Internacional

Coronavírus nos corredores do poder

Com calendários cheios, viagens frequentes e reuniões inadiáveis, os líderes mundiais acabam por estar expostos à covid-19. Não ajuda quando recusam cumprir medidas de segurança.

As estatísticas mostram que a covid-19 afeta sobretudo os mais pobres e alvo de descriminação, que têm menos acesso a cuidados de saúde e não podem trabalhar à distância. Mas o vírus também tem mostrado apetência pelos corredores do poder, infetando cada vez mais chefes de Estado e de Executivo – o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, é apenas o caso mais recente (ver fotos acima).

Não é de estranhar que políticos de todo o globo acabem por também estar na mira da doença. Vários enfrentaram eleições nos últimos tempos, e com elas a tensão entre manter distanciamento social e participar em sucessivos eventos, sob risco de perder terreno para rivais.

Talvez o caso mais paradigmático seja o do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que insistiu manter comícios massivos, com milhares de pessoas exultantes, juntas aos gritos , por vezes em arenas mal ventiladas, e poucas máscaras. A campanha fê-lo atravessar todo o país, de swing state em swing state, enquanto aproveitava para acusar o seu adversário, Joe Biden, de ser fraco líder por se “esconder numa cave”.

Tudo descambou quando o Presidente decidiu dar uma receção com umas 150 pessoas no roseiral da Casa Branca, no final de setembro, para anunciar a nomeação da juíza Amy Conney Barrett para o Supremo Tribunal. Terá sido o primeiro elo da cadeia de infeções que tornou o coração do poder americano num hotspot de contágios, com meia centena de casos confirmados – mas Trump só se aperceberia quase uma semana depois, quando já participara em vários eventos, incluindo comícios e um debate com Biden.

No resto do país, o custo da campanha de Trump foi ainda mais elevado. Mais de 30 mil pessoas foram infetadas em comícios do Presidente, causando pelo menos 700 mortes, estimaram investigadores da Universidade de Stanford – isto antes de Trump ser infetado, tendo o Presidente rapidamente regressado à campanha, enquanto cientistas ainda debatiam se poderia estar contagioso.

 

Risco

Não são apenas as campanhas eleitorais que podem colocar líderes políticos risco. Os próprios deveres dos seus cargos, que frequentemente envolvem calendários preenchidos e viagens frequentes, podem tornar muito complicado manter o isolamento social.

Veja-se o caso o Presidente de França, Emmanuel Macron, que deu positivo à covid-19 durante uma cimeira europeia, em dezembro – logo após estar reunido em Conselho Europeu com mais de 50 chefes de Executivo, durante mais de 24 horas.

Foi o pânico entre políticos de todo o continente, obrigando muitos a isolarem-se. Incluindo figuras como o primeiro-ministro português, António Costa, até à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

É difícil imaginar como poderiam ter sido evitadas essas reuniões presenciais. Tratava-se de uma altura delicada, em que se negociava a futura relação entre a UE e o Reino Unido, debatendo-se questões tão dispares e intricadas como as pescas ou tarifas aduaneiras – aliás, antes da infeção de Macron, vários diplomatas até pediam mais reuniões presenciais, para tentar selar um acordo.

Contudo, Macron não escapou a acusações de hipocrisia quando a imprensa francesa começou a escrutinar a fundo o seu calendário nos dias anteriores. Afinal, enquanto o seu Executivo proibia encontros com mais seis pessoas, o Presidente regularmente quebrou essa regra, reunindo com um número superior de dirigentes políticos.

 

Karma ou tragédia anunciada

Algumas das infeções que mais fizeram manchetes foram as de líderes acusados de menosprezar a pandemia. Muitas vezes, estes casos foram expostos na imprensa como uma espécie de karma, ou como tragédia anunciada, no caso de líderes que abertamente violavam as regras de contenção da pandemia.

Foi esse o caso de Trump, mas sobretudo do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Antes de ser infetado, em julho, Bolsonaro chocou tudo e todos, desfrutando de banhos de multidão, rodeado de apoiantes ansiosos por tirar uma selfie consigo – ao mesmo tempo que tentava forçar os governadores do seu país a acabar com restrições e medidas de isolamento social.

No entanto, nem o seu diagnóstico demoveu o Presidente em continuar a violar as regras. Mesmo quando ainda estava positivo, Bolsonaro passeou-se por Brasília de moto, sendo fotografado a conversar com funcionários, sem máscara à vista.

Já no caso do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, um dos primeiros líderes mundiais infetados, logo em março, a doença pareceu ter um efeito politicamente transformador.

Poucas semanas antes, o Governo britânico chegava a falar de “imunidade de grupo” – o conceito de deixar a população ser infetada para imunidade, apesar de não se fazer ideia de qual a duração desse imunidade – e recusava impor restrições. Após a infeção de Johnson, que foi hospitalizado em situação grave, sendo salvo por uma equipa que incluía um enfermeiro português, finalmente o Reino Unido começou a tomar medidas mais duras contra a pandemia.

 

“Psicose” e vodca

No que toca ao negacionismo da covid-19, Bolsonaro não chega aos calcanhares do autoritário Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, autoproclamado como “escolhido por Deus”, um dos poucos líderes africanos que não fechou o seu país nem tomou medidas duras contra a pandemia. Durante as eleições, em maio, o país até foi palco de gigantescos, comícios políticos, sem quaisquer cuidados com a covid-19.

De tal forma o Governo do Burundi negou a pandemia que quando o próprio Presidente faleceu, no mês seguinte, aos 55 anos, no comunicado lia-se que Nkurunziza “morreu inesperadamente na sequência de uma paragem cardíaca” – na imprensa internacional, a notícia foi de que, na realidade, o Presidente morrera de covid-19, tendo sido infetada também a sua mulher, Denise Nkurunziza, que foi transportada até Nairobi, no Quénia, para tratamento médico. Na altura, oficialmente, havia apenas 83 casos registados no país, hoje mal ultrapassam os mil.

Já o Presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, que se referiu à covid-19 como uma “psicose”, e sugeriu tratá-la com banhos de sauna e vodca, não só não negou ter sido infetado, como até se gabou disso.

“Hoje estão com um homem que conseguiu sobreviver ao coronavírus sem problemas”, proclamou o ditador bielorrusso, que faz da sua masculinidade parte do seu culto de personalidade, numa reunião com militares. “Os doutores chegaram a essa conclusão ontem. Assintomático”, rematou Lukashenko, citado pela DW.