Internacional

Republicanos começam a saltar fora do barco

Trump é cada vez mais renegado pelos seus aliados. Quase metade dos republicanos aprovam a invasão do Capitólio.

Só o tempo dirá se a violência no Capitólio foi o colapso do universo paralelo criado por Donald Trump, onde este ganhou as eleições e foi defraudado, ou o começo de um novo capítulo da política americana. Para já, sabemos que a invasão aprofundou as fraturas no Partido Republicano, entre lealistas de Trump e o grosso dos dirigentes republicanos, que sustentaram a sua Presidência, desculpando escândalos e aproveitando a sua popularidade junto da base do partido.

Essa popularidade – nove em cada dez eleitores republicanos apoiam Trump e 45% aprovam o assalto ao Capitólio, segundo sondagens do YouGov – não se esfumou. Mas já não é tão útil como há umas semanas, quando o líder do Senado, Mitch McConnell, acomodava as alegações de fraude do Presidente, sempre com um olho atento à Geórgia, onde a sua maioria, indispensável para bloquear a agenda legislativa de Joe Biden, estava em risco.

Com a improvável vitória de dois senadores democratas neste estado sulista, no mesmo dia em que hordas de trumpistas avançaram sobre a capital, ficou claro que a administração Trump deixou para trás um Partido Republicano tão devastado quanto o Capitólio, onde senadores e congressistas se reuniram entre estilhaços de vidro e portas partidas.

«Se nomearmos Trump vamos ser destruídos... E vamos merecê-lo», avisara o senador republicano Lindsey Graham em 2016, quando Trump era apenas um potencial candidato presidencial. Algumas profecias acabam por se autocumprir – mal Trump foi eleito, Graham tornou-se um dos seus apoiantes mais entusiásticos, sempre rotulado de «bajulador» e «parasita» por boa parte da imprensa americana.

Esta quinta-feira, Graham decidiu que era altura de saltar do barco. «Não contem comigo», declarou, perante o Congresso. «Tivemos uma viagem dos diabos», mas «o que é demais é demais», considerou, reconhecendo a eleição de Joe Biden.

Juntam-se a Graham cada vez mais antigos aliados de Trump, incluindo membros do seu gabinete. Seria necessária a aprovação destes últimos, bem como a assinatura do vice-presidente, para utilizar a 25.ª emenda, que permite afastar um Presidente incapaz – não deverá haver tempo para outro julgamento de impeachment antes da tomada de posse de Biden, a 20 de janeiro.

Tanto democratas como alguns republicanos têm apelado à remoção de Trump do seu posto – algo que acabaria com a sua imunidade presidencial, expondo-o à mira da justiça, numa altura em que é investigado por fraude bancária e quebra das leis de financiamento eleitoral. Agora, Trump pode enfrentar acusações ainda mais graves: a procuradoria de Washington não exclui a hipótese de o acusar de incitar a um motim, avançou a CNBC.

O Presidente já estará em discussão com o seu staff sobre a possibilidade de se perdoar a si mesmo e aqueles mais próximos de si, avançou o New York Times. Mas esse expediente apenas o protegeria de processos federais, não das várias acusações estaduais que estão a ser preparadas.