Four e The Hound of the Baskervilles. A escolha dos atores foi francamente heterogénea: desde Benno Fürmann, no papel de soldado alemão Nicolaus Sprink, a Guillaume Cannet, a fazer de tenente Camille René Audebert, e de Alex Ferns, como tenente Gordon dos fuzileiros escoceses ao próprio Christian Carion que guardou para si próprio a encarnação de um médico da Ordem Clínica Britânica.

Mas vamos aos acontecimentos. O filme abre com uma cena infantil de meninos ensaiando discursos patrióticos. Na Escócia, dois irmãos, Jonathan e William, alistam-se para combaterem na companhia do padre Palmer que se torna capelão do exército. Por seu lado, na Alemanha, o cantor lírico, tenor Nicolaus Sprink, é interrompido durante os ensaios por um oficial alemão que lhe anuncia ter sido recrutado, pondo fim à sua reserva. O soldado francês Audebert já está encolhido na sua trincheira, e contempla a fotografia da mulher grávida que teve de deixar para trás enquanto se fazem os preparativos para uma surtida em campo inimigo.

Ninguém foge ao seu destino.

O ataque dos Aliados transforma-se num doloroso fracasso, sendo repelidos pelo exército alemão. Audebert consegue sair com vida da refrega, mas William cai morto por entre as dezenas e dezenas de cadáveres que os sobreviventes se veem obrigados a deixar para trás.

 

A trégua

Ouvem-se, em crescendo, as gaitas de foles escocesas. É um som entusiasmante, arrebatador. Um som que faz parar a guerra. Enquanto a música homenageia os que caíram em combate, os alemães decidem fazer tréguas.

Sprink chegara à frente de combate na companhia de Anna Sorensen, sua companheira dinamarquesa, mezzo-soprano. Ambos cantam, por sua vez, para levantar o moral dos combatentes. Quando inicia as primeiras notas de Silent Night, recebe resposta do outro lado das trincheiras. São os gaiteiros escoceses que fazem questão de acompanhar a sua voz forte e sonora. O padre Palmer funciona como regente. Sprink toma a decisão de sair da trincheira com uma pequena árvore de Natal na mão. Do outro lado, Audebert e Gordon surgem ao seu encontro. Trocam-se votos: Joyeux Noël, Fröhe Weihnachten e Merry Christmas. Estamos a 24 de dezembro de 1914. Celebra-se uma missa, trocam-se presentes e, lá está, joga-se futebol, esse jogo de meninos que fascina todos os homens.

Ao contrário do que seria de esperar, as coisa não acabam bem. O fim do filme de Carion é duro como o aço das baionetas. O padre Palmer é dispensado e acusado de assumir um papel conciliatório contra os odiados alemães. O batalhão dos escoceses tem um major furioso à sua espera que lhes ordena que abatam a sangue frio um soldado alemão que atravessava tranquilo a terra-de-ninguém. Audebert é castigado e enviado para a morte certa em Verdun. Recusa-se a pedir desculpas pelo facto de ter confraternizado com o inimigo. Do lado alemão, o filme repete-se. O tenente Horstmayer, responsável pelo 93.º Regimento de Infantaria, e os seus homens são aprisionados nos vagões de um comboio por ordem do Kaizer Guilherme e enviados para a Frente Leste. É-lhe retirada a Cruz de Ferro. Desta vez o futebol não faz milagres...