Cultura

Luís Fernandes: "O saber, para mim, é um palácio Com muitas divisões"

Psicólogo de formação e professor universitário, sempre gostou de ‘trabalhar nas fronteiras’. Aos 50 anos, mais de uma década depois de ter perdido a visão, fez um curso de massagem e descobriu um mundo novo. ‘Ao entrarmos no nosso corpo entramos mais em nós’, defende.

Nascido no Porto em 1961, Luís Fernandes aprendeu a ler e a escrever com a mãe, que era professora primária. Durante a juventude queria ser escritor, mas acabou por licenciar-se e doutorar-se em Psicologia. Praticante de atletismo a nível amador, aos 34 anos perdeu a visão e aos 50, «por brincadeira», inscreveu-se num curso de massagem terapêutica. A descoberta dos benefícios do toque e da ligação entre o corpo e a mente foi uma epifania. Em As Lentas Lições do Corpo (ed. Contraponto) fala-nos de onde o levou essa descoberta e mostra até que ponto descuramos e desconhecemos o nosso corpo, apesar de ele ser objeto de culto na nossa sociedade. Admite que a sua abordagem não é convencional e que «algumas pessoas dentro do ‘sistema oficial’ da psicologia não acharão muita piada» a certas considerações que faz no seu livro. «Mas isso é para o lado que durmo melhor».

Há uma frase, julgo que de Shakespeare, que diz ‘A Terra tem uma música para aqueles que sabem ouvir’. O corpo também fala connosco se o escutarmos?

Sim. Agora, a escuta do corpo não é fácil numa sociedade que historicamente lhe deu pouco valor e que atualmente, dando-lhe valor, o valoriza sobretudo pelo lado da imagem, da performance e da projeção pública. Não é esse o corpo que eu quero que as pessoas descubram ao ler o meu livro.

Fala-nos do culto das aparências. Dá-nos o exemplo dos ginásios, das dietas, das operações plásticas, das tatuagens, da maquilhagem – e não dá, mas poderíamos acrescentar, o exemplo das selfies. Parece que nunca nos olhámos tanto ao espelho, mas ao mesmo tempo há um grande desconhecimento em relação ao corpo.

Acho que essa imagem do espelho é perfeita. Aliás, de tanto nos olharmos ao espelho só queremos ser espelho, não nos voltamos de costas para ele para nos vermos diretamente. A sociedade da imagem é poderosa e as pessoas são muito condicionadas por isso. Por exemplo, uma pessoa obesa hoje é olhada como alguém que carrega uma culpa: ela é assim porque não fez nada para ter um corpo ‘como deve ser’. Há uma valorização de um determinado padrão de corpo…

Um cânone?

Um cânone. Tal como nos comportamentos existe um padrão considerado desejável, nos corpos também. E fora desse padrão de desejabilidade entramos naquilo que vai ser alvo de desconfiança ou mesmo de condenação aberta. Isto tanto é verdade para os comportamentos como para os corpos. O direito penal diz-nos o que não podemos fazer, e se fizermos é crime. Para o corpo não existe algo de tão nítido, mas há condenações implícitas, sub-reptícias, sociais.

Ao mesmo tempo, a obesidade também pode estar associada ao pecado da gula. A forma como encaramos o corpo ainda é uma herança do domínio da Igreja sobre as mentalidades?

Claro, vem da nossa matriz ocidental judaico-cristã. Tal como os indivíduos têm um inconsciente, de que Freud falou com tanta eloquência e com tanto material clínico, existem formas culturais que são inconscientes. Não estamos cientes delas a cada momento, mas elas estão cá. A nossa matriz ocidental judaico-cristã fez do corpo a sede daquilo que pode tentar-nos a desviar-nos do reto caminho, a sede do vício, do pecado. Falou na gula, mas poderíamos falar na luxúria, também. Isso está cravado no inconsciente de todos nós. Não quer dizer que não possamos libertar-nos.

Como?

Ao longo do livro falo muito do Wilhelm Reich, que faz propostas de como tanto culturalmente como individualmente nos deveríamos livrar desta carga, que começa logo no corpo e nos tabus sobre ele. O Reich tem uma frase que é: ‘Não há revolução sem revolução sexual’. Por revolução sexual ele entende justamente podermos viver o prazer sem o peso da culpa, por exemplo. E o prazer é mais do que o sexo, é a possibilidade de eu expandir a minha energia de um modo criativo, de um modo que seja satisfatório para mim e para os que me rodeiam. A mensagem reichiana era de viver em expansão em lugar de retração.

Pode explicar melhor?

Tudo na natureza obedece aos ciclos retração/ expansão ou, se quiser, carga/ descarga. O planeta Terra à noite arrefece e de dia aquece e expande, e os seres vivos que habitam na sua superfície mexem-se durante o dia e retraem-se durante a noite; as ondas do mar, o ciclo fluxo/ refluxo é outro exemplo; ou a forma como os organismos menos diferenciados se deslocam, por retração/ expansão.

Os caracóis, por exemplo?

Também. Há uma corrente da psicologia chamada bioenergética que radica em Reich e que fala no movimento da medusa. Esse movimento de retração/ expansão é usado em terapias psicocorporais, como modo de reequilibrar as nossas energias vitais, orgânicas, que nos circulam a todo o momento no corpo e que normalmente estão em estado de contração. Porquê? Porque estamos com stresse, porque temos sobrecarga de trabalho, porque sentimo-nos vigiados. As crianças muitas vezes sentem uma carga enorme tanto em casa como na escola. Essa sobrecarga provoca estados psicológicos que contraem o corpo. Daí as dores. Muitas vezes as dores de costas, de pescoço, cervicais, resultam da retração do corpo derivada de razões psicológicas. Nas nossas sociedades stressadas e com excesso de tarefas para uma única jornada, sociedades em que o tempo é tirânico, o corpo defende-se retraindo-se.

Forma quase uma carapaça?

Sim, Reich falava em couraça. Está lá perto. Ele por couraça muscular entendia zonas do corpo que se tornam cronicamente rígidas e que estão assim por defesa perante condições psicológicas adversas.

O corpo é quase uma espécie de saco de pancada para onde vamos aliviando as tensões?

É um saco de pancada. Acontece que a maioria das pessoas não tem noção de que alguns padecimentos físicos resultam da vida emocional. A parte cortical, que é a parte consciente, não lida com certo conteúdo angustiante e a energia ligada a esse conteúdo fixa-se corporalmente, por exemplo na forma de desplasticidade do músculo, às vezes nas vísceras, nomeadamente o intestino. Ao fazer isto deixamos de nos ocupar desses conteúdos – ou seja, eles estão a fazer mossa mas nós não sabemos. E no fundo a vida de muitos de nós é andar a empurrar para a frente coisas que não se resolvem e que se vão fixando corporalmente. Esta resolução pela via corporal do conflito psíquico ainda é muito pouco trabalhada pelas ciências psicológicas convencionais. A psicologia não tem sabido fazer uma crítica do dualismo cartesiano em que há a cabeça e o corpo – e a psicologia só se interessa pela cabeça.

E será depois a medicina propriamente dita a ocupar-se do corpo…

Lá está, a forma como dividimos as disciplinas científicas ao longo da modernidade também respondeu a este dualismo cartesiano. Há as que se ocupam do corpo, há as que se ocupam do espírito, como se não tivessem de comunicar. Continuamos com uma medicina dos órgãos, como lhe chamava Michel Foucault, e depois as especialidades também são assim organizadas – o cardiologista, o neurologista, o pneumologista, o dermatologista…

Cada um trata do seu departamento?

E à medida que os anos avançam e ele se hiperespecializa no seu órgão vai-se afastando de uma visão holística do nosso funcionamento.

É quase como uma linha de montagem em que cada um aperta o seu parafuso. Vê o excesso de especialização como um entrave?

Sim, e é muito difícil sair daqui. Nós avançámos tanto no conhecimento em todas as áreas, cientificizámos tanto as nossas vidas, que o corpo de conhecimentos a transmitir a um jovem de 18 anos que entra na universidade é de tal modo vasto…

Que tem de haver uma dedicação exclusiva?

Claro. Por isso defendo que nos curricula universitários deve haver disciplinas mais transversais que proporcionem uma abertura do pensamento dos estudantes às outras áreas e sobretudo ao pensamento crítico. É aquilo que o Abel Salazar traduziu numa frase, quando disse: ‘Um médico que só sabe medicina nem medicina sabe’. Às vezes começo as minhas aulas dizendo isto aos meus alunos: ‘Se vocês no fim do ano só souberem psicologia nem psicologia sabem’.

A certa altura diz-nos que «passar do corpo que existe ao corpo existencial exige uma epifania». Teve uma epifania?

[risos] Tive. No sentido laico do termo, sim.

E então como foi?

Foi um bocado por brincadeira. No ano em que fiz 50 anos resolvi fazer um curso de massagem terapêutica. Andei muitos anos nas corridas de fundo e tinha a noção da importância do meu corpo… Aliás, quando perdi a visão – tinha 34 anos, por aí – sei bem a importância que teve para mim ter toda uma destreza física que me tinha sido dada por muitos e muitos treinos a correr em pisos diferentes – em corta-mato, em alcatrão, em areia, em montanha…

Em que medida isso o ajudou a lidar com a adversidade?

Ajudou porque, quando se perde a visão, caminhamos sem saber se há chão. O mundo torna-se um lugar inóspito em nosso redor porque em todo o lado pode estar uma ameaça à nossa integridade física. E quanto mais confiança tiver nos seus gestos, no seu corpo, na sua destreza, melhor vai enfrentar esta adversidade. Voltando à tal epifania. Quando fiz 50 anos resolvi fazer um curso de massagem terapêutica – ao sábado, porque tinha a minha vida profissional. Depois resolvi transformar isso numa atividade de tempo livre, fazer massagem com objetivo de bem-estar, terapêutico, mas também de descoberta do próprio corpo. Há uma consciência do corpo à qual as nossas sociedades dão pouca importância.

Está entorpecida, adormecida?

Essas palavras resumem bem aquilo a que eu chamo ‘o corpo calado’. Andamos muito ocupados com as nossas tarefas intelectuais, com a vida do dia-a-dia, e a primeira vez que o corpo fala é quando algum órgão avaria. O corpo está calado e de repente queixa-se, dá um grito. Aí sim, começamos a dar atenção ao corpo e a querer recuperar o tempo perdido, a querer regenerá-lo depois de tantos anos sem lhe darmos atenção. Aquilo que descobri através das pessoas que faziam massagem comigo é que esse trabalho corporal potenciava a pessoa estar atenta a si própria e ao seu psiquismo. Descobria coisas em si. Quando entramos no nosso corpo entramos mais em nós, na parte psicológica, ou seja, a consciência corporal desenvolve a outra consciência.

Conta que alguns amigos brincavam consigo, ironizavam até, quando lhes disse que estava a estudar massagem. Isso mostra o desprezo que temos em relação ao corpo?

O que esses comentários de colegas revelavam, a meu ver, é o modo como continuamos presos ao tabu do corpo, e portanto o tema imediatamente evoca ironias, piadas, que são coisas que fazemos sempre que pressentimos uma atmosfera em que pode existir erotismo. De repente, quando falo em massagem, o fantasma erótico aparece. E por isso é que há risinhos.

Quando faz massagens consegue ver através das mãos? Consegue descobrir coisas sobre a história e a vida da pessoa que está na marquesa?

Se ela quiser, sim. Se não, é uma mera massagem, em que estou a trabalhar músculos, porque estão tensos ou porque doem, e mais nada. Se houver um trabalho de continuidade, a pessoa começa, ela própria, a descobrir o seu corpo de outra maneira. Por exemplo, a descobrir que tem dores onde não sabia que tinha. Ou a livrar-se de dores crónicas. E isso fá-la questionar-se. Às tantas está a falar do que lhe está a acontecer na vida, nas diferentes relações com os amigos, ou a namorada…

Ou no trabalho…

Então o trabalho… O trabalho é aquilo de que mais se fala na marquesa. Devíamos discutir muito mais o que andamos a fazer às nossas vidas com estas sobrecargas de trabalho. Conheço psicólogos que trabalham imensamente, que não têm um minuto livre. E depois é uma profissão que tem desemprego.

Está desequilibrado.

E quem diz esta diz outra área qualquer. Vivemos regimes excessivos de trabalho, e por vezes sem nenhuma crítica porque achamos que quanto mais se trabalhar mais a pessoa se valoriza. Tornamo-nos uns workaholics e a dependência do trabalho está na base de muitos problemas psicológicos. Muitas instituições instauram regimes férreos sobre os seus trabalhadores, de vigilância, de avaliação do desempenho, que os submete a um stresse permanente. Isto é causa de muito sofrimento psicológico e de doença.

Já me falou do prazer que lhe dava o atletismo. A massagem foi uma forma de recuperar a relação com o seu corpo?

Foi, porque também representa um trabalho físico. Se estiver uma tarde a fazer massagem é como ter ido ao ginásio. Com a vantagem de que eu também recebi o benefício de estar com a outra pessoa.

E as tensões dela não passam para si?

Às vezes sim, mas isso faz parte. Se for psicólogo numa terapia convencional, a pessoa também me passa tensões.

Tem de arcar com os problemas dos outros…

Tenho colegas que fazem psicoterapia e que me dizem que às vezes saem carregados psicologicamente e que estão a precisar de qualquer coisa que os liberte daquilo. No trabalho corporal também pode acontecer isso. Mas acontece muito mais o contrário. À medida que transmite o bem-estar à pessoa, porque vai restabelecer fluxos energéticos que estavam bloqueados, esse bem-estar também passa para si. Tenho pessoas que me dizem: ‘Desde que estou aqui na massagem’ – e isto não é com uma sessão nem duas – ‘sinto que o meu corpo não está dividido’. Ou: ‘Eu era um da cintura para baixo e outro da cintura para cima e agora sinto-me integrado’. Ou ‘tinha sempre as extremidades frias e agora não tenho’. E não é por usar mais roupa.

É a circulação que melhora?

A circulação da energia, não é só a circulação sanguínea.

O que é a circulação da energia?

É muito comum as pessoas fazerem tensões no pescoço, tanto na musculatura posterior do pescoço como na parte da frente, na zona da garganta. As tensões na garganta resultam de não podermos dizer o que queremos. Desde crianças, por exemplo, temos de inibir o choro. Ou seja, não libertamos as emoções mais pesadas e elas fixam-se sob a forma de tensão crónica no anel cervical. Às vezes até inibe a voz, que fica sumida, pouco nítida, sem brilho, uma voz que às vezes é só peitoral. E isto faz com que a energia que circula pelos nervos periféricos esteja diminuída. Há menos fluxo energético a chegar às mãos e aos pés e por isso eles arrefecem. Aqui nem é uma questão de circulação sanguínea, é uma questão de circulação elétrica, se quiser, porque os nervos funcionam com eletricidade.

Gostava de saber em que medida a sua história pessoal está ligada a esta perspetiva mais holística. O facto de ter perdido a visão permitiu-lhe descobrir, dar atenção a outras coisas?

Não vou tanto por aí. Devo ter uma característica, que não sei de onde vem, que é gostar de trabalhar sempre nas fronteiras. Quando comecei a minha vida académica há 30 anos, na segunda metade dos anos 80, o fenómeno droga era visto como um flagelo social. Um dirigente da época até dizia que estávamos perante ‘a peste do século XX’. Vê-se bem que não tinha vivido no tempo da peste… Aquilo era visto como um grande problema.

E não era?

Era, mas só se olhava de duas maneiras: a abordagem jurídico-criminal, considerando que estávamos perante toda uma área de crime – o tráfico, os bairros do tráfico, os indivíduos que ganhavam dinheiro à custa dos infelizes da droga, tudo isto ligado a uma espécie de urbano degradado que era a fonte dos males da cidade; outra era uma abordagem inicial estritamente médica ou então muito à base de um racional terapêutico que vinha da psicanálise, tentando uma terapia que com a toxicodependência pura e simplesmente não funcionava. No meu trabalho rapidamente comecei a avançar para outro diálogo com o fenómeno droga que me foi ensinado pelas técnicas de terreno, pelos etnógrafos, pelos antropólogos. Aprendi com eles o trabalho de campo e fui fazer investigação justamente nos hotspots, zonas onde estavam traficantes, onde estavam compradores, onde o pessoal se injetava…

Não era perigoso?

Se usar as técnicas corretamente não. Não é chegar lá, ‘Aqui estou eu, mostrem-me o que estão a fazer’. É uma abordagem progressiva, criar confiança com alguns sujeitos que passam a ser os seus…

Uma espécie de cicerones, ou padrinhos?

É mais por aí. Se é um fulano que naquela comunidade tem um papel central e você cria uma relação de confiança com ele, a comunidade, que confia nele, transmite essa confiança a si. Andei muitos anos a fazer etnografia. Isto para lhe dizer que me aproximei de comunidades científicas de fora da psicologia. E agora que estou menos interessado nestes fenómenos, e que tenho vindo a trabalhar o tema da psicocorporalidade, tenho-o feito novamente numa área de fronteira com outras disciplinas que estudam o corpo – a fisiologia, a medicina, o ioga, a bioenergética. A psicologia mainstream para mim é muito monótona, e normalmente é redutora. Anda sempre à volta das mesmas coisas. Eu dou a imagem do mineiro que está sempre a escavar no mesmo buraco.

Há um bocado falava-me do culto das aparências na nossa sociedade. O facto de não ver não poderá ser uma vantagem no sentido de não se distrair com as aparências e poder pensar as coisas de maneira diferente?

Pode. Mas não sou daqueles que acham que isto é uma vantagem. Se pudesse voltar a ver queria ver. E muita gente que perde a visão não consegue fazer uma adaptação satisfatória e isso é fonte de grande sofrimento e de grande retração da sua vida, desde logo física, porque não tem muito como sair de casa, por exemplo – as cidades não estão feitas para quem não vê e é difícil a pessoa ser autónoma. Portanto isto está longe de ser uma vantagem. Agora, que nos obriga a adaptações e que podemos desenvolver outras formas de conhecimento, por exemplo a tátil, ou seja, passarmos a extrair conhecimento através do tato que não extraímos se vermos, isso sim. Mas eu nem consigo dizer muito bem em que é que isto representou uma vantagem. Dito de outra maneira: se não tivesse perdido a visão se calhar tinha feito as mesmas coisas.

Ao lermos o seu livro percebemos que também é um grande leitor. Cita Freud, Foucault, Bachelard, Reich… Como é a sua relação com os livros?

A minha relação com os livros é precoce, porque o meu pai era um admirador de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queiroz, a minha mãe era professora primária, ensinou-me a ler e a escrever ainda antes de entrar para a escola primária. Às vezes a brincar digo que me ensinou-me a fazer redações e eu nunca mais perdi esse hábito. Portanto a minha relação com os livros é de toda a vida e mesmo depois de perder a visão também, porque hoje não é preciso ver para ler – felizmente Portugal tem boas bibliotecas sonoras e também temos acesso a todos os materiais que circulam nos sites.

É professor universitário de Psicologia, massagista e autor de poesia e ficção. Estas três atividades de certo modo traduzem as três dimensões de cada ser humano: o corpo, o intelecto e o espírito? Ou já estou a incorrer naquele erro…

Cartesiano! [risos] Nunca pensei muito porque é que fazia isto ou aquilo. Quando entrei para o ensino superior em Engenharia e tive um insucesso escolar tremendo. Percebi que se lá ficasse iria demorar uns dez anos a fazer o curso e mudei. Mudei, posso dizer, à sorte. Porque queria mesmo era tirar um curso de literatura, tinha vinte anos e queria ser escritor. Mas para isso tinha de ter Latim. Na altura estava a surgir em Portugal um curso novo e olhei para aquilo e pensei: ‘Olha que engraçado, ser psicólogo, deve ser giro trabalhar com malucos…’.

Muita gente acha que tem uma certa aura romântica e vai para Psicologia com uma ideia errada…

Completamente. Aliás enquanto professor de jovens que querem ser psicólogos sei bem disso. Fui para Psicologia um bocado por acaso e acho que as coisas na vida vão-nos acontecendo. O Agostinho da Silva dizia: ‘Vou em cima de um burro, mas em vez de ir a comandar a rédea pousei-lhe a rédea no pescoço e o burro é que vai’. Revejo-me nesta metáfora de Agostinho da Silva, que aliás é para mim uma grande referência de pensamento e de atitude existencial. Tem outra frase que adoto e que digo todos os anos aos meus estudantes: ‘Olhar o palácio do saber como se ele fosse festa e não como se nós fôssemos o boi’. Isto é uma atitude permanente na minha vida: o saber, para mim, é um palácio. Com muitas divisões. Entramos no palácio e fascinamo-nos nesta divisão que é a medicina, naquela que é a psicologia, na outra que é a literatura… Tenho um bocado o problema de que me interesso por tudo.

Os seus alunos também têm essa curiosidade?

Uns mais, outros menos. É nos que têm menos que mostramos se somos ou não somos professores. O professor é aquele que consegue instigar a curiosidade no estudante, mostrando-lhe o que há de bonito naquilo que está a ensinar. Quem não fizer isto não é professor. É um indivíduo que está para lá a dar matéria. Mas isso qualquer um faz.