Internacional

EUA. Engolidos por uma tempestade de ódio

Após o assalto ao coração da democracia americana, muitos apontam o dedo a Trump, por inspirar fanáticos fiéis do Qanon e os violentos Proud Boys. 

O mundo olhou com horror para o impensável, esta quarta-feira, quando hordas leais a um Presidente derrotado tomaram de assalto o Capitólio, símbolo máximo da democracia liberal americana, sonhando reverter os resultados das presidenciais em plena contagem dos votos do colégio eleitoral. A contagem seria retomada durante a noite, formalizando a vitória do democrata Joe Biden, que terá nas suas mãos um país cada vez mais polarizado, ainda em estado de choque após este ataque.

Senadores, congressistas e funcionários – alguns ouvidos a rezar ou a ligar às suas famílias, em pânico – tiveram de se barricar ou escapar por túneis, usando máscaras de gás, devido ao gás lacrimogéneo lançado nos corredores. Estavam cercados por uma multidão furiosa, armada com bastões, escudos e agentes químicos irritantes, que, para espanto de todos, furara os cordões policiais. Os assaltantes chegaram até às portas do hemiciclo, enquanto agentes no interior tentavam mantê-los à distância, de arma apontada.

Do outro lado da porta estava Ashli Babbitt, de 35 anos, uma veterana que serviu durante 14 anos na Força Aérea, tornada crente fanática na teoria da conspiração Qanon, que vê o Presidente derrotado como uma figura messiânica, destinada a acabar com uma cabala de pedófilos satânicos que governam o mundo.

«Nada nos vai parar. Eles podem tentar, tentar e tentar, mas a tempestade está aqui e vai abater-se sobre DC nas próximas 24 horas… Vamos da escuridão para a luz!», garantiu a veterana da Força Aérea no Twitter, horas antes de ser a primeira a avançar pela porta quebrada do hemiciclo. Acabou baleada no pescoço pelas forças de segurança, morrendo no local, enquanto outros amotinados filmavam.

«Estou apática. Estou devastada», lamentou-se a sogra de Babbitt, sem compreender o que levou a nora a participar na invasão ao Capitólio. «Ninguém em Washington notificou o meu filho, descobrimos pela TV», contou ao New York Post.

Após a apressada retirada do Congresso, manifestantes pavonearam-se nos lugares de congressistas e senadores, invadindo gabinetes – incluindo o da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, onde um homem se deixou fotografar com os pés na secretária, deixando a nota «não vamos recuar». Deixaram para trás dois artefactos explosivos caseiros, encontrados e detonados em segurança pelas autoridades, segundo a CNN. 

Alguns tinham bonés vermelhos onde se lia «Make America Great Again», outros equipamento tático ou coletes à prova de balas, e também se viram bandeiras da Confederação. Um manifestante até usava chapéu de peles e cornos de viking, o tronco nu tatuado com padrões tribais, a cara pintada de azul e vermelho, com uma lança com uma bandeira americana na mão. Muitos tiravam selfies, outros partiam vidros e roubavam artefactos das paredes, num cenário que lembrava a série distópica Black Mirror. «Donald Trump ganhou estas eleições», gritou-se a plenos pulmões da tribuna do Senado, para gáudio da multidão. 

Nos corredores, um polícia do Capitólio ferido, Brian Sicknick, de 42 anos, conseguiu cambalear até ao gabinete da equipa, após ser agredido com um extintor. O agente acabou por colapsar, com um coágulo no cérebro, sendo transportado para o hospital, onde faleceu agarrado a um ventilador, na manhã de quinta-feira. A sua morte, a quinta confirmada na invasão ao Capitólio, está a ser investigada como homicídio.

Numa cruel reviravolta do destino, Sicknick, veterano da 1.ª Guerra do Golfo e da Guerra ao Terror, era ele próprio apoiante de Trump. «O Brian é um herói e é isso que eu gostaria que as pessoas recordassem», disse um irmão do agente falecido, em declarações ao Daily Beast. «Ele sempre tentou fazer a coisa certa», acrescentou outro irmão.

Loucura offline

Quatro horas depois, quando as forças de segurança finalmente recuperaram o controlo do coração político da nação, a América preparava-se para o rescaldo. Muitos apontaram o dedo ao Presidente Trump, que horas antes fizera um comício na Elipse, um parque próximo da Casa Branca, repetindo alegações não fundamentadas de fraude eleitoral.

«Nunca retomaremos o nosso país com fraqueza», declarou o Presidente, criticando os republicanos que começavam a distanciar-se da tentativa falhada de reverter os resultados das eleições, instigando milhares de apoiantes a «marchar para o Capitólio», umas ruas abaixo.

Foi exatamente isso que eles fizeram. Minutos após o comício, às 13h em Washington (18h em Portugal continental), começavam a circular centenas de posts em redes sociais utilizadas pela extrema-direita, como o Parler e o Gab, com indicações de que ruas usar para evitar a polícia ou quais as melhores ferramentas para arrombar portas. Umas hora depois, quando Trump disparou críticas no Twitter sobre o seu vice-presidente, Mike Pence, ao aperceber-se de que este não perturbaria a contagem, surgem apelos a quem estava dentro do Capitólio para apanharem o vice-presidente.

«Estas pessoas agiram porque estavam convencidas de que uma eleição foi roubada», afirmou Renee DiResta, investigadora do Stanford Internet Observatory, especializada em movimentos online, ao New York Times. «Esta é uma demonstração do impacto de câmaras de eco no mundo real», considerou. «É uma impressionante repudiação da ideia de que há um mundo online e um mundo offline, que aquilo que é dito online de alguma maneira se mantém online».

A loucura acumulada nos últimos anos, nos cantos da internet, teve um papel bem visível na invasão. Aliás, o ‘viking’ trumpista mencionado anteriormente (foto na pág. 56) foi identificado como Jake Angeli, que trabalha como ator de voz, mas nos tempos livres dá pelo nome de Xamã Q, um dos principais rostos do Qanon, segundo o Arizona Republic.

Este movimento, que explodiu durante a pandemia, é considerado central na organização dos protestos pela reversão dos resultados eleitorais. Uma apoiante do Qanon, Marjorie Greene, até foi eleita congressista pelos republicanos, em novembro, enquanto o Presidente recusava distanciar-se publicamente do movimento.

«O que ouvi dizer sobre eles é que têm uma posição muito dura contra a pedofilia», chegou a declarar Trump num debate presidencial, meses após salientar que os crentes no Qanon eram patriotas e grandes fãs seus. 

Outro grupo que parece ter tido um papel decisivo na invasão ao Capitólio foram os Proud Boys. Orgulhosos machistas e chauvinistas pró-Ocidente, uma «amálgama entre uma organização de direitos dos homens e um fight club», como descreve a Vox, conhecidos por agredir brutalmente manifestantes antirracistas, os Proud Boys foram catapultados para a fama mundial quando Trump hesitou em condená-los num debate – foi noticiado que o recrutamento do grupo cresceu exponencialmente a partir daí.

Desta vez, ao contrário do que se viu em muitas manifestações violentas de extrema-direita nos últimos anos, não foram vistos os polos pretos e dourados da marca Fred Perry que servem de uniforme dos Proud Boys.

Nas vésperas da invasão, o líder do grupo, Enrique Tarrio, que acabara de ser libertado após ser detido por destruição de propriedade – ao queimar uma bandeira do Black Lives Matter numa igreja negra – e posse ilegal de carregadores de munição expandidos, prometeu que os Proud Boys estariam presentes «incógnitos», vestidos de preto. «Vão aparecer em números recorde», prometeu Tarrio no Parler, citado pelo Business Insider. «Seis de janeiro vai ser épico!».

O Presidente não contribuiu para contrariar a noção de que, de alguma forma, o ataque ao Capitólio teria a sua aprovação. Só condenou o sucedido mais de hora e meia após o começo da invasão, depois de arranjar tempo para criticar Pence, apelando a que os seus apoiantes se «mantivessem pacíficos». E não resistiu a reiterar as suas alegações de fraude, referindo-se à turba como «pessoas muito especiais», num vídeo divulgado nas redes sociais.

«Voltem para casa. Nós adoramos-vos», prometeu Trump. Acabou com as suas contas de Twitter e Snapchat temporariamente bloqueadas, enquanto o Facebook optou por suspendê-lo indefinidamente, pelo menos até ao final da transição presidencial.

Trumpismo sem Trump

Parte do establishment republicano pode mostrar vergonha de ter alimentado um monstro violento nas entranhas da América (ver caixa na página 55), mas as franjas mais radicais do partido não.

«Estão orgulhosos do que se passou aqui hoje?», perguntou um repórter da CNN, espantado, frente ao Capitólio. «Absolutamente», garantiu uma apoiante de Trump, uma resposta que se repetiu uma e outra vez perante as câmaras. «Deveríamos ter continuado a avançar lá dentro e arrancado os nossos senadores cá para fora pelos cabelos».

Os meios de comunicação conservadores têm tido dificuldade em digerir o caso. Na Fox News, em tempos o canal favorito de Trump até que decidiu reconhecer a vitória de Biden, a reação foi de repúdio pela violência, misturado com desculpabilização.

«Nos meus 60 anos a cobrir política nacional, nunca vi nada como isto. Francamente, espero nunca ver outra vez», lamentou Chris Wallace, pivô da secção noticiosa da estação. Momentos depois, à hora da opinião, Tucker Carlson, apresentador do segundo programa mais visto no país, com uns 4,3 milhões de espetadores por noite, sugeriu que esquerdistas infiltrados estavam por trás da invasão – a acusação é comprovadamente falsa, os rostos dos instigadores são bem visíveis, dado o seu desapreço pelo uso de máscaras – e desculpabilizou o sucedido. 

«Milhões de americanos acreditam sinceramente que esta eleição foi uma fraude», lembrou Tucker, um dos grandes responsáveis pela propagação das alegações de fraude de Trump. «Chegámos a este triste, caótico dia por uma razão. A culpa não é vossa. A culpa é deles».

Mesmo que a derrota de Trump nas presidenciais – somada à rejeição por parte do seu partido e às acusações judiciais que tem pendentes – o deixe à margem do panorama político, as sementes da violência e da desconfiança no sistema eleitoral americano estão plantadas. E há receios de que não seja possível fechar a caixa de Pandora. 

«O discernimento convencional defende geralmente que não há trumpismo sem Trump, que, sem a sua fama, a coligação que se uniu à sua volta não sobreviveria muito tempo», escreveu a New York Magazine. «A turba que invadiu o Capitólio levava bandeiras de Trump, é verdade. Mas também levava bandeiras da Confederação. É esse o aspeto do trumpismo sem Trump, supremacia branca à moda antiga, equipado com novos agravos». 

«Apesar de a América ter sido sempre muito mais complexa que a versão feia de si mesma, a terra de Martin Luther King como de Trump, não há nada de original na violência que esta Presidência inspira», considerou a revista. «A América continuará a ser a América e Biden terá de descobrir como lidar com isso».