À Esquerda e à Direita

Os trunfos de Ventura

Ventura quando sente que as coisas lhe estão a correr bem perde um pouco a cabeça e comete muitos erros que podiam perfeitamente ser aproveitados pelos outros. Dizer a rir que quem tem 1% nas sondagens só pode estar a gozar ao dizer que quer ser Presidente - fiquei a saber que 10% já o permitem...

Para ver televisão já tenho de usar óculos, pois as letras e as imagens ficam distorcidas, mas nos últimos tempos tenho sentido vontade de ir ao otorrino, tais são os disparates que oiço e me custa a acreditar. Parece claro que nenhum dos candidatos que se confrontaram com André Ventura – o de ontem com Ana Gomes já foi depois do fecho do jornal – conseguiu desmontar o ‘boneco’ que o líder do Chega encarna e caíram quase todos no seu jogo. Ninguém usou a estratégia que podia pôr a nu a jogada de Ventura – a da confrontação pura e dura para parecer que é um durão que nunca cede e que se preocupa com os portugueses, ordeiros, direi – , utilizando uma linguagem verbal e gestual tranquila, ao mesmo tempo que colocava pressão no candidato do Chega.

Ventura quando sente que as coisas lhe estão a correr bem perde um pouco a cabeça e comete muitos erros que podiam perfeitamente ser aproveitados pelos outros. Dizer a rir que quem tem 1% nas sondagens só pode estar a gozar ao dizer que quer ser Presidente – fiquei a saber que 10% já o permitem... –, como se ele próprio acreditasse; quando fala nos membros de outros partidos que foram apanhados com droga – até parece que no Chega são todos cidadãos exemplares –; quando ataca sem piedade os imigrantes, pondo todos no mesmo saco – dentistas, arquitetos, mulheres a dias, às redes profissionais de mendigos e assaltantes – Ventura nunca foi questionado sobre o que pensa dos milhões de portugueses que vivem e trabalham em França, Canadá, EUA, Venezuela, Angola, Moçambique, etc. Também quando disse que estava preparado para esmagar os seus adversários ninguém lhe perguntou se pensava que estava nalgum ringue de boxe; e, já agora, o que pensa das questões económicas, o que pensa das seitas religiosas e por aí fora.

Dizer que o Chega deve ser ilegalizado, além de uma enorme estupidez, é fazer o jogo de André Ventura. Perante tudo isto, como é possível a maioria dos comentadores dizer que o homem do Chega foi o pior dos debates? Que raio de análise é essa de um homem que cresce nas sondagens – por acaso na nossa de hoje até desce em relação a Ana Gomes – e se distancia de todos os outros, com exceção, como é óbvio, de Marcelo e da antiga eurodeputada.

 

Ouvi e pensei que precisava de ir ao tal otorrino. Que as pessoas não gostem e abominem o que Ventura defende – o clássico anti-ciganos, anti-imigração, e castrações e afins –, percebe-se. Mas não ver que as suas prestações nos debates lhe correram, regra geral, bem é outra coisa. Ventura falou para o seu eleitorado, embora algum tenha ficado com uma sensação de vazio da personagem, lá está, a tal história da cassete.

Dizer-se que João Ferreira, um homem que não conseguiu distanciar-se do modelo norte-coreano, logo um grande democrata, ou de Tiago Mayan, um verdadeiro desastre de comunicação, ou Marisa Matias – fez pena ver a simpática deputada cair tão infantilmente na armadilha montada pelo líder do Chega – estiveram melhor que Ventura faz alguma confusão. A não ser que a análise agora seja feita de acordo com as simpatias políticas de cada comentador. Do género: ‘O representante do meu partido teve de confrontar-se com o troglodita do Ventura e safou-se muito bem’. Haja paciência. Nota final para duas jornalistas que me surpreenderam pela positiva: Carla Moita da TVI e Clara de Sousa da SIC.

P. S. – Na semana passada vi duas notícias bastante reveladoras da estupidez em que vivemos. Uma jovem estrangeira foi violada quando pedia boleia de Évora para Lisboa. O suspeito ficou em prisão preventiva, mas rapidamente vai para prisão domiciliária até ao julgamento. Já uns tantos mangas, entre os quais um antigo polícia, apanharam mais de oito anos de prisão por terem sido apanhados com 120 quilos de canábis. Isto faz algum sentido? Uma violação é menos grave que o tráfico de haxixe que milhões e milhões fumam em todo o mundo – aliás, são cada vez mais os países ou estados que legalizam o seu consumo recreativo.

vitor.rainho@sol.pt