Editorial Luz

De zero a dez, confinada

Dou por mim a pensar se comecei a fazer alguma coisa que não tinha por hábito antes destes períodos de confinamento. E só cheguei a uma triste conclusão: com o projeto de tornar-me uma atleta em ascensão falhado desde o ano passado - sem novas tentativas, entretanto, para evitar frustrações desnecessárias -, também na cozinha as piruetas entre tachos, panelas e frigideiras não foram muito além do menu obrigatório do dia-a-dia. Não sei por que motivo dei tantas cambalhotas à volta do assunto e não passei simplesmente para outro exercício. ‘Que ridículo, não te lembras de nada?’, teimei. Absurdo era ainda estar com a cabeça em modo saltos mortais para ver se chegava a uma resposta.

Se tivesse acabado aquele puzzle já tinha este flic-flac executado. O desafio estava a começar a parecer-me mais difícil do que correr a maratona, mas depois voltei a lembrar-me do plano de treinos para iniciantes que tentei cumprir - e vestida a rigor. Mas o que conta é a intenção ficar registada, o resto logo se decide, há tempo.

Não todo o tempo que se quer, avisam-me também os veículos com sirenes que vou ouvindo passar rua acima. 

Mais valia o silêncio continuar a ser o único a policiar a esquina. E aquela vizinha, que nos faz saber que está bem de manhã e à tarde, sempre pendurada na sua janela.

Acontecem demasiadas coisas para dizer que não se passa nada. E, por isso, só resta sonhar com esse dia. O mais perto que estamos de mudar o cenário é à entrada de abril, fingindo por momentos que tudo não passa de uma mentira. Mas essa tem perna curta e o certo é que já lá vai praticamente um ano.

Ligam-me de um número que não conheço e é a operadora de televisão. No final, apercebo-me que nos últimos meses passei a responder, sempre que me foi pedido, àqueles ‘Questionários de Satisfação de Cliente’.

E agora pergunto-me: de 0 a 10, será que encontrei a resposta tão desejada? Porque não?!