Sociedade

Óscar Felgueiras: "Duas semanas não serão suficientes para travar o crescimento"

Investigador da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, um dos especialistas ouvidos pelo Governo, diz que neste momento não é possível estimar quando será o pico de casos. Epidemia está com crescimento exponencial, que sem mudança de comportamentos continuaria ‘indeterminadamente’. Diariamente estão a ocorrer mais de 20 mil infeções, estima Óscar Felgueiras.

 

Alertou esta semana que temos provavelmente pela frente a maior tragédia dos últimos séculos na história do país. Que cenário é possível projetar com base na situação epidemiológica?

Estamos numa fase de crescimento exponencial, apesar das várias medidas restritivas em vigor desde o início do ano. A nova variante tem já um peso significativo no aumento da transmissibilidade. O Imperial College estimou que no caso de a nova variante ser a única a circular, o seu efeito no RT é de entre 0,4 e 0,7, comparando com a estirpe vulgar. Isso quer dizer, na prática, que se temos uma presença de 20% da nova variante, ela será responsável por pelo menos 0,08 do RT atual. Com o comportamento que temos tido nas últimas semanas, não é possível que o RT fique abaixo de 1 num futuro próximo. Ou seja, os novos casos sobem indeterminadamente.

Foi um dos peritos a alertar para um possível teto falso nos casos conhecidos, por limites na capacidade de deteção e testagem no país. Os recordes de casos desta semana resultam desse atraso na deteção ou são a situação a agravar-se?

Os recordes de casos resultam do agravamento da situação. Existem estrangulamentos na deteção de casos, que são sinalizados pela atual positividade perto dos 20%. Todos os casos que detetamos são apenas uma parte do que existe. À medida que os casos aumentam, é natural que haja um ajustar de recursos no terreno de modo a recuperar um melhor acompanhamento da situação. Os aumentos atuais são resultado desse esforço adicional mas também do aumento de positividade, pelo que a situação não está controlada. Seguramente têm existido mais de 20 mil novas infeções diárias.

Chegámos aos 14 mil casos diagnosticados num dia, aos 700 doentes em UCI e passamos os 200 óbitos diários. O que podemos esperar dentro de uma semana?

Por enquanto, apenas podemos esperar ver esses números crescerem. Na próxima semana não veremos grandes diferenças nessa tendência. O mais importante agora é alterarmos todo o comportamento e contribuirmos individualmente para conseguir estancar este crescimento. Temos de aprender a defendermo-nos desta nova ameaça, redobrando os cuidados habituais: máscara, distanciamento, higienização das mãos e sempre que possível ficar em casa.

Mesmo fechando agora as escolas, é possível estimar quando será o pico desta terceira vaga e quando é expectável que as infeções comecem a baixar?

Tudo vai depender da adesão da população. Apesar de não conseguir estimar, posso dizer que a Irlanda teve uma vaga recente com a contribuição da nova variante e já atingiu o pico. Mas começou de um ponto de partida de pouco mais 800 casos diários semanais, o que seria equivalente a cerca de 1600 em Portugal. Nós estamos a partir de uma média superior a 10 000. Só com as medidas atuais é que vamos restrições suficientes para parar o crescimento. Em duas semanas seguramente não iremos conseguir controlar o crescimento, colocar o R abaixo de 1, e só nessa altura é que se atinge o pico. Não será fácil isso acontecer em menos de um mês.

Em março o país confinou com 600 casos ativos e manteve-se o confinamento durante mês e meio, com um desconfinamento muito gradual. Agora há uma epidemia muito mais espalhada. Quanto tempo poderá ser necessário manter o confinamento?

O que tem de ser feito é o que é feito habitualmente: implementa-se medidas e avalia-se ao fim de duas semanas, é o tempo mínimo. Aqui, apesar das circunstâncias diferentes, isso mantém-se. O ideal seria conseguirmos ter um período de contenção suficientemente longo para colocar o RT bem abaixo de 1. Se é exequível, não consigo dizer. Não consigo dizer até que ponto é que o país terá condições para se manter assim. Entram fatores que transcendem a observação do lado da saúde.

Foi um erro não avançar mais cedo para um confinamento total?

A posteriori, é fácil dizer que teria sido melhor fazer um confinamento antes. Mas as medidas, mais ou menos restritivas, precisam de adesão para funcionarem. Sabemos que na semana anterior ao Natal houve um crescimento de casos, agravado no período das festas. Sabemos que houve um estrangulamento na deteção de casos e que as medidas foram relaxadas e a consequência foi o aumento de casos. No Ano Novo houve uma postura diferente, houve mais medidas, mas os contágios também subiram. No Natal e Ano Novo, perante medidas diferentes, não houve diferença no resultado final. Se devíamos ter confinado há duas semanas? Aí é diferente. A minha perceção foi que, ao termos a circulação da nova variante, era um fator de risco adicional quando já estávamos com uma incidência muito elevada. Achei que devia ter havido o confinamento. Naquela altura eventualmente fechar escolas a partir dos 12 anos seria uma medida que poderia ser a solução, neste momento já é claro que não é suficiente. Todas as decisões envolvem muitas variáveis e a saúde é uma delas. Há alturas em que é mais prioritária. Temos de ir pela medida mais extrema para controlar isto o mais cedo possível.

A maior concentração de pessoas nas eleições deste domingo pode ter um impacto significativo no aumento de contágios, mesmo sendo só um dia?

Tal como tudo o resto, em qualquer setor de atividade, qualquer coisa que envolva mobilidade das pessoas é um risco. Há vários riscos que temos de correr. Vamos ter de manter hospitais abertos, supermercados abertos, outros recursos essenciais abertos. Considerou-se o direito de votar um bem essencial. Penso que estamos num momento grave em que toda a população vê o risco e espero que se adeque tudo de modo a que as eleições tenham o menor impacto possível.

Tem-se discutido o que era e o que não era previsível. É possível perceber o que levou a que chegássemos a este patamar de casos e onde entra a variante?

O início da situação atual não é a nova variante. Não é claramente isso que motiva o aumento de casos na altura do Natal e do Ano Novo. Temos uma vaga que se inicia aí e temos em simultâneo o aparecimento da nova variante, que contribui para o agravamento da situação. A princípio contribui pouco mas rapidamente começa a contribuir mais e neste momento já tem uma presença suficientemente forte para ser um grande motivo de preocupação.