Viver para Contar

A modelo e o revisor

Por outro lado, partindo do princípio de que o revisor não anda a dizer ‘piadinhas’ nem a ‘meter-se’ com todas as senhoras cujos bilhetes controla, é de presumir que aquela passageira tivesse algo de incomum. De qualquer forma, do ponto de vista de certa esquerda, estávamos colocados perante o dilema de defender um ‘trabalhador’ ou uma ‘vítima de machismo’. E a opção foi defender a mulher.


Do ponto de vista de certa esquerda, estávamos colocados perante o dilema de defender um ‘trabalhador’ ou uma ‘vítima de machismo’. E a opção foi defender a mulher

Há uns meses, num comboio da CP, um revisor considerou que uma passageira não estava vestida de forma apropriada e ter-lhe-á dito em jeito de graçola: «Ainda bem que não está frio, senão as mamocas constipavam-se». A senhora ficou indignada, e nas redes sociais denunciou o episódio. O caso foi objeto de notícia em todos os media. Sara Sequeira – assim se chamava a ‘vítima’, que se apurou ser modelo – fez depois queixa do ‘agressor’ ao Ministério Público ‘por assédio’, mas o processo foi agora arquivado.

Na altura em que saiu a notícia, a generalidade dos comentadores defendeu a senhora contra o revisor. E agora, coerentemente, criticou o juiz que arquivou o processo.

Em defesa da queixosa, os comentadores começaram por dizer que cada um tem o direito de se vestir como quiser, e ninguém tem nada com isso.

Ora, aqui começam as dúvidas. Cada um pode vestir-se como quiser? Eu posso ir nu para a rua, por exemplo? Mas não é preciso ser tão radical. As mulheres podem estar na praia com biquínis reduzidíssimos ou até de monoquínis, e os homens podem estar de tangas minúsculas; mas não é suposto uma mulher entrar de biquíni ou um homem entrar de tanga num elétrico, num autocarro ou num comboio. Do mesmo modo, ninguém vai a uma gala de calções e camisa aberta – embora possa andar assim na rua.

Há regras a cumprir. Umas vezes regras escritas – existe uma coisa que se chama dress code – e, quando não escritas, pelo menos de bom senso e bom gosto.

A forma de uma pessoa se vestir depende, pois, de cada local e de cada situação. Já contei a história do meu primeiro encontro com Freitas do Amaral, no restaurante Pabe. Era Verão e eu apresentei-me vestido com jeans e sandálias. Quando cheguei ao local e vi Freitas de fato completo e gravata, encarando-me com um olhar entre o surpreso e o divertido, jurei para nunca mais ir almoçar com um político sem levar blazer e gravata. Era a forma de não voltar a sentir-me estranho.

Portanto, não é verdade que uma pessoa possa andar por todo o lado vestida como quiser. Não pode e não deve. Por respeito para com os outros e em sua própria defesa.

Voltando ao caso do revisor e da modelo, ele encerrava um curioso conflito: estavam frente a frente um ‘trabalhador’ no exercício da sua profissão, embora possa ter exorbitado na linguagem, e uma mulher vítima de uma piada ’machista’.

E convenhamos que ser revisor da CP deve ser uma grande estopada. Há passageiros insuportáveis, conflituosos, agressivos, provocadores, desejosos de arranjar problemas – e aturá-los no dia-a-dia não deve ser pera doce. Há cenas passadas em autocarros e comboios que acabam mesmo em agressão.

Por outro lado, partindo do princípio de que o revisor não anda a dizer ‘piadinhas’ nem a ‘meter-se’ com todas as senhoras cujos bilhetes controla, é de presumir que aquela passageira tivesse algo de incomum.

De qualquer forma, do ponto de vista de certa esquerda, estávamos colocados perante o dilema de defender um ‘trabalhador’ ou uma ‘vítima de machismo’. E a opção foi defender a mulher.

O que se compreende: hoje, nos media, fala-se constantemente em ‘machismo’, em ‘homofobia’, em ‘racismo’, em ‘xenofobia’ – pelo que, num caso destes, o normal é condenar logo o comportamento do homem, sem curar de saber mais nada.

Com muito poucos dados para analisar, os comentadores pronunciaram-se a favor de um lado contra o outro. Com receio de serem atacados, de serem enxovalhados pelos novos agentes da polícia do pensamento, pelos zeladores do politicamente correto, aos comentadores não ocorreu fazer a pergunta mais óbvia: «Mas afinal como ia vestida a senhora?».

Assim, ficámos sem saber se a modelo ia ou não vestida de forma adequada à situação. E independentemente da condenação do revisor pela impertinência das suas palavras, não sabemos se, quanto à questão de fundo, o homem tinha ou não razões para chamar a atenção à passageira.

Aqui há uns meses vi uma mulher de fato de banho dentro do aeroporto de Lisboa. De fato de banho e grossas botas da tropa nos pés – num grotesco contraste. Não sei se é permitido uma pessoa andar de fato de banho num aeroporto – mas se um funcionário lhe chamasse a atenção ninguém acharia estranho.

 

P.S. – A senhora é hoje famosa e tem um perfil no Facebook com as fotos que ilustram esta crónica; quanto ao revisor, embora absolvido na Justiça, enfrenta um processo disciplinar na CP.