Viver para contar

O príncipe e o pobre

A história de um príncipe que se tornou plebeu em Espanha e de um pobre que se transformou num reizinho em Inglaterra

João Félix protagonizou uma das maiores transferências de sempre do futebol português e mundial: 126 milhões de euros. É certo que existem as maiores dúvidas sobre este valor. Não vou dizer que a operação foi ilegal. Nem, como Ana Gomes, que se tratou de lavagem de dinheiro. Não. O que julgo é que foi uma complexa operação de engenharia financeira.

Luís Filipe Vieira tinha de vender Félix por mais de 120 milhões, pela simples razão de que era essa a cláusula de rescisão; se Vieira o cedesse por menos, os sócios do clube desancá-lo-iam por ter deixado sair mais uma ‘pérola’ – ainda por cima numa altura em que andava a dizer que queria fazer uma grande equipa europeia.

Os 120 milhões eram, pois, obrigatórios. E a eles foram acrescentados uns ‘pozinhos’ para não se dizer que era o valor certo da cláusula. A questão está em saber se parte desse dinheiro não foi ‘devolvido’ pelo Benfica. A verdade é que Vieira começou a comprar por 20 milhões jogadores de classe duvidosa que não convenceram ninguém, como Raúl de Tomás, Weigl ou Pedrinho. E sabe-se que o empresário Jorge Mendes é mestre nestes negócios de ‘tira daqui, põe dali’.

Nunca saberemos, portanto, por que valor foi efetivamente vendido João Félix. Mas, oficialmente, custou ao Atlético de Madrid 126 milhões de euros – uma fortuna. 

E, tendo custado uma fortuna, o rapaz tinha obrigatoriamente de render – futebolística e… socialmente. Tempo depois, de facto, começariam a aparecer fotografias suas na piscina de uma luxuosa mansão na capital madrilena, em poses sugestivas, na companhia da bonita namorada Margarida Corceiro. Tudo a condizer…

E, no campo, passou a estar constantemente debaixo de olho. Só que isso é um pau de dois bicos – e, como começou a não brilhar a grande altura, limitando-se a alguns pormenores bonitos e a um ou outro golo, a imprensa espanhola começou a fustigá-lo implacavelmente. No primeiro ano em Madrid seria mesmo considerado uma das grandes ‘desilusões da época’.

João Félix foi em grande parte, portanto, vítima do negócio principesco que o envolveu. Se tivesse custado 20 milhões, ninguém se escandalizaria por não render muito na primeira temporada no novo clube.

Esta época começou melhor. Marcou e brilhou. Mas voltou a baixar de rendimento, e, depois de ter sido substituído num jogo importante, fez uma birra, exaltou-se e deu uns pontapés no banco de suplentes. 

É óbvio que Félix está a ser afetado por toda a atenção que o rodeou. Ele tinha 19 anos quando foi para Espanha, era um miúdo, e não estava preparado para a responsabilidade que levou às costas. 

Trajetória diferente teve outro jogador português, este não agenciado por Jorge Mendes, chamado Bruno Fernandes. Era jogador do Sporting e esteve várias vezes para ser vendido, mas o negócio nunca se concretizou por isto ou por aquilo. E, para o Sporting o conseguir vender, parece que teve de pedir ‘uma ajuda’ a Jorge Mendes, mostrando a enorme influência que este tem nos negócios do futebol.

Mas o valor da transferência de Fernandes nem chegou a metade do valor pago por João Félix: 55 milhões de euros. E o mediatismo que rodeou a sua ida para o estrangeiro foi obviamente muito menor. Só que, chegado a Manchester a meio da semana, foi logo posto a jogar dias depois. Começou a marcar golos e a dar golos a marcar. Seria considerado uma das melhores contratações da época passada por clubes ingleses. 

Hoje titular indiscutível e um dos melhores jogadores da equipa e do campeonato inglês. Nos nove meses em que houve campeonato (os jogos estiveram interrompidos por causa do covid), Fernandes foi eleito por seis vezes ‘o melhor jogador do mês’. Não é erro, é mesmo assim: em 66% das nomeações, um mesmo jogador foi eleito o melhor – e foi o português.

E o campeonato inglês, note-se, é considerado o melhor campeonato do mundo, recheado de estrelas.
Bruno Fernandes impôs-se naturalmente aos companheiros e é ele quem hoje marca os livres e os penaltis. Além disso, é humilde: aparece no campo em toda a parte, tão depressa está à esquerda como à direita, tanto surge na área a marcar como aparece atrás a defender ou iniciar jogadas.

A imprensa inglesa não lhe tem regateado elogios, mas ele continua aparentemente a ser o mesmo rapaz humilde. Não tem tiques de vedeta. Não aparece nas revistas do social, nunca se viu em casa nem na piscina, tem uma mulher normalíssima que não se apresenta em poses provocantes.

João Félix e Bruno Fernandes são dois jogadores muito talentosos. Mas um foi cedo demais para o estrangeiro (não chegou a estar uma época inteira a jogar na equipa principal do Benfica) e protagonizou um negócio surpreendentemente acima do que parecia valer. Félix não tinha experiência nem maturidade para ser sujeito a tamanha pressão. Não estava suficientemente preparado para mudar de clube nem tinha arcaboiço para arcar com a responsabilidade de ter custado 126 milhões de euros. 

Bruno Fernandes, pelo contrário, foi vendido por um preço razoável, que não suscitava uma expectativa exagerada. Era mais maduro futebolística e pessoalmente (já contava 25 anos). Tinha uma família constituída, o que lhe dava estabilidade e segurança. E tem uma forma de jogar mais humilde, corre muito, esforça-se muito, entrega-se ao jogo com paixão, galvaniza a equipa. Tudo o que Félix não faz – ou ainda não faz.

São duas histórias que ainda vão a meio. Um príncipe que se tornou plebeu em Espanha e um pobre que se tornou um reizinho em Inglaterra. Mas um e outro ainda têm muito tempo e muitos jogos à frente para mudarem o destino ou confirmarem o sucesso. Félix pode vir a justificar o que pagaram por ele; e Fernandes pode legitimamente ambicionar a tornar-se uma lenda do histórico Manchester United.