Sociedade

Lisboa passa os 3 mil doentes internados com covid-19

Ajuda alemã chega esta quarta-feira a Portugal, mas ontem, ao final do dia, os hospitais não tinham ainda indicação de onde serão integrados 26 médicos e enfermeiros militares enviados por Berlim,isto segundo os números avançados na imprensa alemã. Chegada está marcada para as 13h15 em Figo Maduro.


A região de Lisboa já tem mais de 3 mil doentes internados com covid-19 e tem a situação mais crítica no país, com as admissões ainda a subir mais do que as saídas dos hospitais e já com dezenas de doentes transferidos para estruturas de retaguarda e para vários pontos do país, do norte ao Algarve. Segundo o i apurou junto da Administração Regional de Saúde, ontem estavam internados só nos hospitais da região 2997 doentes com covid-19, 2651 em enfermaria e 339 em UCI (e sete em hospitalização domiciliária). São quase metade dos doentes internados no país e, agora, mais do que em qualquer outra região. Acrescem os doentes em hospitais de campanha e outras estruturas de apoio, nomeadamente militares, dados globais que não foram facultados pela ARS. Só no hospital de campanha do Estádio Universitário, aberto há uma semana, com capacidade para 58 doentes moderados que ainda não podem ter alta hospitalar, havia cerca de 40 doentes internados, a maioria com necessidades de oxigénio.

Com a situação epidemiológica mais complexa – uma incidência a sete dias acima dos mil casos por 100 mil habitantes – e, ontem, com uma primeira descida nos casos reportados esta segunda-feira face à semana anterior, que só os próximos dias permitirão perceber se se mantém e começa a retirar pressão dos internamentos, a região de Lisboa será o local mais imediato de intervenção da equipa militar alemã que esta quarta-feira de manhã está previsto chegar ao aeródromo de Figo Maduro.

 

Até à última para saber o destino dos alemães

À hora de fecho desta edição, a informação oficial do lado do Governo português sobre para onde irão os alemães era escassa: só havia mesmo a confirmação, já do dia anterior, da chegada esta quarta-feira e que se trata de uma equipa de profissionais de saúde militares com competências ao nível da medicina intensiva – e ainda da cedência de material clínico (ventiladores, bombas e seringas de infusão) – e que irão permanecer em Portugal durante um período de três semanas, estando prevista a sua substituição a cada 21 dias. E a nota da agenda sobre a chegada: pelas 13h15, a equipa será recebida pelo ministro da Defesa, pela ministra da Saúde e pelo embaixador da Alemanha no aeroporto de Figo Maduro.

A imprensa alemã foi adiantando mais detalhes ao longo dos últimos dias. Segundo a Deutsche Welle, a equipa enviada para Portugal tem 26 elementos, entre os quais oito médicos, enfermeiros e auxiliares, além do equipamento, que inclui ventiladores portáteis, 150 camas articuláveis e bombas de infusão, usadas em cuidados intensivos.

Ao final do dia, os hospitais da região, que na semana passada receberam uma primeira visita de especialistas alemães, ainda não tinham também informação sobre a integração dos reforços alemães, mais direcionados para medicina intensiva. António Diniz, coordenador da estrutura de contingência hospitalar da região de Lisboa, adiantou ao i que os trabalhos para equipar o segundo pavilhão do Estádio Universitário, para reforçar o hospital de campanha no centro de Lisboa com mais 150 camas, estão a decorrer, mas não estava previsto que esse alargamento conte com o material trazido pela equipa alemã. O novo pavilhão deverá estar operacional no espaço de uma semana, adiantou ao i o responsável.

Segundo o i apurou, um dos cenários em cima da mesa passa pela mobilização da equipa alemã para reforço das estruturas de retaguarda de natureza militar, quer a base naval do Alfeite, quer mesmo um eventual reforço junto do Hospital Militar, que já duplicou o número de camas, com apoio pontual nas unidades de cuidados intensivos dos hospitais. Lisboa enviou na semana passada os primeiros doentes críticos para a região da Madeira e, entretanto, o número de doentes com covid-19 em cuidados intensivos continuou a aumentar.

Ontem, como já referido, a ARS indicou ao i que estavam internados em UCI 339 doentes com covid-19. Na semana passada, indicou, na altura, ao i a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, a região tinha 442 camas de UCI, o que, com o número de doentes agora internados, significaria já 80% da capacidade de medicina intensiva da região ocupada por doentes com covid-19. O aumento de doentes com o novo coronavírus tem obrigado, no entanto, a mobilizar mais áreas “limpas” dos hospitais para responder a doentes críticos e têm sido abertas mais algumas camas de UCI mesmo nos hospitais que já tinham ultrapassado os planos de contingência nesta área. O Amadora-Sintra tinha esta terça-feira 44 doentes em UCI, quando os planos previam 30 camas. Também o Santa Maria tem estado a abrir mais algumas camas e espera ter mais dez vagas em UCI nos próximos dias, revelou à Antena 1 o diretor do serviço, João Ferreira Ribeiro, admitindo que o ponto de partida para estas vagas já não era confortável nos hospitais. “A capacidade de mobilizar recursos adicionais já está praticamente esgotada”, disse. Questionado sobre a ajuda internacional, Ferreira Ribeiro disse desconhecer os detalhes da ajuda, que considerou um gesto de solidariedade importante mas com limitações. “Do ponto de vista estritamente tecnológico, será sempre meramente simbólica”, disse, considerando que a integração de recursos estrangeiros nas equipas pode ser difícil, desde logo pela expressão linguística.

 

Bundeswehr em ação

Na imprensa alemã, que nos últimos dias tem acompanhado os preparativos para o envio de militares para Portugal, assinalava-se ontem que esta não é a primeira missão da Bundeswehr, as forças armadas alemãs, noutros países. A Deutsche Welle recordava que, no final de março do ano passado, os militares alemães resgataram doentes críticos de hospitais italianos. “Um total de cerca de 10 mil soldados apoiam a luta contra a pandemia na Alemanha, mais recentemente, por exemplo, na instalação e operação de cerca de 400 centros de vacinação”, descrevia, referindo o papel do exército na vacinação de idosos nos lares e apontando também o contributo das forças armadas alemãs no rastreio de contactos, o que, de resto, tem estado a acontecer em Portugal – no ano passado, no norte do país, mais afetado pela segunda vaga, e, nas últimas semanas, na região de Lisboa, com sete equipas de militares a colaborar na recuperação de inquéritos atrasados.