Opiniao

Cortaram o pio ao Trump

A questão Trump dividiu os executivos do Twitter em duas fações. A primeira pediu para a conta ser banida pois entende que o discurso de Trump não pode ter palco na plataforma. A segunda, defendida entre outros pelo CEO da empresa Jack Dorsey, defendeu que as pessoas se podem manifestar mesmo que as suas posições sejam «hediondas». 

O Twitter cancelou a conta de Donald Trump. Muitos dirão «é bem feito» e que a decisão só peca por tardia. Mas será que é este o caminho para travar o discurso de Trump e de outros como ele? Podemos estar a criar um precedente perigoso e a dar força a quem menos queremos. 

A decisão sobre a conta de Trump surge na sequência do assalto ao capitólio instigado pelo próprio presidente. O Twitter suspendeu a conta e horas depois cancelou a @realDonaldTrump, justificando que as publicações do presidente violavam as regras da plataforma. 

A questão Trump dividiu os executivos do Twitter em duas fações. A primeira pediu para a conta ser banida pois entende que o discurso de Trump não pode ter palco na plataforma. A segunda, defendida entre outros pelo CEO da empresa Jack Dorsey, defendeu que as pessoas se podem manifestar mesmo que as suas posições sejam «hediondas». Prevaleceu a primeira opção e o Twitter baniu uma conta com mais de 80 milhões de seguidores muito ativos. Fechou a conta mais importante que algumas vez teve. E porquê? Porque quis! 

O Twitter é uma plataforma de partilha de conteúdos, que faz cumprir um regulamento que todos os utilizadores aceitam. Entre outras, o regulamento tem previstas sanções como a suspensão ou barramento da conta para quem não o cumpre. O Twitter tem toda a legitimidade para decidir quem pode e quem não pode estar na rede. Mas ainda pode mais.

A partir do momento em que sinaliza publicações para verificação de factos e recomenda fontes, toma decisões sobre quem pode publicar e o que pode dizer, o Twitter está a definir como se conta a história. Alguma semelhança com outro tipo de mecanismos de controlo da liberdade de opinião e expressão pode ser só pura coincidência. Ou não. Nas palavras do CEO da companhia, Jack Dorsey, «a ban is a failure of ours ultimately to promote healthy conversation».

Ideologias à parte o efeito prático é semelhante: uma plataforma global, onde convivem milhões de pessoas e por onde passam algumas das mensagens mais importantes do mundo, frequentemente em primeira mão, é gerida por alguém que legisla, avalia e executa a seu bel prazer. 
Deixar que a circulação de conteúdos seja determinada por critérios definidos por uma empresa privada, a atuar num setor que se auto regula e que não pode ser responsabilizada pelos conteúdos que veicula, apesar de os poder censurar, é assustador. 

Antecipar tendências ou acontecimentos para 2021 é um exercício arriscado. Mas há uma forte possibilidade de, num futuro próximo, termos uma regulação diferente das redes sociais. É muito ténue, se é que ainda existe, a linha que separa o Facebook ou o Twitter de serem produtores de conteúdos, mas se considerarmos apenas a audiência estamos perante os dois principais canais à escala global. Permitir que sejam os próprios a legislar, decidir e executar, sem escrutínio externo, sobre tudo o que se passa incluindo o que os utilizadores podem ou devem dizer, é um risco muito pouco calculado. Que estranha forma de liberdade.