Opiniao

Mudança

O grande desafio de 2021 é também, o de perceber o que vamos conseguir fazer enquanto povo com todo este capital que para muitos esteve tanto tempo como que adormecido...

Por Teresa Cortê-Real, presidente da Causa Real

 

Um das grandes conclusões deste ano de 2020 é a necessidade de reforço do espírito de comunidade e de procura do bem comum. Foi assim que superámos a primeira fase da crise pandémica, foi por isso que ficámos em casa muito antes de tal ser pedido e depois ordenado pelas autoridades nacionais, que fomos capazes de rapidamente encontrar formas quase informais de auxílio em rede e que deu (e continua) a dar alento e alimento a quem mais precisa. Onde o Estado não foi capaz de chegar (e não interessa aqui porquê) a chamada sociedade civil, ou seja, nós todos, fomos capazes de estar. E temos que ter orgulho nisso. 
Há como que uma redescoberta do verdadeiro sentido da palavra cidadania que vai muito para além da lógica de direitos e deveres e se traduz em espírito de serviço. Como numa guerra guerra convencional, nunca saberemos o que temos que agradecer enquanto sociedade a muitas centenas de heróis anónimos que, literalmente do dia para a noite, ultrapassaram os seus próprios medos e fizeram o que tinha ser feito com uma capacidade de reinvenção e de resiliência extraordinárias. Na saúde, já o sabemos, mas também na educação, na agricultura, nos serviços, no próprio bairro e mais longe de nós.

Percebemos que quando queremos fazemos a diferença. E que a indiferença ou a incapacidade de organização que alguns definem como característica dos portugueses de agora está na incapacidade de muitas chefias em serem motores de transformação e não é intrínseca à nossa sociedade. Já sabíamos isso, é verdade. Os nossos emigrantes sempre foram um ótimo exemplo dessa realidade. Mas este 2020 provou que, também ‘cá dentro’ quando queremos e sabemos ser importante conseguimos ser donos do nosso destino, capazes de influenciar decisões políticas e promover a mudança em defesa do bem estar do todo.

Mais: que é fundamental a existência de uma reserva nacional a vários níveis e em diversos domínios que torne sustentável a nossa existência enquanto país. Tanto a nível profissional como em matérias primas ou equipamentos. E que é fundamental reforçar a capacidade de decisão e de liderança.

O grande desafio de 2021 é também esse, o de perceber o que vamos conseguir fazer enquanto povo com todo este capital que para muitos esteve tanto tempo como que adormecido. Este passar de ano é, assim, muito mais do que de calendário. É o da mudança para aquilo que queremos ser enquanto país. Saibamos nós estar à altura do momento histórico que nos foi dado viver.