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Confinamento é privilégio de ricos

No natal, o Governo sabia que o risco da pandemia explodir era grande, mas arriscou, deixou as pessoas gastar dinheiro e segurou o consumo, o comércio e o emprego.

Estamos a viver o nosso segundo confinamento em nada igual ao primeiro: em março e abril as ruas estavam desertas e o cenário era de filme de apocalipse. Portugal confinou assustado e obediente, mas confinou cumprindo as ordens do Governo.

A vida para as classes médias urbanas de Lisboa e Porto, em março e abril, num primeiro momento, não piorou, em casa e a receber o salário, mas sem as deslocações diárias casa/trabalho até trouxe maior qualidade de vida para algumas famílias. Todavia, os setores económicos mais afetados que empregam centenas de milhares de trabalhadores, o turismo, hotelaria e restauração, e depois agentes culturais, cabeleireiros, ginásios, se, numa primeira fase, conseguiram aguentar com recurso ao layoff e moratórias, rapidamente avançaram para os despedimentos coletivos ou para o mero fim da prestação do trabalho – que é o caso dos setores mais vulneráveis e precários

Quando se encerra a economia, é pressuposto essencial que o Estado se substitua e pague quantias que permitam a subsistência. Em março e abril estávamos confinados mas víamos que o Brasil, por exemplo, não estava e o Presidente Bolsonaro e o responsável pela pasta do trabalho explicavam que tinham 300 milhões de trabalhadores informais (sem contrato) que sem trabalhar morreriam à fome. Tudo isto para dizer que confinamento é privilégio de ricos.

Quando um país é rico, pode encerrar e pagar a toda a gente para ficar em casa. Se o país não for rico e encerrar a economia, sem poder pagar para isso, estar a condenar à fome e à miséria milhares de pessoas.

No natal, o primeiro-ministro e os governantes, deliberadamente, baixaram a guarda e deixaram o povo sair à rua para gastar dinheiro no natal. Em Lisboa e no Porto, os centros comerciais e todas as grandes superfícies estavam cheios a abarrotar. Foi a forma encontrada de incentivar o comércio e o emprego.

O Governo sabia que o risco da pandemia explodir era grande, mas arriscou, deixou as pessoas gastar dinheiro e segurou o consumo, o comércio e o emprego. Justamente porque o Estado não tem dinheiro e tem de deixar que seja a economia a funcionar.

Com mais de 10.000 infetados e 150 óbitos diários, avançamos para novo confinamento, o qual com escolas a funcionar, significa na prática, com pais, alunos, professores e tudo conexo, que serão dois milhões de pessoas a circular diariamente, ou seja, um quinto da população. Esta foi obviamente a forma encontrada de não encerrar a economia, é a forma de a manter a respirar.

É preciso sublinhar que apesar deste Governo viver de e para a propaganda, o dinheiro que o Estado deveria canalizar para as empresas e as pessoas, não está a ser pago. A Segurança Social não tem meios para cumprir, apregoa, mas não paga. É a banca que está a aguentar o país, deixemo-nos de eufemismos.

Vamos ser realistas, com um quinto da população em movimento diário, os números da pandemia não vão baixar drasticamente, mas a cada dia que passa as pessoas estarão mais pobres, cansadas e descrentes.