Retratos Contados

Dever Cívico

Recordo-me de uma peça jornalística, no dia do funeral do Mário Soares, em que a jornalista perguntava a um jovem de vinte e tal anos: «Que importância teve Mário Soares para a Liberdade em Portugal?» Ao que o jovem respondeu muito orgulhoso:  «Bem, não sei ao certo. Mas sei que este senhor era um velhote do PS!».


Por Nélson Mateus 

Querida avó,

Este domingo é dia de Eleições Presidenciais. Lembro-me de crescer a ouvir o meu avô Alberto a falar da importância do voto. O avô Alberto era analfabeto. No entanto, sabia muito sobre a importância da democracia e do valor do voto de cada um. Cresci a ouvir as histórias da vida real que o avô Alberto me contava: sobre os papéis que apanhava nas ruas, de madrugada, e que os escondia para serem lidos pelos meus pais. Depois de lidos, eram queimados pelas chamas do fogão a lenha que, na cozinha, estava sempre aceso; sobre a censura; sobre os assuntos e ajuntamentos proibidos; sobre a falta de condições para os trabalhadores; sobre a PIDE; sobre os ‘bufos’, e muito mais.

O avô Alberto era analfabeto, mas sabia muito bem o que era trabalhar de sol a sol e, ainda assim, o dinheiro não chegar para nada. Sabia que os direitos não eram iguais para todos. Sabia a dificuldade que existia no acesso à saúde, ao ensino e muito mais.

O avô Alberto exibia com orgulho o seu cartão de eleitor. Só começou a votar em 1945, o ano em que começou a ser permitido o voto aos homens analfabetos. Às mulheres só foi permitido votar nas primeiras eleições pós-25 de Abril, em 1975. Posso não ter herdado do avô Alberto a mesma cor e convicções políticas. No entanto, herdei a responsabilidade de votar. Todos damos a democracia e a liberdade como direitos garantidos. Mas ainda recentemente assistimos à invasão do Capitólio nos EUA. A democracia e a liberdade podem ser direitos consagrados na Constituição da República, mas a vida dá muitas voltas…

Faz-me muita confusão ver a realidade partilhada em certas peças jornalísticas na televisão. Nas eleições anteriores, vi um jornalista que andava com fotos de candidatos presidenciais na mão, a perguntar às pessoas se sabiam quem eram. Muitas pessoas não sabiam… mesmo com tantos cartazes nas cidades e debates na tv. Provavelmente, essas pessoas sabem os nomes dos nomeados dos reality shows, mas não lhes interessa quem nos governa.

Recordo-me de uma peça jornalística, no dia do funeral do Mário Soares, em que a jornalista perguntava a um jovem de vinte e tal anos: «Que importância teve Mário Soares para a Liberdade em Portugal?» Ao que o jovem respondeu muito orgulhoso:  «Bem, não sei ao certo. Mas sei que este senhor era um velhote do PS!».

 

Por Alice Vieira

Querido neto,

Devo ser das poucas pessoas que ainda se lembram, nitidamente!, de ir a um lugar onde estava muita gente a falar alto e a bater palmas e alguns a gritarem por um único nome: Norton de Matos. 

Nessa altura eu tinha 5 anos e era criada pelo meu Tio Joaquim, republicano de gema, que me estava sempre a mostrar as cicatrizes que tinha na perna por ter estado na Rotunda a lutar pela República no dia 5 de Outubro de 1910. O meu tio entrou em todas as conspirações para deitar abaixo o Estado Novo. E levava-me sempre com ele. Chegava ao café – a Leitaria Persa, no Rossio, onde se reuniam os conspiradores. Largava-me em cima do balcão e eu adorava lá estar porque todos os que entravam se metiam comigo, uma criança no meio daqueles homens todos, e eu empanturrava-me de chocolates que eles me davam. Claro que todas as conspirações falhavam. O Salazar intrometia-se em todos os assuntos, proibia tudo, e ele acabou por desistir. A minha primeira experiência eleitoral acabou aí.

Passados 10 anos, andava eu no então 5º ano do liceu Filipa de Lencastre, surgem novas eleições. Toda a gente que estava contra o Estado Novo se uniu em volta da candidatura de Humberto Delgado. E lá voltei eu aos comícios e mais comícios. Foi aqui que participei efectivamente pela primeira vez numa campanha eleitoral. Não faltava a comícios, distribuía propaganda, tentava levar outras pessoas. E depois foi o que foi. A maior fraude eleitoral de que há memória. Considerei-me vacinada. Ninguém nunca iria conseguir nada.

Claro que foi havendo eleições fantoches, o candidato do regime, sempre. Eu nem saía de casa. Até que veio o 25 de Abril — e tudo mudou. Nunca me hei-de esquecer das filas e filas para se ir votar nas primeiras eleições  livres. E, claro, a partir daí, nunca deixei de votar— e ainda hoje aceito muito mal quem se abstém. Não gosta de nenhum candidato? Não interessa, vai lá e vota em branco, isso significa «quero participar nas não quero nenhum destes». É uma presença. Não é virar as costas e assobiar para o ar.

E lá temos tido eleições, com gente boa, com gente má, com  gente assim assim, mas eleições democráticas.
Nunca influenciei os meus filhos nem os meus netos em nada! 

Nunca lhes perguntei em quem eles votam. Mas tenho a certeza de que votam bem. Acima de tudo, tenho a certeza que eles votam, sempre! E isso é o mais importante nas eleições.