Contra a corrente

Portugal – dois caminhos

Os resultados das recentes eleições presidenciais provocaram um verdadeiro terramoto na ‘construção de frases feitas’ onde se tem baseado a apologia da nossa atual democracia. De repente, essa construção desabou e anda tudo ‘à nora’ à procura de explicações e de perspetivas futuras. Vamos tentar hoje deixar algumas pistas para o debate:

1. A situação presente é insustentável. Desde há bastantes anos que ela tem vindo a evoluir nessa direção, tanto por razões externas como internas:

a. Com a queda da URSS e o Consenso de Washington, o célebre ‘estado social’ perdeu razão de ser e foi-lhe decretada a extinção, em nome de um capitalismo semelhante ao do século XIX. Os conceitos de democracia-cristã e de social-democracia vão, por arrasto, para o caixote do esquecimento e da ‘inutilidade’;

b. A nossa plutocracia partidária comedora e distribuidora de ‘fundos’, a que, teimosamente, se tem dado o nome de ‘democracia’, abandonou todas as bases produtivas nacionais, malbaratou os fundos em embelezamentos ‘tipo Versailles’ e endividou o país até ao tutano, sem hipóteses de saída. Portugal, em processo de dissolução, é um mero objeto nas mãos dos nossos colonizadores.

2. A situação internacional também evoluiu, e vai continuar, no sentido de uma confrontação em grande escala no ‘teatro europeu’, entre o ‘Ocidente’ e a Rússia, no quadro de uma confrontação global de uma prometida aliança das democracias contra o binómio China-Rússia. A resposta americana dada à Sra. Merkel através das recentes posições tomadas pelo Parlamento Europeu sobre o projeto Nord-Stream II e o Sr. Guaidó, mostra ‘quem manda na Europa’.

a. Os europeus vão ter de gastar muito mais dinheiro em Defesa e vai sobrar muito menos para manter ‘preguiçosos’, no dizer do ‘patronato colonialista’. Por isso, Portugal vai ter de ficar muito mais barato, vai ter de viver com muito menos fundos e sem novos empréstimos. Terá de haver austeridade à seria, justificada pela ‘pandemia’.

b. A aliança das democracias vai precisar de soldados portugueses e não vai permitir ‘quintas colunas do inimigo’ na retaguarda da linha da frente dos confrontos. Para isso, haverá limitações às liberdades e poderão ser reabertos aljubes e peniches.

c. Por isso, em Portugal só terá cabimento um poder político austeritário, autoritário e amigo da ‘aliança’. O que está em curso através do cerco e ataque externo (pelo Chega) aos castelos do CDS e do PSD, de absorção dos ‘liberais independentes’ e de partes do PS, é a preparação de uma nova maioria para executar o programa supra. Já vimos disso no passado, na transição da 1.ª República para o Estado Novo. Muito parecido!

3. Perante tal perspetiva, o que fazer?

a. Acabar com a conversa de ‘esquerdas’ e ‘direitas’ e promover, desde já, com urgência, uma frente patriótica e democrática capaz de salvar a República do 25 de Abril, reganhar capacidade de decisão nacional e posicionar o país contra as confrontações mundiais, a favor da paz e da cooperação.

b. Convocar, com base numa estrutura autónoma e prestigiada, no prazo de 6 meses, um congresso patriótico e democrático que crie estruturas unitárias participativas de base territorial e setorial, de modo a repensar todos os caminhos seguidos até hoje e apresentar um programa coerente e unitário de ação;

c. Preparar uma sólida vitória eleitoral da frente patriótica e democrática em todos os órgãos políticos e escalões da sociedade;

d. Começar, desde logo, o ‘desacoplamento’ do ‘sistema económico e financeiro colonizador’ e reconstituir as bases de uma economia nacional que garanta a soberania alimentar, energética e em outros setores básicos. Tal poderia mesmo começar desde já, no quadro da ‘pandemia’ e de uma convergência política entre o PS, os atuais PSD e CDS, o PCP, o BE e outras forças… 

Mais vale cedo que tarde! Mostrem clarividência e patriotismo!