Economia

Galp. Refinaria em Matosinhos “é um ativo estratégico nacional”

Trabalhadores dizem que decisão de encerramento vai pôr em causa muitas indústrias do setor químico e farmacêutico que passam a ser “condenadas a importar a preços mais elevados e ficaram dependentes da disponibilidade”.

A refinaria de Matosinhos é considerada “um ativo estratégico nacional”. A garantia é dada numa carta das organizações representativas dos trabalhadores da Petrogal a que o i teve acesso. De acordo com os mesmos, a unidade que labora desde 1969 produz em Portugal um leque de matérias-primas que são essenciais para muitas indústrias do setor químico e farmacêutico. “Se a refinaria fosse desmantelada, estas indústrias seriam condenadas a importar, a preços mais elevados, e ficariam dependentes da disponibilidade”, acrescentando que isso terá irá trazer “consequências negativas para a balança comercial do país”. 

Em Portugal poderão deixar de ser produzidos alguns dos medicamentos, sem as matérias-primas portuguesas (benzeno, parafinas); no mundo muitos medicamentos deixarão de ser fabricados com produtos portugueses de elevada pureza (benzeno, xilenos, tolueno);  quem comprar uma garrafa de óleo alimentar deverá saber que os solventes utilizados na refinação desse óleo já não serão portugueses, mas vieram, provavelmente de Espanha; quem comprar um iogurte deverá saber que a cola hot-melt utilizada na tampa já não estará a ser produzida com ceras minerais fabricadas em Portugal”, entre muitos outros casos.

Nessa carta que vai ser distribuída à população, instituições, personalidades e a órgãos do poder político são invocados os superiores interesses locais e nacionais, bem como os lucros que o grupo Galp Energia arrecada desde a sua criação.

E como tal, pede para que a decisão da administração da Petrogal de encerrar a refinaria em Matosinhos seja revertida – mantendo a sua produção específica essencial, com os seus atuais postos de trabalho – e investimento no complexo industrial, de forma a proporcionar uma transição para novas tecnologias de produção, tendo em vista a redução da pegada de carbono de forma sustentada e a médio prazo, com adequados programas de formação dos seus trabalhadores, permitindo assim a continuidade das instalações em funcionamento, à medida que se for avançando na produção de matérias-primas realmente renováveis.

Economista crítica medida

A decisão da Galp de encerrar a refinaria de Matosinhos também já foi criticada por Eugénio Rosa ao considerar que “pretende reduzir custos para continuar a distribuir elevados dividendos aos acionistas, embora para isso tenha de destruir muito emprego e capacidade produtiva do país”. A decisão, segundo a Fiequimetal, “põe em causa cerca de 500 postos de trabalho diretos e mais de mil referentes a trabalhadores das empresas de prestação de serviços (outsourcing), de muitas micro, médias e pequenas empresas que produzem bens e serviços para a Petrogal (algumas em regime de exclusividade)”.

O economista lembra que esta medida permitirá, segundo a petrolífera “uma redução de mais de 90 milhões de euros por ano em custos fixos e descontinuar 200 milhões de ativos”, referindo que “as empresas do setor da energia e, em especial, a Galp, assim como os respetivos acionistas, têm gozado de um verdadeiro regime de exceção e de apoio do Estado em Portugal. Aumentam os preços quando querem e como querem, obtendo elevados lucros, e nem o Governo nem os reguladores fazem alguma coisa para defender os consumidores, que são, na sua esmagadora maioria, trabalhadores. E como se tudo isto já não fosse suficiente, o Estado concede-lhes benefícios fiscais que se traduzem
em centenas de milhões de euros em receitas fiscais perdidas que, depois, são compensados com enormes aumentos de impostos (IRS, IVA) pagos pelos trabalhadores, pensionistas e outros portugueses”, diz um estudo a que o i teve acesso.