O Mundo em Calções

O homem que aprendeu a ser menino

A derrota frente a Carpentier não esmagou apenas as costelas de Gunboat Smith: introduziu-lhe o medo no sangue.

Antoine de Saint-Exupéry gostava de dizer que era da sua infância como se fosse de um país. Sinal que as memórias que lhe brotavam do fundo da alma eram suficientemente agradáveis para se sentir em casa rodeado por elas. Edward Smith não tinha qualquer motivo para se amarrar à infância nem para erguer fronteiras em redor dela. Nascido em Filadélfia, Pensilvânia, em 17 de fevereiro de 1887, foi de tal forma um estorvo para a mãe que a mulher infame simplesmente o deixou ao abandono. Não teve, por isso, uma figura maternal e muito menos qualquer espécie de pai. Poucos dias após ter visto a luz pela primeira vez entrava num orfanato e viria a conhecer uma razoável série de edifícios idênticos à medida que a infância e adolescência vieram ao seu encontro.

Quem deparou com ele aos 16 anos carregando com carris em obras de caminhos de ferro não poderia imaginá-lo a ser ator de Hollywood e a representar o papel de Bert em O_Grande Gatsby, versão de 1926 realizada por Herbert Brenon. No total, Smith participou em 18 películas, algumas de enorme sucesso, como foi o caso de Manhattan (1924), Say It Again (1926) ou The City Gone Wild (1927). Tinha um estilo canastrão mas, felizmente, ainda se vivia o tempo do cinema mudo pelo que não se viu obrigado a usar a sua voz cortada a álcool ordinário.

Outra das extraordinárias faculdades de Edward era a de se adaptar a qualquer tipo de tarefa, suportando as privações duras que sofreu de uma forma insopitável com um estoicismo de deslumbrar o próprio Zenão de Cítio. Cerca de década e meia antes de começar a surgir nos ecrãs de cinema, Smith alistou-se na U.S._Navy e dedicou-se à prática do boxe com tamanha dedicação que num instante se tornou o campeão da esquadra do Pacífico. Foi por essa altura que conheceu o escritor Jack London, um devotado pela construção de personagens que encontrou nele um verdadeiro objeto de estudo. Jack mexia-se bem no mundo do boxe. Escrevia para diversas publicações, cultivava relações de amizade com boxeurs, treinadores e promotores de combates. Num instante convenceu Jack Johnson, o primeiro pugilista negro da história a ser campeão do mundo, e Stanley Ketchel, o Assassino do Michigan, a adotarem Smith como sparring partner. Chegara a hora de aprender com os grandes mestres.

Edward Smith não era nome que se apresentasse num cartaz anunciando um combate feroz sem limite de rounds. Havia que fazer algo em relação a isso e fez-se de um dia para o outro: passou a ser Gunboat Smith. Surpreendentemente, até para os seus melhores amigos que conseguiam ver nele um pugilista com qualidades, entre 1912 e 1915 construiu um estatuto que o levaram a sonhar com a possibilidade de ser campeão do mundo dos pesos pesados. Não fora à toa que ganhara punhos de aço a acartar carris e caixotes de pedregulhos. Bateu gente com nome na praça, tal como Bombardier Billy Wells, o campeão do Império Britânico, e o futuro campeão mundial Jess Willard. Cumpriu mesmo o sonho de defrontar (vencendo um combate e perdendo outro) o homem pelo qual tinha uma admiração infinita, Samuel Edgar Langford, o Terror de Boston, um tipo baixinho e retinto que desferia golpes assassinos e Smith considerava o melhor boxeur de todos os tempos.

Nesses tempos em que o racismo atingia, nos Estados Unidos, uma dimensão verdadeiramente ascorosa, Gunboat atirou-se de cabeça em direção ao título do White Hope Heavyweight Championship, um campeonato do mundo só para branquelas posto em marcha para apepinar particularmente as vitórias monumentais de Jack Johnson. A mancha segregacionista da competição não impediu Edward de a levar o mais a sério possível. E, no dia 1 de janeiro de 1914, bateu o canadiano Arthur Pelkey no Coffroth’s Arena de Daly City, Califórnia. Foi aí que as coisas começaram a correr mal.

Nesse mesmo ano, ganhou 9 mil dólares mas perdeu o cinturão conquistado para o francês Charles Carpentier. Gunboat Smith sentiu essa desfeita como um menino, algo que, vendo bem, nunca fora. Um medo estranho começou a rondar os seus sonhos na véspera de cada combate. A derrota frente a Carpentier, o Homem Orquídea, não se limitara a esmagar-lhe umas costelas e a deixá-lo com os supercílios rachados. Fora um terrível uppercut na sua autoestima. Jack Dempsey tratou de arrasar o que restava de Gunboat Smith aplicando-lhe uma sova humilhante num combate em que o atirou nove vezes ao tapete. De cada vez que se erguia, Edward desejava bem no fundo poder desaparecer da face da Terra e esquecer para sempre os olhos que o fitavam com uma ligeira luz de piedade.

Já todos espancavam Gunboat Smith: Bob Roper, Harry Wills, Bob Martin, Al Roberts, Harry Greb... Vivia para apanhar pancada a torto e a direito. E ainda subia aos ringues na busca de uma vitória que lhe permitisse abandonar a carreira com o braço no ar. Tal como em miúdo, sentiu-se abandonado. A vida teimava em virar-lhe as costas. Aprendia ser criança, sozinho como sempre...

afonso.melo@newsplex.pt