Opiniao

Ainda vamos a tempo de travar o apagar da história e da identidade de Lisboa na Praça do Império

O Jardim da Praça do Império é hoje, na memória coletiva e na identidade dos lisboetas, um jardim que integra os brasões florais.

A subtração dos brasões das antigas províncias ultramarinas de Portugal da Praça do Império tem origem num preconceito ideológico e tem como objetivo apagar a história de Portugal. Tudo o resto são pretextos, desculpas e uma teimosia que desrespeita a identidade da cidade.

O argumento de que se pretende retomar o traçado original do Jardim da Praça do Império, da autoria de Cottinelli Telmo, desenhado no âmbito da Exposição Mundial do Mundo Português, em 1940, é uma desculpa para justificar uma agressão de cariz ideológico, por ironia, defendendo um suposto respeito por uma iniciativa que pretendeu exaltar, a pretexto da comemoração da fundação da nacionalidade e da sua restauração, o regime do Estado Novo. Curiosa ironia…

Na verdade, o traçado original do jardim durou apenas vinte anos. Em 1961 por ocasião dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique e no âmbito da Exposição Nacional de Floricultura, foram projetados e implantados os brasões florais das antigas colónias que marcaram o espaço e que acabaram por se tornar definitivos, sendo mantidos, durante décadas, pela Câmara Municipal de Lisboa.

O Jardim da Praça do Império consolidou-se com a integração dos ditos brasões florais, constituindo parte da sua identidade e fazendo parte da memória dos lisboetas. Aliás, não fora o desleixo municipal (que infelizmente se verifica também noutras circunstâncias), o melhor exemplo nacional da técnica de mosaico-cultura seria precisamente aquele. Infelizmente, este descuido também serve de pretexto para a eliminação desta arte.

Num tempo em que ações extremistas de cariz ideológico, mal disfarçadas da defesa dos direitos humanos, têm vandalizado monumentos e pretendendo apagar partes da história dos povos, em Lisboa é uma entidade oficial que assume esta onda de rejeição da história, agravada, neste caso, com o desrespeito pela identidade de um espaço emblemático da cidade.

As instituições públicas devem ser exemplo de respeito pela história e pela identidade dos espaços e das comunidades. Para além do desrespeito por aquele espaço em concreto, receio que esta atitude seja um incentivo a atitudes de vandalização de elementos históricos de Lisboa.

A história de muitos séculos da cidade é feita de uma sucessão de intervenções marcadas por cada época e que devem ser olhadas, no presente, à luz do seu tempo. Este jardim e estes brasões são, também, um património de Lisboa que importa respeitar e preservar.

As alterações no espaço urbano devem respeitar a memória e identidade existentes. Sem impedir a renovação, as intervenções devem procurar preservar a relação dos cidadãos com o espaço público, promovendo através dessa preservação, a valorização e identidade histórica da cidade.

O Jardim da Praça do Império é hoje, na memória coletiva e na identidade dos lisboetas, um jardim que integra os brasões florais. O respeito por este património não é confundível com a defesa de outros tempos, mas que, de forma irreversível, fazem parte da história de Portugal.