Tautologias

Que será de nós?

Todos os partidos estão com medo de que se verifique uma votação determinante em André Ventura.

Tenho medo das minhas intuições. No sábado passado escrevi que «a Constituição é uma espécie de Boi Ápis, de Bezerro de Ouro, que nos obrigam a adorar».

Devia ter escrito antes que ‘a Constituição é um bezerro de ouro que o PCP, com a cumplicidade ou o servilismo dos outros partidos, nos obriga a adorar’.

‘Adorar’ era a palavra-chave que me revelou o que eu intuía mas de que não  tive imediatamente consciência. Sempre me intrigou a obsessão com que o PCP se empenha em impedir que se toque, mesmo ao de leve, na Constituição (até quando, como agora, o vírus não espera que se cumpram os seus trâmites para matar).

 Para lá do interesse óbvio de poder manter o seu projeto de bloqueamento da democracia e do desenvolvimento do país, tinha de haver uma outra dimensão, que só podia remeter para mitologias obscurantistas de seita. ‘Bezerro Sagrado’, chamei-lhe eu e acertei em cheio!  ‘Sagrada’, eis a resposta.

Comentando o que escrevi, um leitor qualificado contou a alguém o que transcrevo:

«‘A Constituição foi o Plano B do Cunhal’ – esta frase ouvi eu e mais quatro pessoas, duas ainda vivas,   da boca do Octávio Pato (em 1975 fui o subdelegado do Ministério do Trabalho em Vila Franca de Xira, e contactei variadíssimas vezes com o Octávio)».

Obscurantismo, fanatismo, é isso que tem vitimado Portugal. Seitas com reduzida expressão eleitoral,  mas com o apoio deste PS degenerescente e invadido pelo BE.

Obscurantismo, como o de  Trump.

Erros crassos, atrasos intoleráveis nas medidas e decisões, omissões gritantes, incompetência e negligência recorrente  no apuramento ou na divulgação de dados essenciais. E um primeiro-ministro transformado em porta-voz da DGS e do Governo, em vez de estar no gabinete a pensar, a procurar soluções, ideias proativas, a comandar os ministros (o que andarão eles a fazer?) e a coordenar o gabinete de crise no combate ao inimigo.

E com hospitais, médicos, enfermeiros e todo o pessoal de saúde a rebentar, gente a adoecer e a morrer  sem parar,  com todos  os especialistas  cada vez mais perplexos,  são inevitáveis as teorias de conspiração...

De uma coisa estou convencido: todos os partidos estão com medo de que se verifique uma votação determinante em André Ventura. Têm terror de que os portugueses que vieram a desistir de votar vão agora às urnas e votem em Ventura.

E, perante a tragédia e o silêncio cúmplice dos partidos, perante o ‘pântano’ que se criou, até  mesmo muitos que não concordam com as suas soluções nem se identificam com o seu estilo (mas não terá outro antes de  crescer eleitoralmente), desejarão intimamente que tenha um bom resultado.

Muitos dos que não votarão  nele desejarão que o descontentamento que ele exprime, a doença que ele identifica, tenha expressão.

Que outra forma há de protestar?

Quando o desespero vence o medo,  vem a revolta. Que aí está. Ouçam o Opinião Pública nas televisões. O Chega é um sintoma, uma primeira manifestação da vaga incontível que aí vem.

O atual Presidente da República tem o destino dos portugueses nas mãos, nas mãos  da coragem que agora  tiver. Mas mesmo quem é seu amigo começa a recear que não a tenha.