Personagem

Madame Lenormand: Dos baralhos de cartas a uma vida baralhada

Segundo a própria, leu o futuro de todas as grandes figuras da Revolução Francesa, de Marat a Robespierre. Foi autora de textos controversos, uma mistura de sibila com trafulha. Marie Anne não deixou ninguém indiferente no seu tempo, fez fortuna e pagou com o cárcere o seu descarado atrevimento.


No meio daqueles personagens carregados de mistério, Marie Anne Adelaide Lenormand tem um espaço muito particular. Nasceu no seio de uma família remediada e o pai, Jean Antoine, era alfaiate, embora não suficientemente bom para somar clientes aos borbotões. A infância de Marie Anne decorreu em Alençon, mas a verdade é que nem Jean Antoine nem a mãe da criatura, também chamada Marie Anne, não tinham um pingo de paciência para garotos e trataram de a despachar para um convento de freiras ao mesmo tempo que se punham a caminho de Paris convencidos de que haveria por lá gente mais elegante a precisar da tesoura e dos alfinetes do pai desnaturado.

Para trás deixavam uma criança confusa entregue a um nunca mais de beneditinas fanáticas que terão servido muito pouco para a colocarem no caminho certo da vida que aí vinha. Em 1786 (nasceu no dia 27 de maio de 1772), fartou-se pura e simplesmente daquilo que considerava uma grandessíssima estucha, emalou meia-dúzia de camisas e fez-se à estrada. Destino? Paris, claro está! Nesse tempo quem queria ser alguém tinha de abrir espaço na capital de França. E Marie Anne, a despeito da falta de carinho com que foi tratada durante toda a sua vida, tinha uma ambição desmedida, como se verá já daqui a algumas linhas.

De Alençon, à mistura com a sua bagagem minimalista, levou igualmente uma convicção profunda que tinha sido uma eleita de Deus para adivinhar o futuro dos seus concidadãos, ajudando-os nas suas fases de sofrimento e indicando-lhe a rota a seguir nas alturas mais confusas da sua vida. À verdade é que Marie Anne também foi bastante confusa a todo o comprimento dos seus 71 anos de existência. Mas se era fama que queria, a fama entrou-lhe pela porta dentro. 

A sibila
Instalada em Paris, tratou de fazer correr a palavra no seio da grande sociedade: Madame Lenormand, nome artístico que adotou estava disponível para entrar nos segredos mais íntimos de condes, viscondes, marqueses e príncipes, lendo-lhes o futuro através de um baralho de cartas que criara para o efeito. O famoso baralho de Marie Anne é similar ao que se utiliza no tarot. Os desenhos e os números das cartas serviam-lhe, segundo a própria, para estabelecer uma estrutura de interpretações que iam sendo lidas à medida que as espalhava sobre a mesa. O seu método abriu-lhe uma série de portas pelas quais entrava com a aura de sibila e das quais saía com mais umas valentes notas de francos nos bolsos. A aura de mistério espalhou-se. E  nada como o mistério para exacerbar a curiosidade. O oculto estava na moda. O exoterismo das cartas e das imagens que refletiam mantinham todos os que estavam dispostos a abrir os cordões à bolsa numa espécie de suspense excitado que Madame Lenormand soube aproveitar com insistente mestria. Curiosamente, o baralho de Marie Anne só se tornou verdadeiramente universal após a sua morte, em Junho de 1843.

Claro que, mal souberam que ela repousava debaixo de sete palmos de terra no cemitério Pierre Lachaise, surgiram imitadoras como se fossem cogumelos, o que serviu para baralhar seriamente os historiadores que procuraram decifrar o fascínio que a mulher provocava fosse onde fosse. Dezenas de baralhos parecidos foram investigados antes de o curador do Museu Britânico ter definido uma réplica em tudo correspondente ao da cartomante, deixando para trás uma série de intenções pouco críveis. Aliás, a febre Lenormand subiu de tal forma nos termómetros logo após a sua morte que, nos dois anos seguintes, apareceram no mercado um baralho de 54 cartas chamado Le Grand Jeu de Mlle. Lenormand e outro de 36 cartas apelidado de Petit  Lenormand. Mergulhada no frio da sua tumba, Marie Anne nada podia fazer contra a charlatanice que proliferava em seu nome. Quanto muito dar pulos na cova. Algo que, no dia a dia da sua existência terrana ninguém reparou.

Fraudes
É preciso dizer que Marie Anne Adelaide Lenormand também não era flor que se cheirasse no que respeita à integridade. Se a sua profissão exigia aos clientes uma dose reforçada de credulidade, os boatos que tratou de espalhar por Paris viajaram pelas capitais da Europa ao ponto de fazerem dela uma personagem digna de uma peça de Molière. Em menos tempo do que leva a riscar um fósforo já se tinha encafuado nos salões da alta burguesia parisiense e muitos dos entrepreneurs da época trataram de se convencer a si próprios que qualquer negócio levado a bom cabo se devia aos conselhos de Madame Lenormand.

Nada melhor do que a publicidade de boca em boca. E Marie Anne não fazia as coisas pela metade. Tratou de propagar que já aconselhara, através da leitura de cartas, gente da estirpe de Marat e Robespierre, líderes da Revolução Francesa, bem como a imperatriz Josephine, esposa de Napoleão Bonaparte, e o czar Alexandre I, sem faltar o célebre compositor polaco Frédéric Chopin, que entretanto se radicara em França. Se o fez, esses seus famosos clientes nunca o confessaram pelo que muito do que escreveu sobre eles em livros que começou a publicar em 1814 provocaram natural escândalo. Acabou por ser presa por mais do que uma vez por via das queixas de devassa da vida privada que pendiam sobre ela. 

Se todas as obras que lhe são atribuídas, desde Les souvenirs Prophétiques d’une Sibylle sur les Causes Secrétes de son Arrestation a Mémoires Historiques et Secrets de l’Impératrice Joséphine, Marie-Rose Tascher-de-la-Pagerie, Première Épouse de Napoléon Bonaparte, de Les Oracles Sibyllins ou la Suite des Souvenirs Prophétiques a Arrêt Suprême des Dieux de l’Olympe en Faveur de Mme. la Duchesse de Berry et de son Fils, sem esquecer o curiosíssimo Histoire de Jean VI. de Portugal, Depuis sa Naissance Jusqu’à sa Mort en 1826, é fácil imaginar que desbaratou muitas amizades. Não perdoou sequer os segredos de alcofa que lhe eram transmitidos sob a máxima confiança e dentro de uma boa-fé inabalável. Como seria de esperar, as perseguições multiplicaram-se. Mais de meia Paris não se sentia segura perante o que Marie Anne poderia publicar de um dia para o outro. As penas que veio a sofrer, após ser conduzida perante a justiça, não eram, no entanto, tão graves que merecessem a guilhotina. Basicamente, as suas estadias no cárcere não passavam de vilegiaturas. 

Apesar dos sarilhos que resolveu arranjar, não deixou de ter clientes. O mais clandestinos possíveis, mas ia lá saber-se quando Madame Lenormand resolveria dar com a língua nos dentes. Ou com a pena no papel, que vem aqui mais a propósito. O elo de confiança quebrara-se. E nada é mais difícil de recuperar do que a confiança...

Sinistro
A fase mais sinistra de Madame Lenormand surge com uma estranha ligação. O fulano dava pelo nome de Arno Victor Dorian e fez parte da Irmandade dos Assassinos que surgiu na altura da Revolução Francesa. Tinha um jeito especial para fazer amizades e tornou-se um compincha do próprio Napoleão, bem como de Georges Danton e do Marquês de Sade. O seu método era cirúrgico, tal como ordenavam as regras e pôs fim ao complô que estava a ser urdido  por François-Thomas Germain, um Grande Mestre da Ordem dos Templários que tomara como princípio de vida levar o caos à sociedade francesa de então com o fito de enfraquecer a monarquia.

Madame Lenormand, cuja estrutura intelectual se degradava a olhos vistos, tomou Arno como seu cúmplice e este era visto cada vez com mais frequência na mansão de Pont Saint-Michel onde ela habitava. Habituada a dominar mentes fracas, Marie Anne fazia sortidas noturnas com o seu novo companheiro, indicando quais os inimigos que tentavam tudo para a afastar da corte e esperando que Dorian cumprisse, depois, o serviço de degolá-los. A associação entre ambos tinha tudo para dar para o torto e deu mesmo. Não escaparam à cadeia e, desta vez, só um qualquer gesto divino salvou Madame Lenorman da morte a que fora condenada. Para seu alívio, muitos daqueles  que estavam dispostos a testemunhar contra ela, revelando as suas práticas fraudulentas, tinham sido despachados pelo solícito Arno e, como se calcula, não estavam em condições de voltar a abrir a boca.

Em Mémoire Justificatif Présenté par Mlle Le Normand, Marie Anne Adelaide Lenormand teve o descaramento monumental de se considerar acima dos mortais. Segundo a sua teoria, a imortalidade entranhara-se-lhe no corpo como a filoxera se entranha nas uvas. A Senhora da Gadanha esteve-se positivamente nas tintas para o seu vaticínio, tivesse ou não sido lido nas famosas cartas. Levou-a consigo no dia 25 de Junho de 1843. Pelo caminho enriquecera e bem. À data da sua morte deixou 500 mil francos ao seu único herdeiro, um sobrinho que militava no exército. O moço era um devoto católico-apostólico-romano. Tratou de embolsar o dinheiro e deitou fogo a todo o material ligado ao ocultismo que a tia cuidara com carinho maternal. Era assunto sujo para a sua mente religiosa. l