Política a Sério

Eleições sob o 'signo Ventura'

A grande vedeta dos debates televisivos foi, pois – sem surpresa mas para desgosto de muitos comentadores –, André Ventura. E as audiências não deixaram quaisquer dúvidas a esse respeito: os seus debates foram os mais vistos, com alguns a baterem recordes, como o confronto com Marcelo Rebelo de Sousa, que conseguiu uma audiência como já não havia memória. Isto quererá dizer alguma coisa.

Não me recordo de umas eleições presidenciais com tantos debates. E com tanta gente a falar dos debates. Creio que este foi um dos ‘efeitos Ventura’. Noutras eleições, os debates não tinham qualquer interesse porque não se esperava nenhum momento surpreendente, não se esperava nada fora do politicamente correto, os candidatos eram monotonamente ‘bem comportados’. Ora, desta vez, as coisas foram diferentes.

Havia um candidato que rompia com as convenções e tinha a coragem de abordar alguns temas de que até há pouco todos fugiam.

A grande vedeta dos debates televisivos foi, pois – sem surpresa mas para desgosto de muitos comentadores –, André Ventura. E as audiências não deixaram quaisquer dúvidas a esse respeito: os seus debates foram os mais vistos, com alguns a baterem recordes, como o confronto com Marcelo Rebelo de Sousa, que conseguiu uma audiência como já não havia memória. Isto quererá dizer alguma coisa.

Pode concordar-se ou discordar-se do que Ventura diz – não se pode é negar que foi uma pedrada no charco de uma política estagnada.

Houve comentadores (e até meios de comunicação) que o consideraram ‘o pior’ de todos os candidatos nos debates. Outros consideraram que ‘venceu’ os candidatos de esquerda mas ‘perdeu’ com os de direita. Eu penso que ganhou todos os debates – e estou muito habituado a analisar debates.

No debate com João Ferreira, Ventura ganhou porque, quando as coisas aquecem, ele tem sempre vantagem.

Nos debates com Marisa Matias e Ana Gomes, Ventura ganhou folgadamente porque Ana Gomes cometeu a ingenuidade de não ter visto o debate do dia anterior entre Ventura e Marisa. Assim, fez-lhe a papel químico os mesmos ataques que Marisa lhe tinha feito, e dirigiu-lhe os mesmos insultos («troca-tintas», «vigarista», «mentiroso», «fascista», etc.). Ora, como Ventura já tinha ultrapassado Marisa Matias com facilidade, o resultado voltou a repetir-se.

Vamos agora aos candidatos de direita, Tiago Mayan Gonçalves e Marcelo Rebelo de Sousa.

É certo que Mayan, depois de levar uns socos que quase o levaram ao tapete, recompôs-se e acertou dois ou três ‘diretos’ no adversário. Mas isso esteve longe de lhe dar a vitória. As pessoas gostaram de ver um peso-pluma a atingir um peso-pesado, mas não passou disso.

Deixo para o fim o debate com Marcelo Rebelo de Sousa, o melhor de todos, em que houve uma quase unanimidade dos comentadores quanto à vitória do atual Presidente.

Mas Ventura voltou a ganhar. A prova disso é que, quase no fim, Marcelo saiu do sério em que sempre se tinha mantido com os outros candidatos e começou a dizer o que nunca dissera em quatro anos: que é «de direita» (embora de uma «direita diferente» da de André Ventura), que fez «um dos mais violentos discursos contra o Governo» e «forçou a demissão» de Constança Urbano de Sousa, chegando ao extremo de dizer que Ventura era muito diferente ali no estúdio do que quando ia a Belém. Ou seja: Ventura enervou Marcelo e levou-o a revelar-se como nunca se tinha revelado. Foi o candidato que fez Marcelo perder o pé. E isso diz tudo.

André Ventura foi o único verdadeiro ‘animal político’ que esteve presente nesta campanha.

João Ferreira é um ‘funcionário’ – um militante disciplinado que se sacrificou pelo partido a fazer um papel difícil e a sofrer uma eventual humilhação nas urnas.

Marisa Matias é uma ‘rebelde domesticada’, uma pasionaria que a presença em Bruxelas e a frequência dos salões europeus aburguesou.

Ana Gomes reviveu nestas eleições o tempo do MRPP. A radical que nela existe ressuscitou. Sobretudo no debate com Ventura veio à tona o seu esquerdismo, descontrolou-se, chamou nomes ao adversário e só não lhe bateu porque a diferença de estaturas era excessiva. Apresentou-se na campanha como uma ‘radical ressuscitada’.

Mayan Gonçalves, que foi para alguns a ‘grande revelação’ destas eleições (para tirarem esse ‘prémio’ a Ventura), mostrou-se sempre sereno, disse algumas boas frases, é ‘fino’ nos argumentos, mas revelou falta de espírito combativo e de chama para ser um líder. Comportou-se como uma espécie de ‘padre laico’.

Marcelo Rebelo de Sousa teve em André Ventura o seu grande adversário e enervou-se, mas regra geral esteve bem. Ao contrário de Ventura, nestes debates não foi bem um político. Não adotou um estilo afirmativo mas pedagógico. Atuou mais como comentador e sobretudo como professor. Podemos assim classificá-lo como o candidato ‘pedagogo-comentador’, explicando as funções do PR ou distinguindo as suas convicções das de Ana Gomes ou de André Ventura.

Tino de Rans mostrou-se um ‘ingénuo bem disposto’.

Tivemos em confronto, portanto, um ‘animal político’, uma ‘rebelde aburguesada’, uma ‘radical ressuscitada’, um ‘padre laico’, um ‘professor-comentador’ e um ‘ingénuo bem disposto’.

No dia 24 veremos como o eleitorado os ordena.

Arrisco dizer: Marcelo, Ventura, Ana Gomes, Marisa, João Ferreira, Mayan e Tino de Rans.

Marcelo vai ganhar por todas as razões e mais uma: porque é o Presidente da República. Além disso, fez um mandato tranquilo, generoso, sem atritos, que agradou à maioria.

Ventura vai ter uma boa votação porque é uma novidade: desde o 25 de Abril nenhum candidato tivera a coragem de se afirmar ‘de direita’ e abordar ‘temas tabu’ como as minorias étnicas e a imigração. Fala com facilidade, é assertivo, agressivo e dogmático. Disse-se que lhe falta ‘substância política’. Talvez. Mas a sua opção foi repetir à exaustão meia dúzia de sound bites e confrontar os adversários com situações comprometedoras. Além dos seus eleitores ‘naturais’, beneficiará ainda do voto de muitos habituais votantes do PSD zangados com Marcelo pela sua cumplicidade com o Governo.

Ana Gomes também vai ter uma boa votação, apesar de ter feito uma campanha fraca. Por um lado, é o voto útil da esquerda; sendo a candidata de esquerda mais bem colocada, muita gente desta área dar-lhe-á o voto, até para ficar à frente de Ventura. Por outro lado, muitos socialistas não quererão votar em Marcelo, por ser ‘de direita’ e por ter a reeleição garantida, e votarão em Ana Gomes.

Marisa Matias deve ficar claramente abaixo da votação do BE, dadas as fugas para Ana Gomes. Perdeu a frescura que tinha há 5 anos, é um remake, e isso será outro handicap. Fez uma campanha sem brilho.

João Ferreira está para o PCP como Marisa está para o BE: é um candidato muito partidarizado. Deve cingir-se aos votos dos indefetíveis votantes do Partido Comunista, mais uns pozinhos dos que, à esquerda, se recusam votar em Marcelo e não gostam de Ana Gomes e Marisa Matias.

Mayan Gonçalves é o benjamim destas eleições, disse umas coisas engraçadas, mas é apagado e a sua mensagem não é fácil de passar.

Tino de Rans é o que é. Não deve atingir 1%.

Já só faltam oito dias para umas eleições que deveriam ter sido adiadas, pois em tempo de confinamento não faz sentido ir votar. Houve quem sugerisse o voto eletrónico ou por correspondência, mas não brinquemos com coisas sérias.

O que se passou nos EUA, em que os votos por correspondência subverteram o apuramento dos depositados nas urnas, lançando suspeitas sobre a verdade do resultado, mostrou o que não se pode fazer.

Votar de outro modo que não seja presencialmente cobre as eleições de enormes dúvidas.

E numa democracia não pode haver dúvidas sobre os resultados eleitorais.