Vinagrete

Terra Prometida

Conta Obama no seu livro que, em certo momento, no início das sua campanha para a nomeação Democrata, quando já era muito provável o seu sucesso, também entrou naquela vaga consensual, e viu as sondagens a tratá-lo pior. 

por Pedro d'Anunciação

Chama-se ‘Uma Terra Prometida’, e é o primeiro livro das Memórias presidenciais de Barak Obama, tido consensualmente pelos europeus mais à direita ou mais à esquerda, desde que relativamente centristas, como o melhor Presidente americano dos últimos tempos – ou mesmo de todos os tempos.

Uma coisa curiosa que ele diz neste livro (que, apesar das suas quase 800 páginas, é dado como o primeiro de dois) é ter conseguido dar uma imagem de autenticidade de convicções e de ideias, ao opor-se àqueles consensuais dos dois partidos principais (Democrata e Republicano) e do povo eleitor americano. Um exemplo que ele dá a este propósito, foi o apoio quase generalizado da população dos EUA à guerra de Bush contra o Iraque (que por isso mesmo incluiu as principais figuras do Partido Democrata ao lado das dos Republicanos, estando ele contra). Mas nem sempre teve o mesmo sucesso ao opor-se às sondagens constantes de que dispunha.

Conta Obama no seu livro que, em certo momento, no início das sua campanha para a nomeação Democrata, quando já era muito provável o seu sucesso, também entrou naquela vaga consensual, e viu as sondagens a tratá-lo pior. Decidiu então ser mais genuíno nas convicções próprias, e assim acabou vencedor.

Talvez tenha sido também o grande segredo da vitória de Trump, que me parece agora impossível de repetir – até porque nenhuma das suas ideias tem já frescura.

Pelo contrário, em Portugal, e nos sucessivos primeiros-ministros, temos visto a mesma ânsia consensual. Lembro-me do tempo de Passos Coelho, de as medidas serem anunciadas com alguma antecipação, e só serem depois (de comentadas pela imprensa) concretizadas quando não levantavam grandes oposições. Costa não vai sequer às antecipações – deixa-se logo empurrar pelo que parecem consensos.

Venha agora a genuinidade – onde está ela?