Economia

Aviação de asas cortadas e sem retoma à vista

A pandemia não permite ao setor da aviação levantar voo. As estimativas degradam-se de dia para dia e apontam para uma retoma apenas em 2024 ou mesmo em 2026.

A aviação continua sob o signo da crise e da incerteza. O agravamento do contexto pandémico em Portugal e na Europa – nomeadamente com o aparecimento da nova variante britânica da covid-19 – tornou a virar do avesso as estimativas mais otimistas de entidades e especialistas. 

As novas medidas de restrição dos Governos devem travar, nas próximas semanas, a procura e o movimento de passageiros. Os aviões voltam a estacionar nas pistas, sem prazo para regressarem aos níveis de tráfego pré-pandemia. A TAP, por exemplo, apontava operar entre 19% e 28% de voos nos meses de fevereiro e março, em comparação com o mesmo período de 2020, de acordo com uma estimativa interna divulgada aos trabalhadores pelo presidente da comissão executivo, Ramiro Sequeira. A evolução do vírus não deverá, porém, permitir que estes números sejam alcançados. O nosso jornal sabe que existe essa consciência por parte dos responsáveis, tendo em conta a desaceleração que já tem vindo a verificar-se na marcação de reservas nas últimas horas.

Ao Nascer do Sol, a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) refere que as previsões do Eurocontrol indicam que, em 2021, apenas se poderá chegar «a um nível de concretização de 73% dos valores de 2019», mas, mesmo assim, num cenário de otimismo, com uma vacina eficaz. Caso contrário, poderão realizar-se apenas «cerca de metade dos voos de 2019». «Os cenários mais pessimistas, que admitem ainda bastantes restrições no verão de 2021, apontam para -57% de tráfego no terceiro trimestre de 2021 e -54% no quarto trimestre, comparativamente com 2019», informa a ANAC, que apresenta dados pessimistas para a recuperação: «De acordo com as estimativas do Eurocontrol, a recuperação total do tráfego não deverá ocorrer antes de 2026».

A verdade é que o clima de confiança num regresso à normalidade, acompanhando o arranque dos planos de vacinação, tem vindo a piorar à passagem de cada dia, semana ou mês. As mais recentes estimativas da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA na sigla em inglês) apontam para «uma recuperação mais lenta» que as previsões anteriores. Numa análise a breve trecho, a associação avança que o número de passageiros até pode aumentar em 2021 em relação à redução acentuada de 2020, mas que, ainda assim, «será inferior em quase 30% em comparação com 2019». Pesem embora estes números, a IATA apresenta uma maior dose de confiança na recuperação total, apontando para 2024 a possibilidade de serem alcançados os níveis que se verificavam antes da pandemia. 

Ao Nascer do Sol, a ANA – Aeroportos de Portugal, empresa que administra os principais aeroportos em território português – como Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Ponta Delgada –, explica que «o setor da aviação é fortemente afetado pela covid-19 e a situação atual, ainda com demasiadas incertezas, não permite prever a data da sua recuperação».

A realidade afeta o setor e, por arrasto, as economias nacionais, a atravessarem uma crise devido à pandemia, principalmente as que são mais dependentes do turismo, como é o caso de Portugal. A ANA – Aeroportos de Portugal, integrada no grupo francês Vinci Airports desde 2012, não esquece este fator: «A recuperação do setor da aviação é fundamental para a recuperação das economias. O desenvolvimento da operação aeroportuária tornou-se essencial para o crescimento turístico de Portugal». Os aeroportos portugueses «continuam a cooperar empenhadamente, junto do Governo português, em assegurar que a capacidade e a excelência aeroportuárias contribuam fortemente para a recuperação económica do país», acrescenta a empresa.

Mas para que os aviões possam tirar as rodas do chão vai ser preciso aguardar com paciência. E, mesmo assim, tudo dependerá da imprevisível evolução da pandemia. «Note-se que o tráfego é retomado quando as medidas mais restritivas são aliviadas ou levantadas. Assistimos, por exemplo, a um crescimento do tráfego aeroportuário durante os meses de verão. Isto demonstra que as pessoas querem viajar e estão confiantes nas medidas sanitárias implementadas nos aeroportos e nos aviões», refere a ANA – Aeroportos de Portugal a este semanário.
 A ANAC recorda que «o contexto nacional tem acompanhado as tendências europeias e, sendo o transporte aéreo profundamente dependente da atividade turística, prevê-se uma recuperação mais demorada da confiança dos passageiros no transporte aéreo». A entidade destaca as medidas que têm vindo a ser tomadas «dirigidas às companhias aéreas e aeroportos», no sentido de «devolver a confiança aos utilizadores do transporte aéreo no âmbito da segurança sanitária», por iniciativa conjunta da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO na sigla em inglês), Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA na sigla em inglês) e Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC na sigla em inglês).

Recordes negativos em 2020

É preciso recuar até 1998 para encontrarmos paralelo com os números do setor da aviação em Portugal verificados no ano passado. Em 2020, a NAV Portugal, que acompanha o tráfego aéreo, registou 345,3 mil voos, menos 58% do que em 2019 – a pior marca em 22 anos. E os números até poderiam ter sido bem piores pois, nos primeiros meses após a pandemia ser decretada, os efeitos no tráfego aéreo foram imediatos, com os voos geridos pela NAV Portugal a caírem para 94% em abril, 92% em maio e 88% em junho, em comparação com os mesmos meses de 2019. O verão veio mitigar esta quebra... mas não o suficiente. 

O caso da TAP é exemplo disso mesmo. A companhia aérea fechou o ano com 5,5 milhões de passageiros transportados, o que representa uma queda de 67,4%, equivalente a 11,5 milhões de pessoas, em comparação com 2019 (ano em que transportou um número recorde de 17,1 milhões de passageiros). 
Nos principais aeroportos do país foram transportados perto de 18 milhões de passageiros em 2020. «Depois de um pico durante o verão, houve uma penalização no quarto trimestre causada pelas novas restrições impostas em França, Reino Unido e Alemanha, em particular», de acordo com dados da Vinci Portugal. Feitas as contas, o número de passageiros nos principais aeroportos portugueses diminuiu 69,6% no ano passado face a 2019. A maior quebra foi registada no aeroporto de Faro, onde o tráfego de passageiros recuou 75,5%, seguido dos aeroportos de Lisboa (-70,3%), Açores (-69,6%), Porto (-66,2%) e Madeira (-63,6%).