Economia

"Os políticos portugueses não sabem o que é pagar salários"

Eduardo Baptista Correia lamenta a falta de estratégia para o país e dá como contraponto e bom exemplo o que é vivido no Taguspark: criar riqueza para ser distribuída.

Para o responsável, é indispensável a subida do salário mínimo nacional para patamares na ordem dos mil euros para melhorar os níveis de produtividade do país. Eduardo Baptista Correia mostra-se preocupado com as injeções de capital na TAP e no Novo Banco, apontando a política governamental dos últimos anos: elevados níveis de endividamento. Aproveita ainda para falar sobre os novos projetos para o Taguspark, considerado um dos maiores centros de trabalho em Portugal, como o Museu de Arte Urbana e o hotel de quatro estrelas, ao mesmo tempo que refere as ajudas que têm sido dadas às empresas que mais precisam, criticando assim os apoios que têm sido dados pelo Governo. E confessa: «Não sei como é que este Governo dorme descansado».

O Taguspark surgiu numa altura em que começaram a ser pensados os parques empresariais em Portugal mas, até agora, passou por altos e baixos…

O Taguspark também corresponde um bocadinho à história recente da economia portuguesa. A ideia de fazer o Taguspark surgiu há cerca de 30 anos, numa fase em que o país recebia um conjunto de montantes financeiros muito significativos por parte da Europa. Havia uma ambição muito grande e uma visão relativamente bem alicerçada daquilo que se pretendia para o país. Havia uma visão de criação de riqueza, de desenvolvimento económico, de profunda integração europeia, e essa ambição, no final dos anos 80 e no início dos anos 90, contava até com planos estratégicos relativamente interessantes – lembro-me, por exemplo, do tão falado plano Porter –, e o Taguspark surge precisamente nesse contexto. Ou seja, num contexto de construção, de visão futura, de desenvolvimento, de preparação de um país para os desafios económicos do final do séc. XX e início do séc. XXI, em que estava prevista uma grande ambição. Portugal fez um trabalho bastante interessante nessa altura, cresceu muito em termos de paridade de poder de compra, em índices de desenvolvimento económico e de revisão de índices horríveis que tínhamos, nomeadamente ao nível da mortalidade infantil.

Mas ficou por aí?

Por variadíssimas razões que estão muito relacionadas com a ausência de um plano estratégico, com o sistema político, com o sistema da justiça e com o sistema fiscal, o país começou a reduzir a velocidade de desenvolvimento, começou de algum modo a endividar-se excessivamente e, em vez de se desenvolver e de criar riqueza, passou a endividar-se. O Taguspark, um bocadinho pela contaminação que estas matérias envolvem, e também por via deste amorfismo generalizado e por culpa própria – indiscutivelmente, de má gestão –, foi perdendo as características que o tornavam tão diferenciado.

Inicialmente contava com grandes empresas-âncora...

Manteve sempre algumas empresas-âncora. Foi sempre uma referência em termos de parque de ciência e de tecnologia, mas a sua pujança, a sua dinâmica e o exemplo que foi dando ao país e à comunidade à sua volta foram sendo cada vez menos interessantes. A partir de 2018 decidimos, de uma forma muito intensa, planear e rever a matéria.

A sua chegada, no início de fevereiro de 2018, foi uma lufada de ar fresco?

Quisemos assumir claramente o posicionamento dos pais fundadores – no fundo, uma referência nacional e europeia –, definimos um conjunto de objetivos que passaram pela regeneração do edificado, por novo edificado completamente moderno, à luz daquilo que são os valores do local de trabalho no séc. XXI, refizemos a revisão daquilo que é a nossa missão.

E qual é essa missão?

A nossa missão é criar condições para que as empresas ligadas à tecnologia e à ciência possam desenvolver aqui as suas atividades. Decidimos apontar para patamares de civismo e decidimos que um dos nossos objetivos era ser um dos parques mais cívicos da Europa.

Para alcançar este objetivo foram traçados quatro pilares. Que pilares são esses?

O primeiro pilar é comportamental, está associado ao comportamento das pessoas: zero beatas no chão, zero papel no chão, zero automóveis mal estacionados, e fomos gradualmente, com uma política de comunicação, de simpatia, resolvendo esses problemas. Hoje é difícil encontrar uma beata no parque – não quer dizer que não exista, mas é muito difícil encontrá-la. Também é quase impossível encontrar um automóvel mal estacionado. A comunidade Taguspark preza o local público. O segundo pilar diz respeito ao facto de sermos um parque de ciência e tecnologia e apreciarmos a lei de Lavoisier, segundo a qual, na natureza, nada se perde, tudo se transforma. Ou seja, parte dos nossos resíduos integram projetos tecnológicos residentes no Tagus. Por exemplo, as beatas que recolhemos nos nossos recipientes integram um projeto de produção de tijolos para a construção civil de uma startup do Instituto de Soldadura e Qualidade. O terceiro patamar é o da independência energética: queremos ser cada vez mais um exemplo de utilização de energias renováveis. Estamos neste momento a implementar, e nos próximos dias iremos inaugurar, 1500 painéis fotovoltaicos e vamos reduzir em cerca de 25% a nossa dependência da rede, produzindo cerca de um gigawatt anual. E, por fim, aquele que consideramos ser um dos patamares mais importantes, que diz respeito à dignidade laboral. Em relação aos funcionários dos prestadores de serviços que trabalham diretamente connosco – mais propriamente nos serviços de limpeza, de jardinagem e de manutenção –, chegámos no passado a acordo com as empresas fornecedoras para garantir que os trabalhadores dessas organizações passassem a trabalhar a tempo inteiro no Taguspark e recebessem, como salário mínimo nacional, 900 euros. Isto significa que as pessoas que recebiam, até maio de 2020, o salário mínimo nacional, de 635 passaram a ver o seu salário mínimo aumentar para os 900 euros. Para nós, é o último dos patamares de civismo, prende-se com a dignidade laboral e com aquilo que achamos que é fundamental fazer no país: criar riqueza e distribuí-la de forma equilibrada, de modo que as pessoas possam, no fundo, dar descontinuidade a ciclos de pobreza.

Como reagiram as empresas fornecedoras?

Reagiram bem porque o diferencial é pago pelo Taguspark. Introduzimos uma linha nos nossos contratos e na folha salarial dos trabalhadores aparece esse valor extra como prémio Taguspark. Isso fez com que os índices de felicidade no local de trabalho tenham aumentado de uma forma absolutamente exponencial, e a qualidade do serviço prestado também. Somos há muito apologistas da meritocracia e a meritocracia é precisamente isso: promover o bom trabalho, a excelência e o rigor. Mas isso tem de ser feito em grande equilíbrio e essa é uma das grandes falhas em Portugal. Somos um dos países que estão na cauda da Europa em termos de produtividade e estamos sempre a acusar os portugueses de falta de produtividade. No entanto, quando colocamos os portugueses em países ou em organizações mais meritocratas, os portugueses são dos melhores. O que falha? Temos em Portugal um sistema de ciências do trabalho e de empresas absolutamente ultrapassado, pouco meritocrático, o que faz com que as pessoas não tenham grandes incentivos a fazer bem feito.

Mas isso acontece porque os empresários preferem não ver essa realidade ou por desconhecimento?

Temos em Portugal um conflito latente desde os anos 70 do século passado. É um conflito pós-25 de Abril, que é o conflito entre os recursos capital/trabalho e gestão. Portugal tem um conjunto de greves que não criam nada e são exageradíssimas. Temos salários muito baixos, uma total ausência da participação do fator trabalho na tomada de decisão das organizações e, como tal, temos um sistema que põe, em última instância – se quiser usar uma expressão muito anos 70 –, patrões e trabalhadores em conflito.

Vê-se isso nas concertações sociais...

Exatamente, esse é um dos melhores exemplos. Não há nenhuma família, nenhuma empresa, nenhum país que possa desenvolver-se com um conflito destes. Há muita falta de meritocracia, muita falta de inteligência, e isso beneficia os sindicatos, que fazem o seu poder aparecer e prejudicam os trabalhadores. Também beneficia uma esquerda que reivindica direitos mas não apresenta soluções para a melhoria da produtividade, para o desenvolvimento económico. Resultado: vivemos a assistir gradualmente a um maior endividamento, a uma menor taxa de produtividade e, com isso, o país atrasa-se.

Como é que se resolve?

Só se resolve quando se conseguir resolver este conflito na raiz. Este conflito – aliás, o Taguspark é prova disso, não estamos a falar de teoria, estamos a falar de um caso prático – resolve-se aumentando os salários mínimos para níveis de dignidade. Não aceito que alguém possa viver com 600 e poucos euros por mês, não sei como se faz. Não sei como se educam os filhos, como se pagam as contas, não faço ideia. Acredito que, em algumas zonas do país, isso seja possível, mas isso não é solução para os grandes centros urbanos. Ninguém consegue viver nos centros urbanos com o salário mínimo nacional. Algo está errado e não percebo como a concertação social não percebe isso. É fundamental aumentar o salário mínimo nacional para níveis de dignidade mínima que permitam às famílias terminar com os ciclos de pobreza, que permitam às famílias pagar os estudos dos filhos, que permitam às famílias promover índices de qualidade de vida, de alimentação, de educação maiores do que os salários de miséria. Além disso, há que começar a distribuir os resultados das organizações por vários recursos, não só pelo recurso capital, mas também pelo recurso trabalho, garantindo desta forma um grande empenho de todos os recursos e uma convergência de interesses nas organizações, nas empresas. Só assim é que termina o conflito, trazendo também o representante dos trabalhadores para os conselhos de administração. São estas medidas que, de algum modo e de uma forma gradual, permitem terminar com este conflito, com essa antipatia crónica entre patrão e trabalhador. As organizações, as equipas, as famílias só se desenvolvem em convergência. É só preciso pensar um bocadinho de uma forma moderna, diferente daquilo que é o pensamento já velho, dos anos 70, que não gerou resultado nenhum. Até pelo contrário, tem-nos provocado problemas cada vez mais maiores. E a fatura está aí: estamos a fazer no país aquilo que não fazemos nas nossas famílias, que é a cultura de não passar dívida para as gerações mais novas. Assim nos ensinaram os nossos avós, os nossos pais, e assim tentamos fazer com os nossos filhos. Mas, enquanto país, estamos a fazer exatamente o contrário: estamos a endividar-nos, a gastar hoje para que alguém, para que as gerações mais novas paguem a seguir. O país está completamente virado ao contrário no que diz respeito à lógica de desenvolvimento.

Quando defende o aumento do salário mínimo defende os valores que são aplicados no Taguspark, os tais 900 euros?

Defendo valores de 900/1000 euros. Para quem trabalha 8 horas por dia é o valor justo, mas para isso também temos de flexibilizar o despedimento. Esta conversa de aumentar o salário mínimo e de introduzir o fator trabalho à mesa da tomada de decisão é uma conversa aplaudida por toda a esquerda mas, depois, a esquerda só pensa em direitos, direitos, direitos. Tem de haver o fiel da balança. Temos de introduzir elementos meritocráticos e quem tem a liberdade e a capacidade de contratar também tem de ter a capacidade de despedir. O despedimento não pode é ser selvático. Tem de haver uma tabela simples que contemple o salário, os anos que trabalhou, o tempo de pré-informação que se dá e, em função disso, é determinada a compensação. É assim que deve funcionar. Desta forma passaríamos a ter no mundo do trabalho e das empresas a geração de riqueza, que é isso que falta em Portugal.

É o nosso calcanhar de Aquiles...

O nosso problema é a geração de riqueza. Somos uns pobretanas. Somos um país de pobretanas, somos um país de trocos nos bolsos. É esse o retrato do país: as famílias estão todas endividadas, as empresas também e, depois, em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E o que vemos é toda a gente a ralhar: uns ralham com os ciganos, outros ralham com os trabalhadores, outros ralham com os patrões. Toda a gente ralha uns com os outros, mas ainda não vi ninguém – e ultimamente andamos muito pobres nesta matéria – a apresentar soluções. Isto de andarmos a acusar-nos uns aos outros é fácil. Nunca ninguém tem a culpa, a culpa é sempre do outro. Este é o discurso fácil. Do que precisamos é de um país unido, e quando falava dos anos 80, anos 90, foi uma fase muito interessante porque havia uma direção, um caminho, uma ambição. Hoje, não há. Não há um plano para Portugal, ninguém faz a mais pequena ideia do que Portugal quer ser quando for crescido. Esta rapaziada que nos tem governado ultimamente utiliza o instrumento endividamento, de ‘alguém nos há de entregar dinheiro’. Como se isso fosse a coisa mais normal, aumentar o endividamento e aumentarmos todos os semestres. É insustentável. E enquanto os portugueses não perceberem que é insustentável, enquanto não virem uma alternativa de mudança deste estado de coisas, continuamos na mesma. E a mudança deste estado de coisas obriga-nos a repensar as regras de trabalho e de empresa, porque é aqui que se gera riqueza, é aqui que se desenvolve o país através da ciência e da tecnologia. Por isso é que o exemplo do Taguspark é muito importante, pois mostra como a ciência e a tecnologia ao serviço das empresas geram riqueza. Estamos no município mais rico e mais produtivo do país: Oeiras Valley, um modelo que pode ser replicado no resto do país. É pôr ao serviço do trabalho, ao serviço das empresas, grande empenho, estratégia e visão de futuro.

Enquanto o país tem essa falta de visão estratégica...

Não há essa estratégia. O país tem cada vez mais administração pública. Existe cada vez mais Estado, cada vez mais política, mas baixa política, porque não fala do desenvolvimento do país. Não vejo um político a falar do plano de desenvolvimento do país, falou-se agora no plano de Costa Silva, mas serviu para alimentar jornais e telejornais durante meia dúzia de dias. Nunca mais ninguém ouviu falar disso.

E está assente, mais uma vez, em grandes obras públicas...

Mas que são fundamentais porque permitem criar a infraestrutura para que empresas e mercados se desenvolvam. Enquanto não tivermos uma iniciativa privada e enquanto a ciência e a tecnologia não estiverem ao serviço do desenvolvimento do país, continuamos neste impasse. Todos estudámos os Descobrimentos, que não foram mais do que uma estratégia político-económica assente em ciência e tecnologia. Os Descobrimentos não tinham existido se não tivessem ao lado a ciência e a tecnologia de ponta ao tempo. As nossas embarcações eram as mais desenvolvidas da época, os nossos sistemas de navegação eram os mais desenvolvidos. Portanto, a ciência e a tecnologia são absolutamente fundamentais para que a visão, o sonho e a ambição possam de algum modo ser concretizadas.

Mas parece que essa visão, sonho e ambição ficaram esquecidos…

Veja apenas o que aconteceu com o voto antecipado, este último domingo. Porque não se apostou no voto eletrónico? Anda-se a falar da digitalização, diz-se que o Estado é altamente informatizado – é mentira. São as Finanças, para cobrarem – aí sim temos uma máquina altamente informatizada que funciona que nem um relógio suíço.

Só bloqueia na véspera de terminar o prazo de validação das faturas...

Aí está. Tudo o que é para benefício da própria máquina fiscal funciona bem. O que aconteceu neste último fim de semana é a demonstração clara de que a capacidade de implementação por parte dos nossos governantes anda de rastos. Entre a visão e a implementação, o que é importante é implementar. Também posso dizer que tenho ali uma nave espacial para irmos a Marte, mas isso é conversa. Não vamos porque não temos capacidade científica e tecnológica para o fazer. Perdem-se constantemente boas oportunidades, em Portugal, de dar o passo em frente. Um desses casos é o ensino à distância. Na minha perspetiva, não há justificação nenhuma para manter as escolas abertas durante a pandemia que não seja a falta de meios tecnológicos, que proliferam por determinadas famílias, e aí, sim, estou de acordo com o Governo em não prejudicar as pessoas mais desfavorecidas porque a nossa obrigação enquanto sociedade é não deixar ninguém para trás no que diz respeito ao acesso a oportunidades e à igualdade de oportunidades. Isso obriga a que todos tenham acesso ao ensino porque a escola é o primeiro elemento de ascensão social, mas isso também é a demonstração clara de que esta conversa de sermos um país tecnológico e que as famílias estão todas informatizadas é mentira.

Como vê as medidas anunciadas pelo Governo? Muitos dizem que são avulso...

Toda a gente acha que as medidas são avulso. E, além de serem avulsas, parecem uma brincadeira de amigos em que cada um vai para casa, lembra-se de duas ou três medidas e depois compilam tudo. E, depois, também não sabem comunicar. Este Governo tem demonstrado claramente nesta pandemia que não sabe falar com as pessoas. Eu não entendo e, se não entendo, então a maioria das pessoas também não. O que hoje é verdade, amanhã não é, há muita incoerência, e a política não é isto. A mobilização de um povo não é isto.

E isso leva aos tais abusos a que se tem assistido...

Como é óbvio, e depois há sempre aqueles que deixam de ligar. Quando temos um Governo carregado de infetados ou pseudoinfetados, isso mostra que eles próprios não dão o exemplo. Só há uma liderança possível para ser respeitada, que é a liderança pelo exemplo. O Governo dá um mau exemplo, as autoridades de saúde dão um péssimo exemplo. As medidas, hoje, são uma coisa, amanhã são outra, depois abrimos no Natal, depois voltamos a fechar. É só sinais contraditórios: não podemos almoçar fora, mas as universidades estão cheias de gente, os supermercados também. Tudo isto é de uma enorme incoerência e as pessoas reagem mal perante a incoerência e, por isso, não levam a sério algumas das medidas que até são sensatas. Estamos demasiado mal entregues.

Voltando ao Taguspark, a visão que tem diferencia-o dos outros centros empresariais?

Estamos única e exclusivamente preocupados em dar o nosso contributo ao ecossistema do Oeiras Valley e não temos tido o trabalho de nos comparamos com os outros. Costumamos dizer que quanto melhor correr aos outros à nossa volta, melhor corre a nós, porque isso significa que estamos num ecossistema de desenvolvimento. Não queremos de alguma forma ser concorrentes de quem quer que seja. Concorremos connosco próprios e com as exigências que colocamos a nós próprios. E as exigências que colocamos a nós próprios prendem-se com os objetivos que temos. Temos dois ou três objetivos. Um deles é financeiro: sermos sustentáveis do ponto económico-financeiro. Temos conseguido sê-lo de forma bastante interessante, aumentámos vendas, resultados, EBITDA, níveis de produtividade em equipa de forma absolutamente exponencial. Estamos preocupados em estabelecer com quem cá trabalha, com quem vive, com quem vem cá visitar uma relação de grande proximidade, de grande parceria. A nossa missão é criar um ambiente no local de trabalho em que seja muito agradável passar o dia. Por isso, temos um conjunto de ações que passam pela arte, pela música. Por fim, estamos muito interessados em ter empresas de referência que sintam que aqui conseguem produzir mais – o próprio Instituto Superior Técnico, uma peça muito importante do Taguspark não só pelo ensino que presta, mas pelos projetos que gera para muitas empresas na nossa incubadora. Tradicionalmente, há muitas empresas que nascem de projetos de mestrado. A própria câmara municipal tem um papel muito importante no desenvolvimento da região e é uma vantagem estarmos inseridos neste município que tanto investe na qualidade de vida, no equilíbrio social, na segurança. São estas peças que permitiram termos feito este percurso de forma bastante equilibrada, neste ambiente pujante, de referência, que todos os dias inova.

Essa missão já se traduz numa maior taxa de ocupação?

Temos uma taxa de ocupação muito maior. Temos o edificado praticamente todo ocupado, daquele que é ocupável. Falta-nos reabilitar três edifícios neste processo de três anos de reabilitação. Estamos a concluir o edifício da PHC, que será inaugurado no final de fevereiro, início de março. Temos uma escola internacional que está a planear um campus dos mais interessantes em Portugal.

Há espaço para ampliar mais?

Sim. Temos ainda cerca de 180 mil metros quadrados de potencial construção, juntando o potencial da primeira e o da segunda fase. O Taguspark é uma das zonas com maior potencial construtivo na região metropolitana de Lisboa.

Essa ampliação está prevista nesta fase de pandemia?

Não. Nesta fase não reduzimos o nosso ritmo, mas obviamente que a economia desacelerou e estamos a gerir com muito cuidado todos os impactos económicos que a pandemia nos trouxe, e, obviamente, traz alguns, nomeadamente as superfícies comerciais que pararam. Não cobramos rendas às superfícies comerciais desde março. É o nosso lado de solidariedade para com aqueles que mais precisam. Este Governo decidiu criar como principal vítima e como principal causador de covid os restaurantes, e a nossa principal preocupação é protegê-los. Não percebemos como é que este Governo o faz. Faz muita impressão quando penso nos milhares de famílias que dependem deste setor, que tem tanta gente a trabalhar. Como é que este Governo dorme descansado? Não percebo, sinceramente. Há muita gente a viver situações muito críticas porque entre o discurso do Governo que vai dar e a implementação há um diferencial gigantesco. Não percebo, os políticos continuam a falar, a contar histórias. Tenho muita dificuldade em fazer uma promessa que não sou capaz de cumprir, fico aflito, enquanto os políticos em Portugal dizem a maior das barbaridades com a maior das normalidades.

Os apoios têm sido alvo de fortes críticas por parte dos empresários...

Vão todos morrer pelo caminho. Há milhares de pessoas que estão em grandes dificuldade devido a este encerramento abrupto que não faz sentido nenhum. Os supermercados estão cheios de manhã e, depois, não dá para ir almoçar fora? Por outro lado, um dos problemas destas medidas é a total falta de credibilização. Qualquer um de nós viu de tudo no que diz respeito ao incumprimento. E onde anda a polícia?

Acenaram com um reforço...

Acenaram, mas é só ameaças. Não se vê polícia nas ruas.

Isso dá liberdade aos prevaricadores?

Obviamente.

Em altura de pandemia, o Taguspark abriu um restaurante novo. Foi a pior altura para fazer esta aposta?

Não, as alturas são as que são. E isso fez com que o nosso empenho para ajudar o chefe Nuno Queiroz Ribeiro aumentasse porque é em tempos de dificuldades que temos de nos ajudar uns aos outros. Não, não foi uma má aposta. Adaptamo-nos às circunstâncias. É isso que faz o ser humano especial. A teoria de Darwin diz precisamente isso. As espécies que vencem são as que se adaptam às circunstâncias, e nós não perdemos tempo com aquilo que não somos capazes de mudar. Perdemos, sim, muito tempo, muito empenho, muita energia e muita estratégia naquilo que é o nosso contributo. E o nosso contributo é publicitar o chefe Nuno Queiroz Ribeiro, é dar um apoio ao chefe Nuno Queiroz Ribeiro no que diz respeito a tudo aquilo que possamos fazer para que possa, à noite, dormir descansado.

Está previsto um Museu de Arte Urbana e um hotel de quatro estrelas. Estes projetos mantêm-se em cima da mesa?

Sim. O hotel de quatro estrelas é um projeto que está em andamento e já foi aprovado na Câmara Municipal de Oeiras. Obviamente que os investidores, agora, vão ter de esperar um bocadinho para perceber exatamente o que vai acontecer ao mundo nos próximos meses, mas não tenho sinais de inversão. Acredito que nos próximos anos teremos um hotel de quatro estrelas a surgir aqui. O Museu de Arte Urbana é consequência de um projeto que tem vindo a crescer de forma orgânica. Começámos com exposições de arte, com pintura e com escultura. Depois, durante a pandemia, decidimos convocar alguns dos principais graffiters portugueses para grafitarem, com temas fornecidos por nós – desde a poesia portuguesa à filosofia, história de Portugal, amizade, desenvolvimento tecnológico –, um conjunto de paredes nas garagens. Hoje temos as garagens, diria que na totalidade, grafitadas. Percebemos a importância da arte na boa disposição, na qualidade de vida no local de trabalho, e decidimos dar um passo em frente no sentido de começarmos a investir em arte escultória, e temos já um conjunto de esculturas muito bonitas espalhadas pelo parque. Temos hoje peças muito bonitas. Temos o patinho, o esquilo do Bordalo... Do Bordalo estão também a caminho uma perdiz e os seus perdigotos. Temos um coração muito bonito no núcleo central, temos os túneis de madeira lindíssimos e temos na calha todo um conjunto de encomendas muito interessantes que vão de algum modo tornar a vivência deste espaço muito mais agradável, e torná-lo também uma referência no roteiro das artes não só da região metropolitana de Lisboa – mais especificamente, Oeiras Valley, que está a candidatar-se a cidade europeia da cultura 2027 e é também um contributo para o ecossistema.

Pode trazer pessoas de fora....

Trará, mas isso é uma consequência, não é um objetivo. O nosso objetivo é sempre o mesmo: dar às pessoas que aqui vivem fatores diferenciadores positivos para que o seu quotidiano seja mais agradável e, por conseguinte, mais produtivo. Este local é lindíssimo, tem espaços verdes maravilhosos. Cada vez que cá venho ao fim de semana vejo cada vez mais famílias, pessoas a passear os seus animais... é um espaço que deve ser usufruído por famílias, para tempo livre.

Em relação ao local de trabalho, já pode ser considerada a maior cidade de trabalho em Portugal?

É, provavelmente, a maior cidade de trabalho em Portugal. Diria que temos 16 mil pessoas concentradas neste parque. Começámos a chamar-lhe cidade do conhecimento. Mais importante que aquilo que somos é o que fazemos. Fazemos conhecimento e é este que faz mudar o mundo, pois cria inovação e desenvolvimento. Sem conhecimento há atraso, tudo se torna retrógrado. Somos uma referência em termos de cidades de trabalho. Costumamos dizer que somos a cidade mais social-democrata do país porque aqui produz-se riqueza, distribui-se riqueza e cria-se velocidade. E esta cidade do conhecimento deveria, cada vez mais, ser objeto de estudo para que possa ser replicada. Devemos aprender e replicar os bons exemplos, não os maus.

Há pouco disse que estão a ser dados apoios para a restauração. E em relação às outras empresas?

São raras as empresas que nos solicitaram apoios. Todas as que nos solicitaram apoio, de uma forma ou de outra, demos os apoios que, na altura e em cada momento ,era adequado e sensato dar. Isso significa que temos aqui um tecido empresarial que gera riqueza e apresenta graus de imunidade substancialmente superiores aos da média da economia nacional. Uma vez mais, o Taguspark é um bom exemplo de produção de riqueza.

Está a dar maior exemplo do que o próprio Governo...

Mas o Governo pensa sempre em endividar-se. E enquanto não consegue endividamento não consegue distribuir. O Governo de Portugal não pensa em criação de riqueza, não fala em criação de riqueza. Não vejo há muitos anos um primeiro-ministro ou um único ministro a falar na estratégia de criação de riqueza.

O Orçamento do Estado entrou agora em vigor agora em janeiro com umas premissas que rapidamente vão estar ultrapassadas...

Mas isso é o habitual, é mais do mesmo.

Vamos ter de assistir rapidamente a um orçamento suplementar?

Usando uma expressão dos miúdos da escola primária, é o blá blá blá. Ou a expressão francesa de que eu gosto muito: ‘ils disent n’importe quoi’. Eles dizem a primeira coisa que lhes vem à cabeça, fazem umas contas, defendem aquilo como se fosse uma verdade suprema e depois, em tempos de incerteza, é muito difícil, não há bolas de cristal. Quanto maior a incerteza, maior a angústia na previsão. Aí estamos todos de acordo e não há melhores nem piores Governos. Aí estamos mais ou menos parecidos com o resto do mundo, fomos todos apanhados de surpresa. Quanto mais fortes formos, quanto mais robustos formos, quanto mais definida está a nossa estratégia, o nosso caminho de desenvolvimento, mais difícil será os embates fazerem-nos cair. O problema português é precisamente o contrário. Somos muitíssimo frágeis. Os Governos sucessivos endividam-se e não sabem criar riqueza. Os políticos portugueses não sabem o que é criar riqueza. Em última instância, não sabem o que é pagar salários.

O crescimento económico vai ficar aquém do que era previsto. Também a taxa de desemprego deverá disparar quando acabarem os layoffs...

Vai ser bonito, vai. Mas o problema, uma vez mais, é o mesmo. Se tivéssemos um caminho e uma visão, o país organizava-se. As escolas organizavam-se, as universidades organizavam-se, os centros de investigação organizavam-se. O exemplo da II Guerra Mundial, que é um exemplo relativamente recente, é interessante. Se pensarmos em dois países, os derrotados da guerra, Alemanha e Japão, saíram da guerra com dívidas absolutamente astronómicas e com os seus países totalmente destruídos. Passadas duas décadas – lembro-me que o 25 de Abril fará este ano 47 anos –, tanto a Alemanha como o Japão eram referências económicas mundiais, porque definiram planos estratégicos. O povo, as instituições, o dinheiro e os recursos, todos se orientaram para o mesmo caminho. Nós não temos nada disso. O que temos na nossa história? Temos os Descobrimentos e, como consequência disso, uma história mal gerida ao longo dos restantes séculos que combina com a imposição de continuarmos a colonizar no séc. XX. E temos depois a integração europeia. A história portuguesa não tem, nos últimos séculos, nenhum desígnio.

Com a integração na União Europeia contámos com ajudas financeiras...

Fomos beneficiados nas ajudas, mas tínhamos um caminho que se perdeu.

É justo os alertas que têm sido feitos para a necessidade de se saber rigorosamente para onde vai o dinheiro que vem de Bruxelas? Há quem fale na necessidade de ter uma comissão de acompanhamento...

O povo diz que gato escaldado de água fria tem medo. A experiência diz-nos que a forma como os fundos têm sido aplicados em Portugal é, em parte – não podemos generalizar, porque há muita coisa bem feita proveniente desses fundos e, se não tivessem sido esses fundos, provavelmente estaríamos numa situação ainda mais difícil –, mal aplicada, alimentou processos de perda de dinheiro e de destruição de valor. Porquê? Porque, nas últimas décadas desde o 25 de Abril, não houve uma estratégia para a economia nacional a não ser essa fase no final dos anos 80, início dos anos 90, em que o Taguspark surge claramente integrado numa visão mais global do desenvolvimento nacional. Essa foi uma exceção que se perdeu rapidamente. Volto a lembrar o plano Porter.

Voltou a ser falado com Costa Silva...

Sim, porque agora, passadas não sei quantas décadas, voltou a ver-se a importância do plano, mas isso foi conversa que durou pouco. Este povo, que vive a olhar para a televisão, que vive a olhar para os Big Brothers, a olhar para as conversas de programas da treta, tem vindo, de forma muito permissiva, a aceitar isto tudo. E a votar nisto tudo.

No caso TAP, também é permissiva a injeção de capital?

A TAP é um muito mau exemplo de gestão. É uma pena, porque é uma marca de que todos nos orgulhamos, que tem associada a si até um conjunto de elementos e indicadores históricos bastante interessantes. A TAP é uma empresa que se atrasa, em que parte substancial dos funcionários são arrogantes para os passageiros e, depois, é uma empresa que está constantemente a absorver fundos públicos. É inaceitável. Uma coisa é empresas absorverem fundos públicos em situações em que não há concorrência, em que isso é absolutamente necessário por questões de equidade social. No caso da TAP, vieram a Easyjet e a Ryanair mostrar como se faz e foram elas que aproximaram os Açores do Continente, foram elas que aproximaram a Madeira do Continente, ou seja, a TAP viu o seu território natural ser muito melhor explorado por terceiros. A culpa do desastre da TAP é da própria TAP e de quem foi, ao longo dos anos, permitindo a este bebé chorão pedinchento que a TAP é comportar-se como se comportou. Má gestão.

Mas agora tem de avançar com um plano de reestruturação muito exigente...

Planos de reestruturação, depois, vão para a gaveta. O que importa é o que se faz a seguir e a TAP é o exemplo de péssima gestão.

Mas Bruxelas vai exigir despedimentos, cortes...

Acho muito bem. É lamentável despedir. É a coisa mais difícil de fazer. Enquanto gestor, é a coisa que mais detesto fazer. Mas há situações em que não há outra solução. É preferível tomar medidas duras em determinadas situações, garantindo a sobrevivência daquilo que pode sobreviver e apostando num crescimento futuro, do que deixar cair, porque vamos todos ao fundo. A TAP é, infelizmente, um mau exemplo de gestão e é um exemplo de má gestão em Portugal.

E o Novo Banco?

É outro escândalo. Como é possível tanta aldrabice, tanta promiscuidade entre poder público, político e banca? E os portugueses continuam a aceitar. Não vou dizer nomes nem conheço o dossiê em detalhe, mas é escandaloso que continuemos a pagar essa fatura e que estes Governos ditos de esquerda continuem – e usando uma linguagem de esquerda – a proteger, muitas vezes, o grande capital em detrimento dos mais pobres. Parece que o mundo anda todo ao contrário. A social-democracia é que tem apresentado medidas mais rigorosas relativamente a dossiês que são tradicionais da esquerda. Isto demonstra bem o estado lamentável que esta sociedade portuguesa e o Estado português atingiram.

No caso do Novo Banco foi feito um acordo. A última tranche terá de ser paga este ano...

Os contratos são para ser cumpridos. O problema não é cumprir contratos, é a forma como foram feitos. Os nossos filhos e netos vão ter de pagar a fatura. É inaceitável.