Falar Baixinho

Há muito que os jovens deviam ter ido para casa

Depois do desastre causado pela falta de medidas no Natal, esperava-se que o Governo agisse de forma rápida com medidas mais eficazes.

Com o desgoverno do Natal e passagem de ano, o número de casos diários em Portugal disparou para o segundo maior do mundo por milhão de habitantes e para o primeiro da Europa. Já diz o ditado, ‘casa assaltada, trancas à porta’. Mas nem foi isso que aconteceu. As medidas tomadas apareceram de forma tímida e lenta e muitas nem sequer foram respeitadas.

O fecho das escolas a partir dos 12 anos, idade a partir da qual o contágio parece ser maior e os alunos estão mais preparados para o ensino à distância, esteve em cima da mesa demasiado tempo. Sempre defendi que as escolas deviam ser a última coisa a fechar, por todo o impacto que isso acarreta para alunos e famílias, que já foram tão prejudicados.

Mas este era o momento em que mais alguma coisa tinha de ser feita. No início do ano letivo foi anunciado que as escolas iriam funcionar preferencialmente em regime presencial, mas poderiam passar a não presencial ou misto tendo em conta o avanço da pandemia. O que se imaginava na altura ser necessário para retomar o ensino à distância? Alguma vez se concebeu sequer um panorama destes?

É verdade que as escolas não foram o grande foco de contágio. Os jovens estiveram quase sempre de máscara e o distanciamento foi vigiado de perto. O que explica que haja apenas 78 surtos ativos no total das 8250 escolas do país. No entanto o número de infetados na faixa etária dos 13 os 24 anos está a subir e, fora da escola, os jovens comportam-se de maneira diferente. Mal passam o portão, muitos tiram a máscara e vão juntos pela rua. É muito difícil para um adolescente – habituado a pisar o risco, a transgredir, a definir as suas próprias regras – assumir uma atitude mais responsável. Ainda mais numa idade em que os sentimentos e vontade de viver se deslocam à velocidade da luz e a proximidade com os outros é fulcral. 

Neste momento em que os hospitais se aproximam do ponto de rutura e em que ouvimos apelos diários de médicos, cientistas, matemáticos e dirigentes para que se feche tudo, foi incompreensível que as escolas continuassem abertas tanto tempo. Não só pelo que se passava dentro do recinto escolar, mas sobretudo para limitar a circulação de jovens no exterior. O impacto de 15 dias ou um mês de ensino à distância não teria sido significativo, e possivelmente hoje não estaríamos como estamos. Mesmo o facto de o 3.º ciclo e secundário não terem fechado e de não ter havido controlo dos jovens na rua deu-lhes uma sensação de segurança e impunidade.

Numa altura como esta não precisávamos da simpatia do Governo, mas de decisões sensatas, firmes e certeiras, bem como da fiscalização necessária para o seu cumprimento. Depois do desastre causado pela falta de medidas no Natal, esperava-se que agisse de forma rápida com medidas mais eficazes, passando uma mensagem clara e adequada. Mas como pode alguém compreender a mensagem certa, quando de uma forma obstinada e irresponsável – quase se diria adolescente… –, a campanha eleitoral se mantém e as eleições não são adiadas?