Sociedade

Transportes. Quando a única hipótese de chegar ao trabalho é de alto risco

Comboios, autocarros, metro e barcos: a sobrelotação é o “pão nosso de cada dia” para os passageiros.

“No autocarro, toda a gente entra pela mesma porta e nunca vi ninguém a fiscalizar e a impedir a entrada de mais passageiros quando a capacidade já atingiu o limite imposto”, afirma a estudante Inês Magalhães ao i. A_jovem de 28 anos apanha diariamente a carreira 750 da Carris. O autocarro 750 liga Algés ao Oriente, sendo a duração da viagem de cerca de uma hora. Com um percurso tão longo, é habitual ver o veículo cheio a passar nas ruas de Lisboa. No entanto, devido à pandemia, a lotação máxima passou a ser de dois terços da capacidade total do transporte e, pelas imagens que constantemente são partilhadas nas redes sociais, é um facto certo que a medida não está a ser cumprida.

Foi ontem disponibilizado numa página do Facebook um vídeo ilustrativo desta situação. Contactada pelo i, a CP explicou que se tratou de uma avaria detetada numa “agulha da infraestrutura ferroviária, à saída do parque de comboios do Algueirão, que alimenta a Linha de Sintra”. A avaria foi reparada duas horas depois, provocando “atrasos na circulação dos comboios da Linha de Sintra de cerca de 60 minutos que provocaram aglomeração de pessoas para os primeiros comboios a circular”. A aglomeração deu origem à impossibilidade de se manter o distanciamento social. No vídeo partilhado é possível observar várias pessoas a tentarem “encaixar-se” de maneira a conseguirem caber no transporte. A circulação ficou regularizada e a CP afirma que “este foi um incidente isolado e circunscrito na Linha de Sintra e ao dia de hoje (quarta-feira)”.

Mas os incidentes isolados acontecem frequentemente – não só na CP como na Fertagus, na Carris e no metropolitano. No que toca ao último, os passageiros queixam-se de atrasos constantes e de tempos de espera superiores a dez minutos, mesmo em horas de ponta.

Ana Sofia (nome fictício) é mais uma utente dos transportes de Lisboa que se queixa das condições a que está sujeita para poder chegar diariamente ao trabalho. “Os transportes cheios já deveria ser inadmissível, visto que há regras para que isso não aconteça, mas a falta de noção dos passageiros também é grave”, conta a trabalhadora ao i. “Aquilo que mais me chocou”, continua Ana Sofia, “foi uma senhora com cerca de 35 anos, com uma bebé recém-nascida, a entrar no autocarro com máscara e a tirá-la pouco depois. Olhei para ela e atirou assim meio para o ar “já nem sei onde pus a máscara”, mas tinha-a no bolso. Sofia é cuidadora informal de um familiar, o que faz com que se sinta particularmente ansiosa quando pensa que pode transportar o vírus para casa. “Quando cheguei à porta de casa desinfetei-me toda, roupas e sapatos, com um desinfetante multissuperfícies, incluindo para têxteis, porque tenho muito medo de trazer o vírus”, confessa a jovem de 23 anos.

Estas situações são cada vez mais comuns e, se numa vida pré-covid já causavam constrangimentos na vida dos portugueses, a verdade é que, agora, o problema se agravou, e não só em Lisboa, mas também na Margem Sul.

Raquel Medeiros é passageira da rede de transportes Fertagus. A situação que vive é semelhante à de quem usa a CP. A jovem relata que é comum que duas pessoas se sentem frente a frente “como se não existisse o vírus”. Quando não há lugares sentados disponíveis “chegamos a ir todos encostados uns aos outros, em pé, na zona das portas, e há pessoas em pé junto dos bancos”.

Tal como Raquel, também o percurso diário de Jorge Martins começa do lado sul do rio. O trabalhador de 51 anos desloca-se no barco da Soflusa para chegar ao seu local de trabalho e as queixas relativas à lotação máxima permitida são “o pão nosso de cada dia”. O preparador de obra revela ao i que quando volta para casa, por volta das 19h30, “a lotação do barco ultrapassa sempre os 70%”. No terminal fluvial é possível observar um monitor que vai contabilizando quantas pessoas entram no barco “mas, mesmo assim, os seguranças deixam entrar toda a gente”, lamenta Jorge, acrescentando: “Nessas alturas, eu espero para poder apanhar o próximo barco e conseguir garantir alguma segurança”.

Apesar de termos entrado novamente em confinamento, a afluência aos transportes continua semelhante ao que foi observado nos últimos meses. Os estudantes continuam a precisar de se deslocar até às faculdades e há trabalhadores cuja atividade profissional é impossível de ser executada em teletrabalho. No entanto, as medidas relativas à lotação máxima continuam sem ser cumpridas e os relatos de comboios ou autocarros cheios mantêm o seu espaço diário um pouco por todas as redes sociais.