Opiniao

Exaustos

Somos um País pobre, dos mais pobres da Europa, e, no final de mais esta provação, ainda mais pobre vamos ficar!

Em Julho passado Costa garantia que em circunstância alguma haveria um novo confinamento geral, porque, segundo as suas palavras, nem o País nem as famílias aguentariam.

Se dúvidas ainda persistissem na mente de alguns, ficaram, certamente, desfeitas; para um político, destes que nos caíram em sorte, o que é verdade hoje não significa que o seja amanhã!

Portugal prepara-se para confinar de novo, com as desastrosas consequências para o nosso tecido económico a que essa medida nos vai conduzir.

Somos um País pobre, dos mais pobres da Europa, e, no final de mais esta provação, ainda mais pobre vamos ficar!

A justificação para este volte-face é a de que os hospitais públicos estão no limite da sua capacidade e os médicos encontram-se exaustos.

Se, na verdade, os hospitais públicos estão a atingir a máxima capacidade de acolher doentes, tal deve-se à incúria, desleixo e incompetência dos políticos que nas últimas décadas se têm passeado pelas diversas cadeiras do poder.

Dos hospitais herdados da tal “longa noite fascista”, mais de metade já foram encerrados, abandonando-se as populações do interior à sua sorte.

Fecharam-se Centros de Saúde um pouco por todo o lado, somente com o objectivo de se pouparem uns trocos, sem se criarem alternativas eficazes para todos quantos se viram privados de cuidados de saúde perto das zonas onde residem.

E o Serviço Nacional de Saúde, tão idolatrado pela esquerda bacoca, tem sido incapaz de garantir a permanência de parte considerável dos médicos e enfermeiros no sistema de saúde pública, permitindo a fuga para os privados de muitos dos seus quadros, por aí desfrutarem de melhores condições financeiras e de trabalho.

Como consequência da inacção do SNS deparamo-nos com uma crónica falta de meios humanos e materiais nos hospitais públicos, dos quais resultam as intermináveis listas de espera a que os doentes estão condenados, tanto para simples consultas como, sobretudo, de cirurgias das quais dependem para se manterem vivos.

Por estas razões o SNS tem-se visto impotente para lidar, com eficácia, com um vírus que provoca mazelas significativas somente numa percentagem extremamente baixa dos infectados, mas que, logo numa primeira vaga, terá levado quase à ruptura os serviços de urgência e de cuidados intensivos dos hospitais públicos, a fazer fé na versão que nos tem sido vendida.

Agora, perante uma segunda vaga, é a loucura total!  

Há muito que as autoridades de saúde sabiam que com o Inverno o vírus que por aí anda se iria espalhar com muita mais facilidade e rapidez e disso, com insistência, deram conhecimento ao poder político.

E o que fez este, atempadamente, para responder a essa ameaça? Rigorosamente nada!

Depois de casa roubada, trancas à porta!

Mandam-se os portugueses novamente para casa, desta vez de castigo, sob a acusação de se terem desleixado.

Argumenta-se de que os médicos estão exaustos. Sem dúvida, acredita-se que sim, mas nunca ninguém morreu de exaustão por trabalhar.

Mas morre-se por outro tipo de exaustão!

Exaustos estão também os milhares de portugueses que viram os seus pequenos negócios arruinados, nos quais apostaram todas as suas poupanças, vendo-se, agora, incapazes de assumir os custos que diariamente se vão acumulando.

Uma exaustão que os tem levado ao desespero, encontrando no suicídio a única resposta para os seus problemas.

Exaustos estão os proprietários dos restaurantes, a maioria já completamente arruinados, que se deparam com a realidade de não poderem sustentar as suas famílias bem como as dos seus empregados, vendo-se forçados a despedi-los ou a deixá-los privados do seu ordenado.

Exaustos estão os que teimam em não encerrar definitivamente os seus estabelecimentos comerciais, mas há muito que deixaram de poder suportar as despesas, que nunca diminuem mesmo com os seus espaços encerrados, estando impossibilitados de escoar os seus produtos e servir os seus clientes.

Exaustos estão os donos de bares e discotecas, que há quase um ano têm sido privados de exercer a sua actividade, estando, uma grande maioria, na contingência de não possuírem condições para reabrir os seus negócios, quando tal lhes for permitido.

Exaustos estão os artistas que, ao contrário dos que tiveram a felicidade de expandir a sua veia artística em países mais desenvolvidos, vivem permanentemente na corda-bamba, e que de momento se vêem impotentes para garantir o seu sustento e o de todos quantos estão dependentes do seu trabalho.

Exaustos estão os mais velhos, encarcerados em lares, em que a maioria oferece condições humanas muito duvidosas, proibidos de contactar com os seus entes queridos e a verem chegar ao fim o seu ciclo de vida terrena completamente sozinhos, sem sequer conseguirem despedir-se daqueles que amam.

Exaustos estão os reformados, que trabalharam uma vida inteira para no final receberem migalhas tipo esmola, e que morrem de frio dentro das suas casas, porque o valor diminuto da sua pensão e o preço exorbitante da electricidade não lhes permite aquecê-las, estando, por via do confinamento que lhes é imposto, de procurar um conforto temporário em locais mais quentes.

Exaustos estão as centenas de milhares de portugueses que foram empurrados para o desemprego, ou estão em vias disso, porque a política dos sucessivos confinamentos, totais ou parciais, que em nada diminuíram a propagação pandémica, destruíram os seus locais de trabalho.

Exaustos estão os portadores de patologias, grande parte delas letais se não tratadas em tempo, porque não têm rendimentos suficientes que lhes consintam tratar-se no sector privado e por isso desesperam por os hospitais públicos lhes recusarem a devida assistência, recorrendo ao infame argumento de que estão saturados com os doentes Covid.

Estão exaustos porque vêem a morte aproximar-se por culpa do tal extraordinário SNS do qual todos nós, portugueses, nos devemos orgulhar, por, segundo os seus promotores, ser do melhor que existe no planeta.

Se fosse verdade, imagine-se como seriam os outros!

Estão igualmente exaustos com parte considerável da comunidade médica que não honra o Juramento de Hipócrates que prestou à saída da faculdade, porque, apesar de não estar na linha da frente no tratamento de doentes Covid, se recusa a deslocar-se ao domicílio de um enfermo impossibilitado de sair de casa, com a desculpa de se correr o risco de contrair o maldito vírus.

Exaustos também com uma ministra da saúde que tem a pouca-vergonha de ordenar aos hospitais públicos que cessem de imediato as consultas não prioritárias, incluindo, pasme-se, a de doentes oncológicos!

Exaustos estamos todos com os decisores políticos da saúde pública no País, porque, fruto da sua irresponsabilidade, imaturidade e cegueira ideológica, provocaram uma mortalidade diária bastante acima da média registada desde os anos oitenta do século passado, e em que as mortes de doentes com Covid, e não necessariamente de Covid, representam apenas uma diminuta percentagem.

Exaustos estamos todos com uma panóplia de ditos especialistas, sempre os mesmos e sem se submeterem ao confronto do contraditório, que se passeiam diariamente, e a toda a hora, nos vários canais televisivos, quais profetas da desgraça a espalharem o pânico e o medo descontrolado junto das populações.

Exaustos estamos todos com uma imprensa sensacionalista que, sem interrupções, desde há quase um ano nos massacra horas a fio com o fantasma da pandemia, não abordando assuntos de outra natureza, como se o mundo girasse somente à volta desse tema.

Exaustos estamos todos com um primeiro-ministro incapaz de assumir as responsabilidades, suas e do seu governo, pela situação que se vive nos hospitais públicos, sacudindo água do capote ao culpar todo um povo pelos erros que lhe são imputados.

Exaustos estão os portugueses. Exaustos, sim, dos políticos que nos últimos quarenta anos lhes desgraçam a vida!     

Pedro Ochôa