Sociedade

Quando está mais frio em casa do que na rua

Portugal treme de frio e muitos portugueses não têm dinheiro para manterem as casas quentes. Isolamento térmico deficiente é apontado como principal problema.

As ondas de frio persistentes estão a enregelar os lares portugueses. Um estudo aponta para a existência de “hipotermia generalizada”.

“Eu não tenho quaisquer aquecimentos. Como o gás é mais barato do que a eletricidade e a minha casa é pequena, abro o forno e fica aquele calor de cortar o gelo. Acho que nos habituamos a suportar o frio”, explicou Joana (nome fictício), residente em Lisboa e distribuidora numa empresa de estética. Para Mariana (nome fictício), a seu lado, da mesma cidade, a solução passa por “vestir mais roupa e recorrer aos edredões”, rematando que “quem dera aos sem-abrigo ter tantos cobertores como nós”. Mariana não tem lareiras, caloríficos, ar condicionado “ou seja o que for que provoque ainda mais gravidade climatérica”.

Estes são dois casos que espelham as conclusões do estudo levado a cabo, entre 1 e 15 de janeiro do ano corrente, pela Fixando. De acordo com a plataforma de contratação de serviços, 44% dos 6300 inquiridos afirmaram que a sua casa é desconfortável a nível térmico.

 

Isolamento térmico deficiente

“A minha casa é muito fria e húmida, ando com dois pijamas e uma manta e ainda tenho o aquecedor ligado”, começou por elucidar Mariana Pereira, tradutora residente em Estarreja, de 27 anos, acrescentando que tem duas claraboias “através das quais entra muita corrente de ar, para além de a madeira ficar húmida e começar a pingar”. Tendo possibilidades financeiras para suportar uma conta de eletricidade “alta”, não esquece que “muitas famílias não o podem fazer” e vai ao encontro da opinião dos 54% inquiridos que consideram o isolamento térmico da sua casa deficiente.

“A maioria das pessoas tem este problema. O frio é imenso e temos dificuldades em aquecer a casa por causa dos preços praticados pela EDP e outros”, começou por confessar Raquel (nome fictício), acrescentando que recebeu uma carta da EDP_“com a informação de que vai haver aumento nos valores da eletricidade”, o que a leva a questionar-se acerca de “quem vai conseguir viver com o mínimo conforto face aos preços praticados, ainda por cima estando muitas pessoas em teletrabalho”.

À semelhança de Raquel, 68% dos inquiridos afirmaram estar muito preocupados com o potencial aumento da conta de luz e gás resultante de um novo confinamento e, consequentemente, de mais tempo em casa.

E há quem não saiba como terá dinheiro suficiente para saldar a conta do mês de fevereiro, como Sara (nome fictício), de Mem Martins, vila do concelho de Sintra. “A minha casa é muito fria e tenho quase sempre o aquecedor ligado na sala. Mesmo usando pijamas e robes polares e roupas de cama térmicas, sentimo-nos mal”, contou, não esquecendo de adiantar que “por vezes está mais frio em casa do que na rua”.

“Até me assusto com a conta da luz de fevereiro”, desabafou, correspondendo aos 38% de portugueses que não podem fazer melhorias no isolamento das habitações por não terem disponibilidade financeira para tal neste momento.

É de salientar que, através do estudo da Fixando, conclui-se que os portugueses estão a gastar mais 15 euros mensais em luz e gás, este inverno, em comparação com o período homólogo do ano passado: o valor médio para 2020 era de 69 euros e o de 2021 localiza-se nos 84 euros por agregado familiar.

Há duas semanas, o tempo frio fez disparar a procura de aparelhos de aquecimento nas grandes superfícies e nas lojas especializadas, tendo as vendas triplicado, de acordo com declarações à agência Lusa da Auchan, da Jerónimo Martins e da Worten. André Medina e Micaela Vicente, ambos de 23 anos, residentes em Ponta Delgada, nos Açores, compraram um aquecimento “por volta dos 60 euros” para se manterem quentes enquanto estudam e trabalham. “As casas, em Portugal, não são as melhores em termos de isolamento e tornam-se naturalmente frias devido à construção em blocos”, dizem, adiantando que “os aquecedores elétricos conseguem ser ridiculamente caros”. Desta forma, os jovens inserem-se no grupo de 26% de portugueses que optaram pela aquisição de um aquecedor a óleo.