Sociedade

O Natal diferente de Luís

Nunca casou. Foi um herói anónimo de Abril, participou em ocupações no Alentejo, tornou-se mariscador, tuberculizou, ficou diabético - e agora amputaram-lhe um pé. É uma vítima colateral da covid. Porque faz parte da lista negra de 11 milhões de portugueses esquecidos por não serem portadores do vírus. Vive num lar, como quem vive numa prisão uma pena perpétua. Sabe que não sairá de lá vivo


O Natal nunca mais voltará a ser o mesmo. Muito menos o Ano Novo. Antigamente, nesta quadra, Luís pelava-se por dançar – e não o voltará a fazer. No entanto, nem é um homem de religião. Sabe que, por vezes, as pessoas até queimam outras, crucificam e matam por questões de fé. Mas gostava da festa e aproveitava qualquer momento para sentir os puxões valentes da vida.

Para ele, os pés sempre o aproximaram da terra e isso agradava-lhe. Conhecia alguns dos segredos do mar e gostava de sentir o seu toque logo pela madrugada, de calcar a areia e dar conta da corrida do molusco para se esconder nas suas entranhas. Nunca teve familiaridade com o dinheiro, pois vinha de gente pobre: mariscadores de Olhão, no sotavento do Algarve, que andavam nas marés vazias ao mexilhão e à amêijoa, e seguiu-lhes os passos.

Nascido em 1953, em pleno salazarismo, sempre se contentou com pouco, como os demais pobres. Aos dias que passavam, Luís pedia apenas alegria, o que, à época, já era um delito. «Comecei a trabalhar muito novo. Quando apanhava três quilos de amêijoa por dia, já era uma fartura. O dinheiro gastava-o todo num cabaré que havia no centro de Olhão, onde ia com rapazes da minha geração. Mas o mar era amigo, tinha sempre para dar».

 

Já não sou o mesmo homem

Era um homem muito cobiçado, mas sempre fugiu de amores problemáticos e nunca constituiu família pois tinha por certo que, passados os banhos de mel, rapidamente esse ecossistema se transformaria num ninho de vespas a correr por todo o lado. «Não pense que foi por falta de raparigas! Eu era leviano e sempre quis ser livre. Talvez fosse esse o meu mal e cheguei onde cheguei».

Luís sabe que mudou muito – e quem lhe dera que tivesse sido pelo burilar do tempo e não pela pandemia que num ano paralisou o país: «Não sou o mesmo que era. Gosto de pensar que sou. Mas não sou. Basta olhar para mim!». Antes, olhava-se ao espelho e este devolvia-lhe a imagem de um homem sólido e ágil. «Já tive sonhos bonitos. Agora só me resta esperar que ‘ela’ chegue. Nunca pensei que me amputassem o pé».

Hoje, com o novo vírus a tingir o mundo de negro e o medo a empurrar os homens uns contra os outros, Luís refugia-se num punhado de boas recordações. De quando ainda era um homem escorreito e Portugal, de repente, ganhou cores festivas.

Foi um dos muitos protagonistas anónimos da Revolução dos Cravos. Em abril de 1974, estava no Regimento de Cavalaria 3 em Estremoz, a unidade que mais militares perdera na cega guerra colonial, e fez parte do esquadrão da unidade comandado pelo capitão Andrade Moura que marchou para Lisboa e se acantonou no Largo do Carmo até à capitulação de Marcello Caetano. «Primeiro parecia uma guerra, com camiões e chaimites em plena rua, mas depois, quando o Marcelo se entregou, o povo saiu à rua trouxe sandes e cigarros para a tropa. Foi uma loucura. Quando voltei para Estremoz, ainda andei nas ocupações no Alentejo, com o povo a ocupar as herdades e a gritar ‘o povo é quem mais ordena’. Agora, o povo nem pia. Eu estou aqui a falar consigo a medo; se o meu lar sabe, não sei o que me acontece. Não tenho nada, só a pequena reforma que vai toda para eles, e a casa que tinha na ilha do Coco foi deitada abaixo como a de todos os pescadores, no tempo do Sócrates. Chamavam-lhe casas clandestinas e nunca tivemos outras. Não foi para isto que eu e os meus camaradas, que podíamos ter morrido se aquilo desse para o torto, fizemos o 25 de Abril».

O 25 de Novembro travou a rotina revolucionária em que o país vivia e Luís – que, tal como Marx, acreditara na mudança histórica – arrumou as ideias revolucionárias e retomou a lide no mar e a libertinagem, indiferente aos definidores da moral. Andara uma vida sem acreditar que um homem quando nasce já traz organizada a sua felicidade ou infelicidade. Atravessou épocas históricas conturbadas sem uma beliscadura, a vida do mar quase o levou à morte, mas a recente pandemia fê-lo desconfiar desse raciocínio.

 

A desgraça bateu-lhe à porta

Há uns meses, bateu-lhe uma desgraça à porta. Quando chegou, parecia ser coisa insignificante. Era verão, estava em Tavira, no lar para onde fora atirado precocemente devido a uma tuberculose ganha com a friagem do mar, e a pancada do calor sentiu-a logo pela manhã. Luís estava de chinelos. Ergueu a perna, mirou o peito do pé onde, sem mais nem menos, lhe aparecera uma marca tão negra como uma borra de alcatrão. Devia ter sido da picada de um bicho, pensou. «Isso tem má cara», disseram-lhe algumas funcionárias da instituição que lhe conheciam a doença arterial e a diabetes, e sabiam que, no seu caso, uma ferida podia ter consequências mortais.

Foi numa terça-feira, precisamente o dia da semana em que o médico, que lhe conhece o historial, marca presença no lar. «O doutor passou-me uma pomada, mas aquilo foi alastrando pela palma do pé. Tempos depois, deu-me uns antibióticos, mas nada travava aquela negrura. Não me queriam mandar para o hospital, com medo que eu apanhasse o vírus e pegasse aos outros», narra Luís numa voz sumida de quem chegou a um beco sem saída.

Histórias como a de Luís multiplicavam-se. Num país cronicamente desorganizado, o Governo focara-se apenas no ataque à pandemia. Todo o Sistema Nacional de Saúde (SNS), do hospital ao médico de família, passou a dar prioridade quase exclusiva às vítimas do vírus. E os lares, alvos prediletos da covid-19, trancam os doentes residentes, receando a contaminação generalizada. Os doentes crónicos eram esquecidos. O medo tinha subvertido todos os traços de humanidade, perdia-se a vergonha.

 

E as outras doenças?

Alguns especialistas deixavam alertas. José Manuel Boavida, presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, faz parte do coro que responsabiliza a política (ou a falta dela) seguida: «Se o pé diabético não é diagnosticado e tratado a tempo, isso vai levar a um aumento de amputações. Nós já tivemos duas denúncias de casos nessas situações, mas ainda é cedo para fazer leituras globais. Já pedimos e estamos à espera que a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), do Ministério da Saúde, nos envie os dados».

As históricas listas de espera nos hospitais para consultas, diagnósticos de doenças ou cirurgias, por artes de prestidigitador, caíam a pique. Mas as mortes subiam. Vítor Veloso, ex-presidente da Liga Contra o Cancro, que perdeu uma doente por ter estado durante seis meses sem tratamento hospitalar, exige responsabilidades: «O timing para um doente oncológico é determinante: estamos a falar de vida ou de morte. Em 2020 deixou-se de fazer 11 milhões de consultas de doentes crónicos, onde se pode englobar diabéticos, pessoas com deficiência cardíaca e doentes oncológicos. Morreu muito mais gente do que no ano anterior e apenas 25% foram doentes covid. Alguém vai ter de explicar de que é que morreram os outros e porquê».

 

‘Estive 40 dias assim’

O verão chegou cheio de restrições, mas o vírus continuava a espalhar-se como musgo. Na instituição de Luís, sobrevivia-se a todo o custo. Ainda não aparecera um único caso. Entretanto, a infeção no pé do mariscador ia seguindo o seu itinerário, os tecidos apodreciam e ele enfraquecia dia para dia: «Estive 40 dias assim. Até que comecei a delirar com a febre e me levaram para o hospital de Faro». Em setembro, na ficha hospitalar do doente ficava a sentença: «Lesão necrótica em pé direito com mais de um mês de evolução: possível amputação 2.ª-feira».

Durante dias Luís chorou como uma criança: «A médica disse que me ia tentar salvar a perna mas que era difícil. Quando acordei da operação não sentia nada. Joguei a mão à perna e ainda a tinha, foi uma alegria. Acabaram por cortar só o pé. Às vezes deve-se saber agradecer à ciência!».

Em Tavira, um sol precoce de verão acompanha a quadra festiva. Luís, numa cadeirinha de rodas, um gorro velho a cobrir-lhe a cabeça para não ser reconhecido, cigarro preso entre os lábios, foge à vigilância do lar para um encontro com a jornalista, combinado antes do Natal. O vício permite-lhe estas escapadelas ao jardim. Mantêm-se as distâncias cautelares e a conversa corre ao telemóvel.

 

Tudo começou com uma gripe

Não, não pensa processar ninguém. Se o fizesse, seria apenas o joguete do triunfo de uns ou de outros. Ele já não é senhor do seu destino. E, no seu entender, se perdeu esse direito a ele o deve. Um dia meteu-se num barco de um amigo para ver se lhes caía em sorte umas douradas. Estava um dia lindo, e o mar chão. De repente caiu uma chuvada que o ensopou: «Não fiz caso da molha e apanhei uma gripe. Tomei umas aspirinas. Não podia estar sem trabalhar e deixei andar. Fui parar ao hospital quase à morte. Não tinha ninguém que pudesse ficar comigo e uma assistente social arranjou-me lugar no lar. Pesava pouco mais de quarenta quilos quando aqui cheguei. A culpa foi minha, foi uma criancice não me ter tratado a tempo. Tinha apenas sessenta anos e fiquei incapaz».

A partir daí aprendeu a viver sem levantar obstáculos: «Eu sei que desta vez a culpa não foi minha. Se não tivesse andado a pomadas e antibióticos e me tivessem levado logo para o hospital tinha-me safo. Mas de que serve abrir a boca? Daqui já só saio quando for para a cova!». A sensibilidade tem um limite – que, depois de ultrapassado, torna tudo monotonamente indiferente.