Falar baixinho

Uma oportunidade para os alunos se tornarem mais autónomos

Na maioria das casas os pais estão a trabalhar e sentem que não vão poder dar o apoio necessário aos filhos, o que também os deixa ansiosos. Esta ansiedade irá necessariamente passar para os mais novos o que, no meio de um ambiente já estranho, os irá deixar ainda mais inseguros.


A minha caixa de e-mail voltou a encher-se de mensagens das escolas dos meus filhos, o que me faz reviver o que aconteceu em março do ano passado. A continuação do segundo período que decorreu à distância podia ter sido um desastre. Fomos todos atirados para uma situação totalmente nova de repente, para a qual não estávamos minimamente preparados e de um momento para o outro as aulas continuaram, mas on-line. O meu filho mais velho tinha 12 disciplinas, cada uma, claro, com uma senha de acesso ao zoom diferente. Umas mantinham-se sempre iguais, outras mudavam todas as semanas e outras ainda, estavam erradas. Eu recebia no meu e-mail a toda a hora trabalhos, alertas com prazos de entrega, mudanças de password, etc. e mal acordava já tinha dezenas de mensagens de mães em desespero no grupo do WhatsApp. Muitas vezes as sessões não funcionavam corretamente e outras as condições em casa não eram compatíveis com as atividades escolares – como irmãos em simultâneo no ensino à distância ou os mais novos a correr pela casa. Já para não falar dos trabalhos que caíam em catadupa, muitos dos quais era impossível fazerem sozinhos e de uma plataforma para envio dos mesmos que não os suportava. Enfim. A páginas tantas quem também já não suportava nada daquilo era eu. Já o terceiro período correu muito melhor e, olhando para trás, acho que foi a nossa capacidade de relativização que nos salvou. Não podíamos fazer mais do que nos era possível e também não íamos enlouquecer por isso. Uma coisa é certa, os meus filhos levaram o ensino à distância com tranquilidade, conseguiram entregar todos os trabalhos, acompanhar as aulas e, sobretudo, tornaram-se muito mais autónomos, responsáveis e desenvolveram várias capacidades de informática que de outra forma só iriam adquirir mais tarde.

Este ano as escolas estão mais preparadas. Há regras de conduta para garantir o bom funcionamento das aulas, a videoconferência já não é um bicho-de-sete-cabeças e a organização das aulas e trabalhos é maior.

Na maioria das casas os pais estão a trabalhar e sentem que não vão poder dar o apoio necessário aos filhos, o que também os deixa ansiosos. Esta ansiedade irá necessariamente passar para os mais novos o que, no meio de um ambiente já estranho, os irá deixar ainda mais inseguros. No ano passado senti que os professores ainda precisavam muito de nós, pais, mas este ano está tudo pronto para que sejam eles a tomar as rédeas, até para que a avaliação e acompanhamento dos alunos seja mais real. Os pais não terão de fazer de professores, mas sim, preparar e apoiar ao máximo os filhos para que estes sejam autónomos ao máximo e possam gerir a participação nas aulas e trabalhos sozinhos. Claro que o grau de independência irá depender não só da idade, mas de cada criança, no entanto não devemos dramatizar. Quanto mais fizermos por eles, mais incapazes eles serão. Parece-me que esta é uma boa oportunidade para promovermos a independência, autonomia e sentido de responsabilidade que as gerações mais novas têm vindo a perder. Ajudá-los não é fazer por eles, mas ensiná-los a fazerem sozinhos. Nós estaremos disponíveis de retaguarda, mas não é benéfico para ninguém, por exemplo, haver pais a assistirem às aulas dos filhos, ou a fazerem os trabalhos por eles para terem a certeza de que têm uma boa nota. Façamos o nosso trabalho e deixemos os professores e os alunos fazerem o deles, acreditemos mais nas capacidades das nossas crianças. Tenho a certeza que elas nos vão surpreender e a sua autoconfiança e autoestima vão agradecer!